Grupo de Economia da Energia

Energia = tecnologia + instituições

In energia on 17/05/2010 at 00:30

Por Ronaldo Bicalho

A relação entre as necessidades e os recursos energéticos não é estática no tempo e homogênea no espaço; na verdade, ela é dinâmica no tempo e heterogênea no espaço.

Para entender melhor esse dinamismo e essa heterogeneidade é preciso lembrar que entre as necessidades e os recursos energéticos há um conjunto de tecnologias – de produção, transporte e armazenamento, transformação e utilização – que estrutura as cadeias energéticas ao longo do tempo, definindo um conjunto de possibilidades, cujo aproveitamento, tanto em termos de timing quanto de intensidade, é definido a partir das instituições.

É justamente nessa combinação entre tecnologia e instituições que podem ser encontradas as explicações para o dinamismo temporal e para a heterogeneidade espacial da relação entre recursos e necessidades energéticas.

Novas tecnologias não só criam novas necessidades, como também viabilizam novos recursos. O início do século XX foi marcado pela introdução de uma ampla gama de aparelhos eletrodomésticos que estabeleceu um padrão de conforto nos lares e ampliou as necessidades energéticas. Assim como, a introdução do motor a combustão interna, no mesmo movimento histórico, viabilizou os automóveis e introduziu um conjunto de necessidades energéticas associadas ao transporte individual.

Assim, se em uma ponta tem-se as tecnologias de uso – lâmpada, geladeira, ar condicionado, forno elétrico, enceradeira, etc. –, do outro, tem-se toda uma cadeia elétrica que vai, ao final, intensificar o uso dos recursos naturais para se gerar a eletricidade que vai ser consumida nesses aparelhos.

O mesmo vale para o motor a combustão interna que, por um lado, viabiliza o carro e, por outro, amarra toda uma cadeia energética – que passa pela refinaria e chega à produção do petróleo – necessária a se obter a gasolina para se colocar nesse carro.

Tomando-se a experiência brasileira como referência, constata-se que quando, em uma ponta da cadeia, se introduz um motor que não utiliza gasolina, mas usa álcool, introduz-se, na outra ponta da cadeia, um novo recurso energético, a cana. Portanto, o novo motor corresponde a uma nova fonte (o álcool), a um novo centro de transformação (a destilaria) e a um novo recurso (a cana); por conseguinte, a uma nova cadeia energética. Uma cadeia distinta daquela da gasolina, que vai atender a mesma necessidade (transporte individual), porém com outro conjunto de elos.

Desse modo, a evolução tecnológica associada a cada elo da cadeia energética não se restringe a esse elo, mas interage fortemente com a evolução do conjunto de tecnologias dessa cadeia. Isto significa que se, por um lado, as tecnologias de uso viabilizam a satisfação de determinadas necessidades e, até mesmo, criam novas, por outro, elas também condicionam a evolução das tecnologias de transformação, na medida em que definem as características físicas das fontes de energia a serem utilizadas por essas tecnologias de uso. Essa definição não se restringe às tecnologias de transformação e alcançam as tecnologias de produção.

Assim, um motor a combustão interna que utiliza apenas gasolina amarra toda a cadeia energética, criando uma demanda por uma determinada transformação (refinaria) e por uma produção definida (petróleo). Se o mesmo motor puder usar também álcool, o atendimento dessa necessidade pode ser feito também por uma outra cadeia que inclui uma transformação distinta (destilaria) e uma produção diferente (cana).

Desse modo, a tecnologia de uso flexível, em relação ao combustível que ela usa, permite a flexibilidade de toda a cadeia energética.

Quanto mais flexível a tecnologia de uso, mais flexível a cadeia de suprimento da fonte utilizada por essa tecnologia. E isto pode ocorrer em um motor de carro, em uma caldeira, em um forno industrial, etc. Isto significa que pode-se ter caldeiras que têm condições de utilizar gás natural, óleo combustível, eletricidade e resíduos vegetais. Cada uso desses corresponde a uma cadeia: gás, petróleo, energia elétrica, biomassa.

Contudo, não é apenas o aumento da flexibilidade que caracteriza as trajetórias tecnológicas da energia, a melhora constante da eficiência energética dos equipamentos e processos também é uma marca dessas trajetórias.

Desde a Revolução Industrial, há um aumento constante dos rendimentos das tecnologias de uso, de transformação, de transporte e de produção de energia. Isto implica na redução continuada das perdas ao longo da cadeia e, portanto, na satisfação das crescentes necessidades sem o aumento proporcional do consumo dos recursos. Isto sem considerar o próprio incremento da nossa capacidade de identificar e mapear novos recursos.

Desse modo, a relação entre necessidades e recursos energéticos é extremamente dinâmica; principalmente, graças à tecnologia. Nesse sentido, fazer previsões sobre a evolução futura dessa relação é um desafio dos mais complexos. Grande parte dessa complexidade vem justamente da complexidade embutida nas previsões tecnológicas.

Porém, os problemas das prospecções envolvendo recursos e necessidades energéticas não se resumem à tecnologia.

Essa última é capaz de colocar à disposição uma lâmpada compacta que é muito mais eficiente do que uma lâmpada incandescente tradicional. Porém, a difusão dessa nova e eficiente tecnologia de iluminação pode ser tremendamente acelerada a partir de uma política governamental que incentive o seu uso e penalize a tecnologia tradicional.

O mesmo pode acontecer com as tecnologias de geração de eletricidade, a partir dos incentivos dados a uma delas – por exemplo, geração eólica -, em contraposição às penalidades dadas a outras – por exemplo, as que utilizam combustíveis fósseis.

As instituições também podem atuar sobre as necessidades, incentivando umas – por exemplo, o transporte coletivo -, e penalizando outras – por exemplo, o transporte individual.

As instituições podem também, por um lado, incentivar o uso de determinados recursos – por exemplo, eólica, solar, resíduos de biomassa – e, por outro, até mesmo, interditar o emprego de outros – por exemplo, o petróleo do Alasca, a hidroeletricidade da Amazônia, o urânio/nuclear.

Além das incertezas relativas à atuação institucional, que dificulta as previsões sobre a evolução da relação necessidades versus recursos energéticos, cabe lembrar que essa atuação tem um forte caráter local. Esse “localismo” das instituições acaba sendo decisivo para o surgimento das heterogeneidades características dessa relação. O que dificulta ainda mais a sua modelagem e a confecção de diagnósticos e prognósticos sobre o tema energético.

Por isso tudo, a previsão sobre como vão evoluir as nossas necessidades energéticas e os recursos colocados ao nosso dispor é um dos temas mais difíceis de serem analisados.

Na verdade, o que se tem é um quebra-cabeça que pode ser montado de várias maneiras, a partir de um conjunto de peças que varia ao longo do tempo e de lugar para lugar.

Nesse sentido, há uma ampla gama de necessidades, de recursos, de tecnologias e de instituições, que podem ser reunidos de várias maneiras distintas. Não há uma maneira única e ótima de reuni-los. O que existe é uma configuração, no máximo, satisfatória, construída para atender um dado conjunto de necessidades consideradas razoáveis, a partir dos recursos naturais disponíveis e com as tecnologias existentes, e que é sancionada pelas instituições vigentes em um dado momento e em um certo lugar.

Leia outros textos de Ronaldo Bicalho no Blog Infopetro

  1. Caro Ronaldo Bicalho,
    Achei muito interessante sua abordagem sobre a integração entre tecnologias e recursos. E provavelmente o caminho para um futuro mais “limpo” e seguro seja com a flexibilização e diversificação das tecnologias no uso final da energia. Agora em relação ao futuro, realmente não há como prever um caminho único e ótimo, mas sim, uma variedade de cenários onde se possa comparar necessidades, oportunidades e risco associado. Tal “abuso” de cenários pode sempre nos ajudar e visualizar vantagens e desvantagem sobre certas opções e com isso não nos mostrar o futuro, mas sim nos guiar para onde parece, aos nossos critérios, o mais indicado a se seguir…

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