Grupo de Economia da Energia

Acidente nuclear de Fukushima: dilema para o planejamento energético mundial

In energia nuclear on 11/04/2011 at 00:15

Por Renato Queiroz

O acidente  na central de Fukushima Daiichi, situada a cerca de 250 km de Tóquio, e a classificação da  Autoridade de Segurança Nuclear da França (ASN) de que as explosões ocorridas na planta de geração  japonesa atingiram o nível 6 de gravidade, em uma escala internacional de classificação de eventos nucleares que vai até 7 [*], mexeu com os especialistas voltados às questões energéticas no mundo. O  fato acrescenta um forte elemento de incerteza para a indústria nuclear mundial.

O nível seis da escala INES significa acidente grave,  apontando que houve  liberação de material radioativo e traz como consequência a adoção, na área atingida,  de medidas que protejam a população.  Isso reflete na opinião pública mundial,  provocando grandes apreensões e pressões contrárias à geração de energia elétrica através dessa fonte.

Logo após o acidente, alguns especialistas, sob o impacto das trágicas notícias e imagens  em tempo real, concordavam com a tese de  que o renascimento da indústria nuclear  estaria  sendo abortado.  Mas talvez a questão que tenha faltado no debate foi: Como atender sem a nuclear ao crescente consumo de energia que as sociedades vão demandar nos próximos anos sob um contexto de redução das emissões de gases de efeito estufa?

Certamente uma primeira indicação é acompanhar os rumos estabelecidos nos planos energéticos da China, atualmente superpotência energética.  Assim, se o ritmo de implantação de novas centrais nucleares vai arrefecer, isso dependerá, em parte, das  decisões chinesas. É mister destacar  que o planejamento energético chinês tem sinalizado algumas alterações de rumos e verifica-se que ações voltadas ao  meio ambiente estão sendo anunciadas. A atual política energética chinesa  inclui  a aplicação de um imposto sobre as emissões de CO2 já em 2012.

Nesse contexto, contempla-se também o incremento das  energias renováveis, do gás natural  com  a  exploração do gás não convencional e da energia nuclear na geração elétrica.  A nova política prevê a redução da participação do carvão na matriz chinesa. No caso da energia nuclear há perspectiva  de que se os projetos planejados forem concretizados, a China  poderá   ter uma capacidade instalada, à base de fissão nuclear, que  ultrapassará a 100 GW, embora, após o acidente no Japão, os chineses tenham declarado que iriam rever o seu programa. Mas qualquer número próximo a  esse montante de 100 GW mantém um forte movimento de encomendas na indústria nuclear.

Dentro desse quadro, certamente, haverá investimentos em reatores mais avançados e com mais segurança, acalmando as preocupações, e atendendo à fome  de consumo de energia. Não nos esqueçamos de que o acidente de Chernobyl de 1986 impactou, sem dúvida, a geração de energia elétrica, a partir da energia da fissão atômica, mas como resultado trouxe o surgimento de novas tecnologias com  mais segurança e redução do tempo de decaimento da atividade do lixo atômico. O atual acidente incorpora uma nova preocuapação: o local em que a central será instalada.

Outra indicação que pode sinalizar uma matriz energética  com menos plantas nucleares  é a perspectiva de abundância de gás natural no mundo. Maior número de centrais a gás natural está com certeza na cabeça dos planejadores após o acidente  na central de Fukushima. Não nos esqueçamos dos novos cenários de exploração de gás não convencional na América do Norte.

É bem verdade  que  os planejadores consideram que uma maior oferta de gás no mundo  propocionaria a substituição do uso do carvão. Fica  a indagação se haverá molécula de gás para todos  substituírem, além do  carvão,  a fonte nuclear, em suas  matrizes de energia. Contudo se for essa a nova política, uma luz vermelha vai acender nas salas dos formuladores de políticas. As emissões de gases vão aumentar e o planeta ficará  mais quente. Dilemas à vista.

As fontes renováveis como Eólica, Solar, Biomassa e outras com toda a certeza receberão mais incentivos e suas participações serão maiores após o evento no Japão, o que é bom para o Planeta. Espera-se também que um maior apelo à Eficiência Energética venha nessa corrente, principalmente nos países em desenvolvimento que preveem um aumento significativo no consumo de energia elétrica.

Mas o planejador técnico não trabalha sob impactos de acidentes. Ele deve ter, sim, um leque de opções para  atender ao consumo futuro da sociedade. Um exemplo é que o acidente recente no Golfo do México não é considerado pelos planejadores como um corte na atividade offshore petrolífera. O planejador  analisa quais fontes energéticas  deverão ser selecionadas, atendendo aos requisitos de  menor custo de investimento e de combustível, maior fator de capacidade médio operativo, menor nível de emissões de gases, maior acesso aos recursos energéticos, nível de conhecimento tecnológico, e outros fatores que resultem em maior segurança energética.

E no Brasil ? Como se analisa a perspectiva de aumento da geração nuclear após o acidente  de Fukushima ?

O  país  possui duas usinas nucleares operando em Angra dos Reis com capacidade de cerca de 2.000 MW. Esse conjunto  representa  menos de 2 % do total da  matriz energética.  A terceira usina, Angra III, que  teve sua construção retomada  irá adicionar mais 1.400 MW ao sistema interligado.  O Ministério de Minas e Energia – MME – traçou a política energética brasileira no horizonte até 2030, a partir de estudos técnicos elaborados pela Empresa de Pesquisa Energética – EPE – entre 2005 e 2007.

A expansão da oferta de geração, dentro das  alternativas à evolução do mix hidrotérmico para  atendimento da demanda futura de energia elétrica, considerou entre o período 2005 e 2030 a necessidade de acréscimo de capacidade instalada de cerca de: 88.000 MW de hidroelétricas e  23.000 MW  de usinas térmicas, sendo 12.300 MW a gás natural, 4.600 MW a carvão e 5.400 MW através da energia nuclear incluindo, nesse montante, a usina já em construção de Angra III. E ainda cerca de 20.000 MW através de outras fontes tais como Eólica, PCH, Biomassa da Cana, Resíduos Urbanos, etc.

Vale destacar que tal estudo prospectivo considerou que ações de  eficiência energética no país diminuiriam o consumo de energia previsto em cerca de 53 TWh em 2030.  O que significa se esse montante de eficiência energética não ocorrer, mais usinas de geração de energia seja por fontes convencionais ou não convencionais serão necessárias. A política energética trabalha com dados da realidade.

Importante frisar que todos os resultados do plano de longo prazo foram apresentados  no MME, em seminários abertos em Brasília, oferecendo aos especialistas oportunidades de debaterem as hipóteses e resultados.

Estudos de planejamento energético dessa natureza partem de cenários macroeconômicos  mundial e nacional e utilizam uma série de modelos  de projeção de usos-finais, técnico-econômicos  de projeção do consumo final  de energia e oferta de energia. O planejador diante de um menu de tecnologias de geração de energia disponíveis municia os modelos com os parâmetros técnicos  e econômicos e  se depara com as soluções de oferta de energia para atender ao consumo projetado. Os formuladores de política energética, na etapa seguinte, incorporam, aos resultados técnicos obtidos, decisões estratégicas  que devem levar o país a um estado de segurança energética a médio e longo prazos.  A segurança energética é a meta principal daqueles que comandam as decisões energéticas de um país.

No caso específico da energia nuclear os estudos prospectivos sinalizaram o uso de reatores nucleares de 3ª e 4ª gerações que trazem uma maior disponibilidade do combustível  e  melhor  eficiência da transformação calor-energia elétrica.  Esses  estudos também avaliaram,  como estratégia,  o fato do Brasil ter consideráveis reservas de urânio e domínio da tecnologia de enriquecimento, o que dá ao país vantagens econômicas e estratégicas sob a ótica geopolítica. Cumpre citar que poucas  organizações no mundo enriquecem comercialmente o urânio.

Considerando as necessidades previstas de novas capacidades instaladas para gerarem energia elétrica  na base, conforme o PNE 2030,  há incertezas se o país consegue instalar até 2030 o montante total de GW através de hidroelétricas,  apontado no plano de longo prazo.  Os embates atuais com as usinas em construção de Belo Monte e Jirau causam preocupação, o que remete à busca de opções em um outro possível cenário. E nesse caso a energia nuclear e o carvão entram  na baila.

Certamente, quando uma  carteira de projetos energéticos é montada, a segurança do abastecimento, os custos envolvidos e os danos ambientais formam um conjunto de  riscos e incertezas.  Após  o acidente no Japão a energia nuclear trouxe preocupações à população e traz sem dúvidas dificuldades para políticos defenderem a instalação de uma planta nuclear em seu país, estado ou cidade. Em Berlim, Hamburgo e Colônia na Alemanha tem ocorrido amplas manifestações contrárias às plantas nucleares em operação.

Mas deve ficar bem  explícito que  avaliações de  suprimento de energia envolvem análises complexas e multidisciplinares. E uma decisão não tomada ou mal tomada  trará consequências maléficas para a sociedade.

Nesse sentido, as opções para a futura  matriz  energética elaboradas pelos respectivos organismos de um país, devem ser amplamente debatidas em  fóruns com a presença de especialistas com visões  diversas. A sociedade  deve entender os dilemas dos planejadores  na  condução de uma estratégia de expansão da oferta da energia  e as soluções apontadas. Com um bom entendimento do processo, a população pode ficar mais segura  nas escolhas  que visam trazer  para as futuras gerações alternativas energéticas sustentáveis.

Os  governos devem explicitar quantas vezes for necessário as suas estratégias  na condução  de sua  política energética de longo prazo,  mormente em situações de incertezas como a atual após o evento no Japão.

A complexidade em  avaliar as melhores oportunidades  na seleção das fontes que irão compor a matriz elétrica futura não permite decisões sem grandes avaliações  e reavaliações.

Felizmente o Brasil tem um leque de opções tecnológicas  para a geração de energia elétrica que proporciona ao formulador de política energética  uma  flexibilidade  bem maior do que em outros países.

Certamente o momento traz  novos dilemas para os planejadores energéticos.


[*] A Escala Internacional de Ocorrências Nucleares (INES) elaborada por um grupo de especialistas reunidos pela Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) e pela Agência de Energia Nuclear da OCDE (AEN/OCDE) classifica ocorrencias relacionadas com a segurança nuclear e radiológica.Segundo especialistas a escala INES o visa  informar  a sociedade o grau de gravidade de uma ocorrência.

Leia outros textos de Renato Queiroz no Blog Infopetro

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  1. A utilização do carvão e não a nuclear é que não deve ser admitida sob qualquer hipótese.
    E me vem o articulista oferecer o carvão como opção.
    É piada? Se não for, de qualquer forma, o Eike agradece.

    Tirando isso, o artigo é excepcional. Obrigado.

  2. Analisando-se as projeções da AIE para as próximas décadas, vemos que a substituição de combustíveis fósseis (Derivados de Petróleo, Carvão e Gás Natural) será muito difícil, sobretudo em um cenário
    de crescimento da demanda.
    Entendo que além dos investimentos em geração alternativa, deve-se investir massissamente na captura do CO2, de forma eficiente e economicamente viável.
    Um modelo possível, bem razoável, seria a substituição das frotas circulantes de motores a combustão por elétricos, bancado por geração Termoeletrica (Com captura de CO2).
    Acho que poderíamos passar a este estágio sem grandes impactos economicos.

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