Grupo de Economia da Energia

As incertezas sem precedentes sobre o futuro da energia

In energia on 27/09/2010 at 00:15

Por Ronaldo Bicalho

De acordo com Alex Forbes, no European Energy Review, um dos destaques do último Congresso Mundial de Energia, em Montreal, foi a apresentação do economista-chefe da Agência Internacional de Energia (AIE), Fatih Birol, sobre alguns dos temas-chave do próximo World Energy Outlook.

Birol identificou quatro fatores cruciais para a definição do nosso futuro energético: as grandes incertezas sobre a recuperação econômica, o gás de xisto e as políticas de mudança climática; a insensibilidade crescente dos mercados de petróleo a mudanças de preços; o impacto cada vez mais amplo da China na dinâmica global da energia; e a mudança do papel da política pública de energia. Esse conjunto de fatores, segundo Birol, gera um contexto de “incerteza sem precedentes” para a indústria de energia global.

Incertezas: recuperação econômica, gás de xisto e mudança climática

Segundo o economista-chefe da AIE, a forma e o ritmo da recuperação econômica após a crise global é, sem dúvida, a grande fonte de incerteza que a indústria de energia enfrenta no curto e médio prazo; na medida em que a trajetória de recuperação é fundamental face à correlação entre a atividade econômica, a demanda e a oferta de energia e, portanto, os investimentos em energia.

Alguns economistas afirmam que a recuperação vai levar um longo tempo”, disse Birol. “Alguns dizem que nós veremos uma segunda recessão, e outros que em breve veremos uma forte recuperação”.

Uma questão crucial, acrescentou, é se as economias emergentes, muitas das quais – para a surpresa da maioria dos economistas – não foram severamente afetadas pela crise, poderiam agora enfrentar dificuldades em função das suas ligações comerciais com as economias da OCDE, cuja recuperação tem sido “lenta”. As economias emergentes são importantes, porque é nelas que está previsto ocorrer o maior crescimento na demanda de energia.

Uma outra fonte de incerteza é o que vem ocorrendo nos mercados de gás natural, por causa das suas implicações não apenas para a indústria de gás, mas também para a indústria energética como um todo.

A visão do CEO da Shell, Peter Voser, em Montreal, foi que o gás natural poderia mudar o cenário energético mundial para melhor. O presidente da IHS Cera, Daniel Yergin, descreveu o boom na produção de gás não convencional – o “vendaval de xisto”, como ele chama – como a maior inovação na área de energia desde o início do novo século.

Para Birol, as tendências do mercado de gás constituem uma grande fonte de incerteza, na medida em que o “vendaval de xisto” ainda está em seus primeiros dias, e as suas perspectivas, portanto, ainda são altamente incertas.

Atualmente, o gás de xisto é produzido em quantidades significativas apenas na América do Norte. (…) é muito cedo para se afirmar que haverá um boom de produção de gás de xisto em todo o mundo. Pode muito bem ser o caso. Mas considerar isso como um dado pode ser uma informação enganosa para as tecnologias concorrentes, que poderiam perder por causa destas declarações muito fortes.”

Birol afirmou que o crescimento do gás de xisto gerou perdedores e vencedores, destacando a situação dos principais exportadores que perderam participação no mercado, em conseqüência desse crescimento. A manutenção do excesso de gás aumentaria a incerteza sobre a forma como esses agentes reagirão em termos de decisões de novos investimentos, especialmente no setor de upstream. A questão importante aqui é se e quanto tempo vai durar esse excesso.

A terceira fonte de incerteza identificada por Birol é a política em torno da mitigação da mudança climática, após as frustradas negociações em Compenhage em Dezembro passado.

Birol afirmou que a situação atual é difícil de interpretar, levando a grandes incertezas sobre a política futura. Ele acrescentou que, embora mais de 100 países tenham se associado a uma meta de limitar o aquecimento global a 2 ºC acima dos níveis pré-industriais e assumido compromissos para reduzir suas emissões de CO2, muitas dessas promessas são difíceis de medir. E, além disso, as promessas foram feitas em bases voluntárias, em vez de obrigatórias. “Não há nenhuma garantia de que esses objetivos serão alcançados. O que acontecerá se não o forem? Existe uma grande incerteza aqui. Como as políticas sobre mudança climática serão levadas em consideração nas políticas energéticas nacionais continua em aberto.”

Insensibilidade aos preços de petróleo

De acordo com Birol, o segundo grande fator determinante do nosso futuro energético é a crescente insensibilidade da demanda e da oferta de petróleo às mudanças de preços.

Do lado da demanda, no passado, o petróleo foi usado por quase todos os setores: na indústria, nas residências para aquecimento, na geração de eletricidade. Mas agora, quando se olha para as estatísticas dos últimos cinco anos, quase 90% do crescimento na demanda de petróleo vieram do setor de transporte – carros, caminhões e aviões – no qual, mesmo quando os preços sobem, você não tem prontamente alternativas disponíveis para mudar.”

Além disso, o crescimento da demanda de petróleo hoje é proveniente de economias emergentes, nas quais, na maioria dos casos, os preços dos derivados são fortemente subsidiados. Assim, mesmo quando os preços sobem, há pouco incentivo para os consumidores mudarem seu comportamento, porque há um colchão entre os preços praticados pelos produtores e os preços na bomba. Isso significa que o aumento de preços necessário para conter a demanda tem sido muito maior do que aquele observado nas duas últimas décadas.

Insensibilidade semelhante está se manifestando no lado da oferta, embora por razões diferentes. Birol destacou um declínio geral na produção de petróleo de países produtores não-OPEP, cujos campos tendem a ser geologicamente complexos, o que significa que os custos de produção são superiores aos campos mais simples. Portanto, são necessários preços mais altos para estimular o investimento. Além disso, grande parte do crescimento na produção de petróleo terá de vir de empresas petrolíferas nacionais, disse Birol. Em muitos países essas empresas são os mais importantes geradores de receita e, na maioria dos casos, eles procuram ter preços mais altos a fim de maximizar as suas receitas.

“Portanto, não devemos ficar surpresos se precisarmos de preços de petróleo mais elevados para os investimentos em petróleo, e para a oferta e a demanda estarem em equilíbrio. Esta será uma questão importante nos mercados de petróleo, com implicações em todo o setor da energia – e, talvez, na economia

Os caminhos chineses

O terceiro fator crucial de Birol é o enorme  impacto que as futuras decisões políticas na China teriam, não apenas na própria China, mas na economia global de energia. “A política energética da China será um determinante-chave do futuro do sistema energético mundial”, disse ele.

Em 2000, apenas a 10 anos atrás, os chineses consumiam metade da energia que os Estados Unidos consumiam. Agora eles alcançaram os EUA. Esse é um crescimento muito – sem precedentes – forte. Isso significa que o tipo de políticas que a China seguir terá impactos importantes sobre o setor de energia de todos os países no futuro.”

Birol afirmou que o governo chinês estava pensando em explorar uma enorme  reserva “virgem” de carvão, na província norte-ocidental de Xinjiang, para a geração de energia. Embora contendo 40% de reservas de carvão da China, esses depósitos representam atualmente apenas 5% da produção. Descrevendo as reservas como um “Ghawar de carvão” (Ghawar é o maior o campo de petróleo do mundo e encontra-se na Arábia Saudita)), Birol disse que a exploração poderá fazer da China um grande exportador de carvão líquido, impactando os preços mundiais de carvão. Preços de carvão mais baixos afetariam significativamente o papel do gás na geração de energia – mercado de gás que apresenta o crescimento mais importante.

Além disso, enquanto a demanda chinesa para o gás deve crescer rapidamente, uma exploração em grande escala do “Ghawar de carvão” levaria a futura demanda de gás na China ser muito menor do que a prevista. Novamente, os efeitos seriam globais, agravando o excesso atual de gás natural e afetando outros combustíveis concorrentes.

A importância das políticas públicas

Finalmente, Birol considerou o papel dos governos como sendo o quarto fator determinante do futuro energético.

Todos sabem que eu acredito que os instrumentos de mercado são a melhor maneira de enfrentar os desafios do setor de energia. Mas agora, alguns dos desafios que estamos enfrentando, como a mudança climática, são tão complexos e tão urgentes, que, para economizar tempo, eu vejo um papel mais importante para as políticas públicas – porque o tempo é muito precioso.

Nesta conjuntura, a fé dogmática nos mercados de energia não será suficiente. Precisamos de políticas públicas coerentes para fornecer sinais estáveis e claros para permitir que as tecnologias avançadas sejam integradas nos mercados de energia – tanto no lado da oferta quanto no lado da demanda.

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A dinâmica energética mundial: de como recursos naturais, tecnologia, mercados e instituições determinam hoje a energia de amanhã.

Leia outros textos de Ronaldo Bicalho no Blog Infopetro

Para ver/fazer comentários sobre esta postagem, clique no retângulo vermelho abaixo.

  1. [...] A terceira fonte de incerteza identificada por Birol é a política em torno da mitigação da mudança climática, após as frustradas negociações em Compenhage em Dezembro passado. (…) continua no Blog Infopetro. [...]

  2. [...] Ver “As incertezas sem precedentes sobre o futuro da energia”, de Ronaldo Bicalho, postado em [...]

  3. Interessante é a proposta do especialista norte-americano, Allan S. Drake, que propõe a eletrificação acelerada das ferrovias como eixo principal de enfrentamento às incertezas múltiplas geradas pelo futuro do abastecimento de petróleo, mudança climática e instabilidade política. Vale a pena conferir:

    http://www.lightrailnow.org/features/f_lrt_2005-02.htm
    http://www.theoildrum.com/node/4301

  4. Mais um texto de Alan S. Drake que esqueci de acrescentar no post anterior, detalhando sua proposta de transição para uma hipotética economia pós-petróleo:

    http://www.aspousa.org/index.php/2010/10/a-citizens-guide-to-an-oil-free-economy-chapt-1/

  5. [...] mas o WEO deste ano suscitava especial interesse devido aos repetidos alertas sobre o contexto de “incertezas sem precedentes”; que já havia sido antecipado pela própria [...]

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