Grupo de Economia da Energia

2011: um ano surpreendente para a indústria solar americana

In energias renováveis on 02/04/2012 at 00:15

Por Jacqueline Batista Silva

Para a indústria de energia solar nos EUA, 2011 foi um ano histórico. Assim começa o “US Solar Market Insight: Year-in-Review 2011”, – uma publicação trimestral da Solar Energy Industries Association (SEIA) e da GTM Research, voltada à análise das condições de mercado, oportunidades e perspectivas para a indústria de tecnologias relacionadas à energia solar. São utilizados dados coletados diretamente de produtores, fabricantes e agências de estado afim de prover uma análise sobre instalações, custos, produção e projeções de mercado.

Temos ouvido boas e más notícias do setor de energias renováveis. Em textos anteriores apresentamos dados positivos com relação aos chamados greenjobs e, posteriormente, o duro golpe sofrido pelo governo americano com o financiamento da empresa Solyndra –  uma empresa fabricante de painéis solares que seria um ícone do programa de garantia de empréstimo às renováveis. A Solyndra decretou falência e não o fez sozinha: outras empresas do setor também não tiveram solidez suficiente para continuar no mercado tão competitivo internacionalmente, principalmente devido à presença da China.

As dificuldades apresentadas poderiam fazer com que vislumbrássemos um cenário muito difícil para o desenvolvimento das tecnologias renováveis, por isso as notícias apresentadas nas últimas semanas pelo The New York Times e pelo The Hill - também citando o relatório – trouxeram tanta surpresa.

O gráfico abaixo apresenta o número de instalações fotovoltaicas no período 2010 – 2011, verificadas trimestralmente e por setor: 

Figura 1 – Instalações PV nos EUA, por trimestre e setor

 

Fonte: SEIA: US Solar Market Insight: Year-in-Review 2011

O quarto trimestre de 2011 teve 776 MW de PV (tecnologia fotovoltaica) instalados – um recorde em toda a história, já que o maior valor observado até então havia sido de 473 MW. O crescimento ocorreu em todos os segmentos, e em 18 dos 23 estados verificados.

Nem tudo foi positivo: o relatório não deixa de mencionar que, no que concerne às instalações, o programa de financiamento do governo expirou – o que trouxe complicações a muitos dos novos projetos. Quanto à fabricação, apesar do crescimento da capacidade de módulos PV ter aumentado em  17%, a demanda cresceu muito pouco, principalmente devido à situação na Europa: mudanças na regulação da Itália e baixo ritmo de crescimento da demanda na Alemanha. No ano de 2011 houve também uma drástica queda nos preços: mais de 50% desde o segundo trimestre, só vindo a se estabilizar nas últimas semanas do ano. Isto causou sérios danos, especialmente às empresas menos competitivas em custos e àquelas em processo de comercialização de novas tecnologias (já vimos ser este um estágio em que a atuação do governo e do investidor privado é fundamental).

Ainda assim, ao longo de 2011 foi observado que:

  • As instalações PV tiveram um aumento de 109% em relação a 2010;
  • Oito estados instalaram mais de 50 MW cada, no ano.
  • Houve 28 projetos individuais de mais de 10 MW cada, quando em 2009 esse número era de apenas 2.
  • O custo médio do sistema PV caiu 20%.

Além desses, outros dados positivos são também apresentados para os sistemas concentrados (CSP e CPV), no documento.

A figura reproduzida abaixo apresenta a cronologia dos fatos envolvendo a indústria solar no EUA. Nela, temos a ilustração de importantes acontecimentos dessa indústria no último ano.

Figura 2 – O ano do solar nos Estados Unidos

Fonte: SEIA: US Solar Market Insight: Year-in-Review 2011

Após os reveses do programa de financiamento americano, uma importante questão surgiu: o apoio à indústria solar foi bem-sucedido? Seria importante descobrir o alcance do dano. Não é preciso lembrar o cenário político em que o caso Solyndra ocorreu, levantando grande oposição do Partido Republicano a esse programa governamental. Outra questão importante a considerar era a de haver ou não um papel para a indústria solar no país.

Os dados do crescimento dessa indústria, até o momento, indicam que sim: o impressionante crescimento recente, o boom no número de instalações e a maior geração de empregos no setor fizeram com que a indústria de energia solar se mostrasse capaz de contribuir com as expectativas do crescimento na demanda de energia. Além disso, os EUA são o lar de um conjunto de inovações que garantiram uma queda no custo dessa energia que pode se sustentar por muito tempo.

Conforme a indústria amadurece, a avaliação do estudo é a de que será possível separar as companhias sustentáveis e de sucesso daquelas que se mostram ineficazes ao final. O relatório ainda lembra que a indústria solar não é uma indústria localizada, mas global. Portanto, está sujeita às mesmas forças econômicas observadas em outros setores, mundialmente.

Observa-se como um ponto de destaque na apresentação desses dados o fato de a indústria solar ser parte de um programa de política energética governamental, instituindo mecanismos de financiamento, em cooperação com agentes de mercado. É fruto de uma decisão, de vontade política, como costuma ser o caso de inserções de novas tecnologias na economia. E isso sem perder de vista a contextualização econômica ao introduzir as políticas de incentivo pertinentes.

Essa vontade política é o que pode determinar a viabilização de uma nova tecnologia, garantindo fôlego e resistência diante dos riscos de generalização de ineficácias pontuais nessa indústria, ou de novas tecnologias em geral. Mais que isso, criando um ambiente de desenvolvimento que, em alguns anos, pode até ser chamado de “vocação” do país para o setor. Na verdade, uma vocação a ser desenvolvida.

Leia outros textos de Jacqueline Batista Silva no Blog Infopetro

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