Grupo de Economia da Energia

Exploração e produção de petróleo e gás em águas profundas: evolução e tendências I

In gás natural, petróleo on 15/08/2011 at 00:10

Por Thales Viegas

A exploração e produção offshore (no mar) de hidrocarbonetos não é recente. As primeiras atividades teriam ocorrido ainda no início do século passado, no Golfo do México, Estados Unidos. Elas eram realizadas a partir da adaptação de equipamentos e técnicas da exploração em terra. Desde então, até os dias atuais, ocorreram muitas transformações tecnológicas e operacionais nesse segmento do upstream da produção de petróleo e gás. A partir delas, muitos recursos antes considerados inacessíveis, ou inviáveis economicamente, passaram a ser objeto de maior interesse e se tornaram reservas economicamente recuperáveis.

Nesta postagem inicial serão abordados o potencial de descoberta de recursos e o nível de reservas em águas profundas.

Inicialmente é importante registrar que o intenso desenvolvimento tecnológico associado ao segmento offshore resulta de pesquisas, inovações tecnológicas e operacionais que vêm permitindo uma constante redução de custos na exploração e produção. Cumpre notar, inclusive, que foi a partir da exploração offshore que se intensificaram as relações entre as petroleiras, as para-petroleiras e as instituições de pesquisa. Isso teria resultado no aumento das atividades de P&D e em um grande avanço tecnológico desde a década de 1960 até a presente década.

Com base nessas competências tecnológicas desenvolvidas, o offshore vem contribuindo crescentemente para a renovação das reservas de petróleo. Nesse contexto, a despeito de diversas previsões de redução na oferta das últimas três décadas, as reservas de petróleo teriam ficado mais abundantes ao longo desse período. De acordo com BP (2010) a taxa de reservas provadas por produção R/P (reservas/produção) mundial cresceu de 31 anos em 1973 para 42 anos em 2008. Desde então, novos horizontes de descoberta e exploração vêm emergindo continuamente. Depois do primeiro choque do petróleo as reservas cresceram cerca de 80%, mesmo com o contínuo aumento da produção.

Adicionalmente, na última década, a indústria do petróleo e gás vem experimentando um período de intensa volatilidade nos preços. Entretanto, as oscilações de preço ocorridas ao longo dos anos 2000 seguiram uma linha tendencial ascendente, o que teria aumentado a quantidade de projetos viáveis. Mesmo diante de ciclos econômicos e da intensa volatilidade de preços dos últimos anos, a maior parte dos planos de investimento neste segmento do upstream vem sendo mantida. Por um lado, isso reflete as expectativas de que os preços não irão se reduzir drasticamente e nem se manterão baixos por muito tempo. Por outro lado, expressa a necessidade das empresas de renovar as suas reservas ou aproveitar as oportunidades emergentes, ainda que essas estejam em áreas de difícil acesso e custo relativamente alto.

A necessidade de acessar outras bacias sedimentares está associada ao esgotamento de oportunidades em ambientes tradicionais. O Mar do Norte é um exemplo, por ser referência na exploração e produção offshore. A região teria atingido a sua maturidade, como se pode ver na figura 1. A produção teria atingido o seu pico em 1999, no entanto, teria se mantido em uma espécie de platô entre os anos de 1995 e o ano de 2002. Desde então a produção é decrescente e vem se aproximando de um patamar que corresponde à metade daquele pico histórico. As reservas do Mar do Norte vêm se esgotando. Resultado: as empresas que ali operam ou atuavam estão tendo de buscar novas fronteiras exploratórias.

Gráfico 1: Produção de Petróleo no Mar do Norte, em milhões de barris de óleo equivalente

       Fonte: US Energy Information Agency

Assim, as novas iniciativas de projetos offshore envolvem exploração em maiores profundidades e atividades na África e nas Américas do sul e do Norte, principalmente. Constata-se que o potencial de exploração ainda é grande. Os recursos localizados na camada pré-sal podem ampliar mais esse potencial no mundo.

Tabela 1: Potencial de Descoberta de Reservas em Águas Profundas no Mundo, em bilhões de barris de óleo equivalente (mmbbl)

Recursos G. do México México Brasil Nigéria Angola Egito Austrália Noruega
A Descobrir 50000 45000 35000 37000 20000 18000 17000 8000
Reservas 10000 0 15000 8000 12000 3000 8000 4000

Fonte: StatoilHydro (2010)

Diante dos robustos investimentos nas Américas do Sul e do Norte, a expectativa é que o Brasil coloque em produção entre 2010 e 2014, campos que possuem, ao total, volume de aproximadamente 8,5 bilhões de reservas provadas. Os Estados Unidos (no Golfo do México ou GOM) deve colocar em marcha a produção em campos que detém reservas de cerca de 7,5 bilhões de reservas, segundo dados do Infield Systems, como estão expressos no gráfico 2.

Gráfico 2: Total de Reservas dos Campos que devem ser colocadas em produção até 2014, em bilhões de barris de óleo equivalente

*Reservas em profundidade superior à 500 metros da superfície.

Fonte: Infield Systems Ld.

O mesmo entusiasmo que se percebe nos investimentos em tecnologia e nas próprias atividades de E&P de petróleo em águas profundas, não se verifica nas inversões, no desenvolvimento tecnológico e na produção de diversas modalidades de energias alternativas, que em muitos casos dependem de apoio governamental para se viabilizarem. Nem o aumento dos custos associados ao segmento offshore do upstream foram capazes de frear os investimentos. Os investimentos em offshore profundo permanecem elevados, de modo que a oferta de sondas e de plataformas nos anos 2000 têm tido dificuldades para acompanhar a evolução da demanda por esses equipamentos.

O resultado é que foram realizadas descobertas de elevada magnitude nos últimos anos. Um exemplo relevante consiste na recente descoberta realizada pela Petrobras e Exxon anunciada em junho de 2011. Foi a maior dos últimos dez anos no Golfo do México. Estima-se que o volume de recursos encontrado seria da ordem de 700 milhões de barris, situado a mais de dois mil metros de profundidade. O que se pode depreender desse contexto é que as iniciativas de E&P em águas profundas e ultraprofundas continuam crescendo em importância e em quantidade.

O Brasil segue na vanguarda dessas atividades em função do pioneirismo e da liderança da Petrobras nesse segmento do upstream. A empresa enfrenta um problema distinto de grande parte de suas concorrentes. Enquanto grande parte das petroleiras tem dificuldades para realizar um crescimento orgânico, com a renovação de suas reservas e aumento da capacidade produtiva, a Petrobras enfrente um problema oposto. Ela possui diversas oportunidades lucrativas de investimento, incremento de reservas e de produção. Mesmo possuindo um fluxo de caixa robusto, tendo reforçado o seu capital social e realizado captações financeiras significativas, a empresa ainda não consegue reunir capital para realizar todos os projetos que ela considera estratégicos. Vale ressaltar que a empresa possui um dos maiores orçamentos de capital do mundo. Em 2011 ela deverá investir U$ 28 bilhões, perto dos $30 bilhões da Exxon, a maior empresa do mundo.

De fato, o ritmo dos investimentos offshore em grandes profundidades vem se mantendo mais intenso do que os demais segmentos do upstream. Os principais elementos que contribuem para isso são: i) a existência de oportunidades de investimento nesse ambiente; ii) o acúmulo de conhecimento e avanço tecnológico que mitigam custos; iii) a competição das empresas no sentido de renovar reservas e crescer; iv) a manutenção dos preços de petróleo em patamares favoráveis e; v) a disponibilidade de caixa das petroleiras, derivada de lucros acumulados.

Assim, ainda que as atividades em águas profundas sejam mais intensivas em capital, ainda existem players capazes de assumirem os riscos e com capacidade de fazer frente aos grandes requerimentos de capital dessa atividade. São as grandes petroleiras que têm as melhores condições para atuar nesse negócio, pois são elas as que mais investem em capacitação tecnológica para adquirir as competências necessárias.

Em suma, o ritmo de descobertas, renovação de reservas e produção em águas profundas é crescente, apesar das incertezas regulatórias ainda presentes, dos maiores custos e riscos envolvidos nessa atividade. A tendência é que o offshore profundo se mantenha como a principal fronteira, mais imediata, da exploração de petróleo no mundo. Uma das principais fontes de novas reservas para as empresas internacionais de petróleo. Um dos sustentáculos da oferta de petróleo em um mundo com uma demanda crescente e com dificuldades de promover um processo de transição dos combustíveis fósseis para os renováveis.

Leia outros textos de Thales Viegas no Blog Infopetro

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  1. [...] nossa última postagem sobre E&P em águas profundas procurou situar esse segmento setorial no bojo da Indústria [...]

  2. Por que insistir num negócio que não está dando certo? A Petrobrás vai pro buraco se não perceber que a opinião pública quer mudar para uma matriz limpa, só não sabe como!
    O mundo e a Petrobrás tem que parar, sim, para pensar numa solução porque aceleração de crescimento é uma insensatez!
    Eu tentei convencer a minha familia a vender as ações quando estavam a R$70,00 e veja só como estão agora….
    Não dá para ficar em cima do muro!

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