Grupo de Economia da Energia

A independência energética americana

In energia on 30/01/2012 at 00:14

Por Ronaldo Bicalho

Em um curto período de uma semana, no final de Outubro do ano passado, três grandes jornais anunciaram que os Estados Unidos estavam a um passo de alcançar a sua independência energética.

Se no New York Times as novas tecnologias redesenhavam o quadro energético mundial, no Washington Post nascia uma nova ordem petrolífera mundial, enquanto que no Financial Times o pendulo energético mudava o seu curso e passava a apontar na direção da independência petrolífera americana.

Por trás das boas novas encontravam-se os avanços na produção de petróleo e gás não convencionais – das areias betuminosas do Canadá à revolução mundial do shale gás – e na exploração offshore em águas profundas – do Golfo do México às costas brasileiras e africanas – que colocavam à disposição do ocidente um volume significativo de hidrocarbonetos que redesenharia completamente o mapa energético mundial; em detrimento do oriente médio, que perderia a sua relevância no suprimento da energia ocidental.

Nesse novo quadro energético, os Estados Unidos se fortaleceria como superpotência; principalmente, diante de uma China cada vez mais fragilizada em função da sua crescente dependência energética.

No limite, diante da garantia do suprimento energético, viabilizada pelo acesso aos recursos petrolíferos próprios e dos países amigos, o Oriente Médio deixaria de ser um problema americano passando a ser um problema chinês. Assim, segundo essa nova divisão geopolítica mundial, o ocidente cuidaria do ocidente e o oriente do oriente.

No entanto, essa proclamada independência energética americana deve ser vista mais atentamente.

Para começar, cabe lembrar que a dependência americana do petróleo do Oriente Médio é relativa. Afinal, menos de 20% do seu suprimento advém da região do Golfo.

Portanto, a presença dos Estados Unidos naquela região é muito mais para assegurar o fluxo de hidrocarbonetos para os mercados globais do que simplesmente garantir energia para o mercado americano.

Essa presença garante aos americanos um papel central na estruturação da geoeconomia e da geopolítica mundial. Para os Estados Unidos, abrir mão dessa presença significaria concretamente um rebaixamento no seu status geopolítico.

Trocando em miúdos, os EUA não estão no Oriente Médio para garantir o petróleo para a América, mas para garantir o poder da América. Enquanto a América estiver ligada ao fluxo de petróleo mundial e a geopolítica for essencial na determinação do comportamento deste fluxo e, portanto, do preço dessa commodity, o Oriente Médio continuará sendo vital para os interesses americanos.

Esses interesses fazem com que os EUA estejam no Golfo, não para garantir o seu acesso ao petróleo, mas para controlar o acesso das outras superpotências a esse petróleo. O acesso da China, por exemplo, cuja metade das importações de petróleo advém justamente do Oriente Médio.

Nesse contexto, a nova divisão de trabalho na geopolítica entre China e Estados Unidos, derivada da anunciada independência energética americana, é difícil de ser constatada na prática.

Não há indicação de que os Estados Unidos pretendam, de fato, limitar a sua presença ao hemisfério ocidental, liberando o Oriente Médio e a Ásia central para o domínio chinês.

As intervenções atuais do ocidente em uma vasta região que vai do Magrebe à Ásia central, passando por toda a região do Golfo, não apontam no sentido da redução das tensões em nome de uma proposição do tipo o ocidente para os ocidentais, o oriente para os orientais, muito pelo contrário.

Acompanhando os fatos, constata-se que, obviamente, os Estados Unidos pretendem continuar tendo um papel decisivo neste jogo e venderão caro cada casa conquistada pelos chineses no xadrez geopolítico internacional.

Chineses que, a propósito, investem pesadamente na África; que injetaram 15 bilhões de dólares na exploração das areias betuminosas canadenses, e garantiram um empréstimo de 10 bilhões de dólares para a Petrobrás seguir em seus investimentos no pré-sal. Demonstrando que a china não acredita muito na possibilidade de que os Estados Unidos larguem o osso petrolífero, e segue fazendo o seu jogo estratégico de ocupação dos espaços possíveis.

Além de toda a sofisticação estratégica envolvida no dueto geopolítico sino-americano, cabe considerar os interesses específicos das nações petrolíferas ocidentais consideradas amigas, como Canadá, Brasil, Angola, Venezuela, Argentina, etc. É possível que essas nações não se interessem tanto em assumir o papel de fornecedores exclusivos para o mercado americano, mas tenham interesse em atuar no mercado global segundo suas próprias agendas econômicas e políticas globais, auferindo as rendas e os poderes derivados dessa atuação.

Diante desse quadro de restrições ao seu exercício, é possível identificar um conjunto mais preciso de funções e consequências para o ruidoso anúncio da independência energética americana.

A primeira delas é a possibilidade imediata de exercer uma pressão sobre o cartel petrolífero da OPEP, a partir da ameaça representada pela disponibilidade de petróleo e gás não convencionais.

A segunda é ampliar significativamente o escopo da carteira de opções de intervenção americana no mercado de petróleo.

A terceira, e não menos importante, é a possibilidade de pressionar as autoridades americanas, em particular o governo Obama, a favor da suspensão das restrições, principalmente ambientais, aos grandes projetos de expansão da oferta de petróleo e gás não convencionais que viabilizariam a anunciada independência energética.

Este é o caso particular da construção do oleoduto Keystone XL – que transportaria o óleo betuminoso canadense para ser processado nas refinarias americanas – que vem encontrando fortes resistências da autoridade ambiental (EPA) que culminaram no veto do presidente Obama ao oleoduto na semana passada. Pode-se adicionar a esse caso, a discussão sobre a definição do marco regulatório ambiental para a exploração do shale gás. Sem contar as pressões para a suspensão das restrições à exploração offshore nas costas americanas.

Por esse aspecto da questão, a anunciada independência energética surge muito mais como um lobby da indústria energética tradicional americana no sentido de suspender as restrições ambientais ao seu funcionamento do que uma radical mudança do contexto energético global.

Porém, o mais importante a ressaltar nessa discussão sobre a independência energética é que ela representa o enfraquecimento do tema mudança climática na agenda política americana. Nessa discussão, a mitigação da mudança climática é atropelada pela promessa de oferta ilimitada de energia; oferta essa constituída não só de combustíveis fósseis, mas, acima de tudo, de combustíveis fósseis considerados mais sujos do que os convencionais.

Leia outros textos de Ronaldo Bicalho no Blog Infopetro

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    • essa analise é uma interpretação puramente geo-politica com a qual pode-se até eventualmente concordar parcial ou totalmente pois se fundamenta em pressupostos do comportamento estratégico do Governo norte americano ,mas nem arranha a superfície do fato econômico que não pode ser esquecido : a auto-suficiência dos USA na produção de gás natural oriundo do shale-gas cresceu em 2 anos de 12 % para 58 % e o preço do gás natural caiu 35% e o da energia termelétrica 40% , e na semana passada o preço do gás natural chegou ao seu patamar mais baixo nos últimos 50 anos – abaixo de usdl 2/por mm de btu- o reflexo dessa redução de preços nas industrias que consomem muita energia ,já se fazem sentir como na siderurgia onde a lucratividade aumentou significativamente junto com as exportações e com a baixa de preços e maior competitividade norte-americana – isto resulta do uso de novas tecnologias na exploração do shale gas menos poluidoras mais ainda grande dependentes das disponibilidades de água, e órgãos oficiais do Governo dos USA falam da possibilidade de exportações significativa em 2 anos – deve-se registra existem relatórios mencionando que o mesmo poderá ocorrer com o shale oil em cerca de 5 anos; e ao contrario do que muitos afirmam o governo norte-americano já atraiu mais de usdl 30 billhões de investimentos estrangeiros para a exploração dessas jazidas cedendo a tecnologia necessária ,inclusive mais de 12 bilhões das petroleiras chinesas como publicado no Financial Times e no Economist – o fato é que aa expectativas da economia do petroleo mudaram e a situação geo-politica e estratégia do governo norte-americano face a china e ao mundo também vai se modificar(vide conferencia de Kissenger e ministro chinês recém publicada ) ,basta saber-se que alem dos USA a China também possue reservas significativas , e Israel também – esse fato da existência de jazidas em áreas em disputa por Israel em territórios reivindicados pela Palestina vai manter a tensão no Oriente Médio por um bom tempo e a manutenção do elevado preço do petróleo alem da explicação geo-politica acima citada se autosustenta pela impossibilidade de destruir as bases da economia do petroleo no mundo estruturada para preços elevados ,mas tudo isto tem um limite temporal esgotável

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