Grupo de Economia da Energia

Etanol: de promessa a problema

In etanol on 16/05/2011 at 00:10

Por Luciano Losekann

Até recentemente, o governo brasileiro destacava o país como potência mundial exportadora de etanol. Nesse sentido, em 2007, o governo brasileiro divulgou um estudo que apontava a possibilidade do Brasil atender com etanol a 5% do consumo mundial de gasolina e que, com técnicas mais avançadas, essa participação poderia chegar a 10% em 2025[1], com uma produção de 205 bilhões de litros de etanol no país.

Passados quatro anos, a perspectiva é totalmente distinta. O cenário recente do etanol no Brasil é caracterizado por dificuldades de abastecimento do combustível, preços disparados e necessidade de importação do produto.

Em abril passado, os preços do etanol hidratado e anidro nas usinas de São Paulo apresentaram o valor máximo da série histórica dos últimos 10 anos. Em média, o preço do etanol hidratado na bomba alcançou preço 40% superior ao mesmo período de 2010. Como o preço do álcool anidro, que é misturado na gasolina, triplicou nesse mesmo período, o preço da gasolina também foi impactado, aumentando 15%.

Evolução dos preços semanais do etanol hidratado e anidro (R$/litro) – abril/08 a maio/11

Preço ao produtor no Estado de São Paulo

Fonte: CEPEA/ESALQ/USP

Em função dessa dinâmica de preços, pela primeira vez desde 2003, quando os veículos flex foram introduzidos, o consumo de álcool hidratado se reduziu em 2010 (-8% em relação a 2009). Como conseqüência, a demanda de gasolina, que ganhou competitividade em relação ao etanol, teve incremento 17% no ano passado.

Evolução do consumo anual de gasolina e etanol hidratado – bilhões de litros

Nota: dados de gasolina referem-se à gasolina C e considera o conteúdo de etanol anidro em sua mistura.

Fonte: ANP

Vários fatores contribuíram para essa drástica modificação de cenário. A crise financeira mundial e a valorização contínua do Real minaram os projetos que visavam a exportação do etanol brasileiro, afetando a dinâmica da oferta de longo prazo.

No entanto, essa postagem se dedica a avaliar fatores conjunturais que tiveram implicações na disparada de preços do etanol.  Avaliando os dados disponibilizados pela Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), verifica-se a evolução da disponibilidade de cana-de-açúcar para a produção de etanol, bem como a produção de etanol anidro e hidratado.

As condições climáticas não foram favoráveis para a safra 2010/2011 de cana-de-açúcar. O crescimento da produção da cana em relação à safra anterior (2009/2010) foi de 3,1%. Valor que é substancialmente inferior a média dos cinco anos anteriores (9,5%). No entanto, o principal problema para a disponibilidade de cana para a produção de etanol foi o aumento da destinação para a produção de açúcar. Motivado pelo elevado preço internacional do açúcar no mercado internacional, a destinação de cana para este fim aumentou 7,8%, enquanto que a destinação para etanol caiu em 0,5% em relação à safra anterior (2009/10).

É interessante observar que as perspectivas da CONAB para a próxima safra não são animadoras para o mercado de etanol. O crescimento da produção de cana será modesto e mercado de açúcar será mais uma vez priorizado, com redução do volume de cana destinado à produção de etanol.

Evolução da produção e destinação da safra de cana-de-açúcar – milhões de toneladas

 Safra

Produção de cana-de-açúcar

Destinação

Açúcar

Etanol

2009/2010

604

266

338

2010/2011

624

287

336

2011/2012*

642

309

333

* Previsão disponibilizada no primeiro levantamento da Safra 2011/2012

Fonte: CONAB

Ainda que a destinação de cana-de-açúcar para a produção de etanol tenha se reduzido na safra 2010/2011, a produção total de etanol cresceu. A produção de etanol anidro, impulsionada pelas vendas de gasolina, respondeu pela maior parte desse crescimento. A perspectiva para a próxima safra é de redução da produção total e do etanol hidratado.

Produção de etanol hidratado e anidro a partir das safras de cana-de-açúcar – milhões de litros

Safra

Anidro

Hidratado

Total

2009/2010

6.950

18.812

25.681

2010/2011

8.017

19.579

27.595

2011/2012*

8.708

18.382

27.090

* Previsão disponibilizada no primeiro levantamento da Safra 2011/2012

Fonte: CONAB

A difusão do carro flex criou um contexto para o consumo de etanol bastante distinto do que ocorria quando o combustível atendia a carros que utilizavam apenas esse combustível. A priori, a possibilidade de substituição pela gasolina afastaria o problema de segurança do abastecimento, que foi o motivo do fim do carro a álcool a partir do final da década de 1980.

Assim os produtores sucroalcooleiros, respeitando as restrições técnicas, podem arbitrar entre os mercados de açúcar e álcool conforme os sinais de preço. Nos momentos em que o mercado de açúcar é mais atrativo, como tem ocorrido nos últimos dois anos, aumenta a destinação da cana-de-açúcar para a produção de açúcar. A menor oferta de álcool hidratado implica em maiores preços e substituição por gasolina.

No entanto, o problema de segurança de abastecimento não é eliminado, apenas transferido para o abastecimento de gasolina. Um salto de consumo de 17%, como ocorreu com a gasolina em 2010, gera significativos problemas logísticos. Para atendê-lo, foram importados 3 milhões de barris de gasolina A (produto que o Brasil praticamente não importou nos últimos anos).

É interessante destacar que o governo detém instrumento importante de interferência no mercado de etanol que é a definição da percentagem de mistura do etanol anidro na gasolina. Apesar da situação crítica do abastecimento de etanol nesse último ano, a mistura se manteve em seu valor máximo de 25%. Se percentagem fosse reduzida com antecedência, poderia se evitar a pressão altista sobre os preços, principalmente do etanol anidro.

A decisão do governo de submeter a regulação do mercado de etanol à ANP aponta que o esse não deve ser mais coordenado como uma commodity qualquer e que a preocupação com a continuidade de abastecimento de etanol deve ser perseguida.

O início da safra da cana-de-açúcar 2011/12 já contribuiu para a redução dos preços do etanol nos últimos dias. No entanto, as previsões da CONAB apontam que essa não é suficiente para afastar os problemas na próxima entressafra, principalmente se os preços do açúcar continuarem elevados. Assim, será importante que o governo utilize não só o novo arranjo de coordenação, mas, principalmente, o mecanismo já existente, a administração do conteúdo de etanol anidro na gasolina.


[1] BBC Brasil “Etanol pode substituir 5% da gasolina até 2025, diz governo”. Matéria de 22/03/2007. Disponível em http://oglobo.globo.com (acessado em 13/05/2011).

Leia outros textos de Luciano Losekann no Blog Infopetro

Para ver/fazer comentários sobre esta postagem, clique no retângulo vermelho abaixo.

  1. Bom dia.
    Parabéns pelo estudo.
    Gostaria de saber como posso fazer para conseguir a série histórica do preço do álcool.
    Preciso fazer minha monografia.
    Pode me dar um auxílio?
    Obrigado

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