Grupo de Economia da Energia

Um panorama sobre os desafios da energia

In energia on 31/05/2010 at 00:30

Por Ronaldo Bicalho

A Associação Brasileira de Estudos em Energia (AB3E) criou o prêmio João Lizardo de Araújo para homenagear aqueles profissionais que contribuíram para o avanço do conhecimento na área de economia da energia no país.

O prêmio será entregue  na 33a Conferência Internacional da Associação Internacional de Economia da Energia, que ocorrerá no Rio de Janeiro de 6 a 9 de Junho, e o primeiro agraciado será o professor  Antonio Dias Leite.

O professor João Lizardo de Araujo dedicou mais de quarenta anos ao ensino e à pesquisa no campo da energia, a maior parte na Universidade Federal do Rio de Janeiro – inicialmente na COPPE e depois no Instituto de Economia.

Pouco tempo antes de falecer, já como diretor do Centro de Pesquisa de Energia Elétrica (CEPEL) da Eletrobrás, João Lizardo deu uma longa entrevista ao Jornal da UFRJ, de junho de 2008, na qual traçou um amplo panorama sobre os grandes temas envolvendo a energia no Brasil e no mundo.

O aquecimento global e as energias limpas

É uma questão ampla, mas um dos entraves passa pela razão do custo. Com exceção da hidrelétrica, as energias limpas ainda são caras, embora os preços estejam caindo. Por exemplo, a energia fotovoltaica (solar), que já está bem desenvolvida é, recorrentemente, anunciada pela indústria como futura competidora com as outras. Durante todo o tempo eles dizem que daqui a cinco anos isto vai acontecer, e nunca acontece. Nos Estados Unidos, lugar mais barato para a compra desta energia, se paga cerca de 200 dólares por um Megawatt-hora (MW/hora). Na Europa, este valor gira entre 300 e 700 dólares. Outro ponto, é que se baseou todo um esquema produtivo montado sobre os combustíveis fósseis. É uma acumulação histórica, não será fácil esta conversão para outras fontes. Mesmo na Europa houve uma inversão com o sistema rodoviário predominando sobre o transporte ferroviário.

Biocombustíveis e segurança alimentar

O biocombustível dos Estados Unidos é o responsável pela alta nos preços dos alimentos no mercado mundial. Eles produzem etanol a partir do milho, em uma cadeia intensiva e com a utilização de toneladas e toneladas de uma matéria-prima originalmente destinada ao consumo humano e à ração animal. O que houve foi que o biocombustível brasileiro tornou-se vítima de uma contaminação internacional. Mas, no momento em que misturam indiscriminadamente todos os biocombustíveis, há uma pressão para o favorecimento de combustíveis fósseis. No Brasil, o que pode funcionar são os biocombustíveis, mas para o resto do mundo é complicado. Em nações com pouco território, isto pode significar um erro. Somos um raro caso, pois temos áreas disponíveis para plantações de cana-de-açúcar, sem forçar a elevação dos preços dos alimentos.

A universidade e as fontes de energia limpa

A universidade pode investigar alternativas com maior liberdade, diferentemente da indústria que quer a implantação de soluções rápidas e de centros como o Cepel, que são intermediários e procuram objetivos em médio prazo. Além disso, há uma série de parcerias, associações e cooperações que podem ser feitas. Muitas, inclusive, já estão em curso com a participação do governo, centros de pesquisa e empresas. Por outro lado, a universidade não pode estar alheia e ficar no “ar”. Pertenci à academia e sinto-me à vontade para dizer que há uma tendência de ficarmos na chamada “torre de marfim”. Precisamos descer de lá e nos interessar pelos problemas reais. Isto é possível. Há mais investimentos em pesquisas e acredito que pela primeira vez no Brasil, exista uma política integrada para a área tecnológica e industrial. No passado, estas políticas caminharam independentes e não resolveram.

O papel da conscientização da população

O mais preocupante é exatamente o problema do aquecimento global. Precisamos atacar este perigo e resolvê-lo. As campanhas podem ser úteis para conscientizar, mas precisam vir junto com políticas de pesquisa e desenvolvimento e de eficientização, ou seja, melhor conservação de energia. Neste ponto, também precisamos caminhar sobre duas pernas, estimulando a introdução de tecnologias mais eficientes junto com a conscientização da população.

A exploração da Amazônia

Este tema me toca, pois sou amazonense, tenho uma relação afetiva com a floresta e a água. O meu pai era diretor de uma escola agrícola a 11 km de Manaus (AM), onde passava férias numa infância idílica, com direito a mergulhos no rio Negro. Vim embora aos 14 anos e nunca mais retornei para guardar as boas memórias, mas o que li em relatórios e no livro de Milton Hatoum Cinzas do Norte, (Companhia das Letras, 2005), que narra o que aconteceu com os arredores de Manaus por conta da implantação da Zona Franca, já me agonizaram e horrorizaram o suficiente. Agora, assusta-me a concepção de preservação como uma redoma. Por esta idéia é como se fossemos manter na pobreza uma enorme parte da população. Acredito em sustentabilidade, que pode ser equacionada com muita vontade e trabalho, além de enorme esforço de pensamento e ação.

Sustentabilidade e exploração irracional de recursos

Toda palavra pode ser mal usada e qualquer termo, por mais bonito que seja, pode esconder uma prática diferente do discurso. É o caso da responsabilidade social que se tornou um jargão na linguagem empresarial, mas que se encontra longe de ser uma ampla realidade. Apesar disso tudo, sustentabilidade ainda permanece como um conceito importante e não se pode perdê-lo do horizonte.

As hidrelétricas da Amazônia

Vai haver impacto sempre, seja qual for o tipo de fonte de energia. Na Amazônia é viável a construção de hidrelétricas que, com melhores desenhos (arquitetura), podem oferecer menos danos. Hoje, elas podem ser bem planejadas e geridas com a adoção de medidas para oferecer o mínimo impacto. Nos Estados Unidos, há pesquisas para desenho, em usinas de baixa queda, das chamadas “turbinas amigáveis” que não colocam em risco a vida dos peixes, pois não são de alta rotação. As hidrelétricas são fonte mais barata de energia. No Brasil, 1 MW/h custa entre 25 e 45 dólares e quem tem o maior potencial dessa fonte são países em desenvolvimento. Nosso país, por exemplo, aproveitou apenas 28% desta capacidade e o continente africano 7%, somente.

As resistências à construção das novas hidrelétricas

Se o Brasil não construir essas hidrelétricas, teremos mais centrais térmicas a carvão, que são mais poluentes, e ainda pagaremos muito mais caro pela energia. Não vejo riscos de um novo apagão, o que há hoje é uma enorme dificuldade para se tocar projetos de energia. A questão do licenciamento vem melhorando, porém, ainda faltam critérios mais claros. Além disto, qualquer obra pode ser embargada indefinidamente pela Justiça. Principalmente o Ministério Público deveria ter um sistema mais criterioso para fazer estes pedidos. Não sei o que há, mas as pessoas estão açodadas por uma febre de embargos, alguns inclusive sem base técnica. Chegou a um ponto que queriam impedir até um parque de energia eólica (ventos) no Ceará, felizmente, a justiça negou o pedido. A impressão é que param tudo e depois se lembram de pedir os laudos. Afinal, em regra, antes de se iniciar uma obra já foram feitos muitos estudos e análises. Quanto à questão indígena, é preciso uma compensação. Há uma experiência no Canadá, onde os índios recebem parte da receita gerada pelas hidrelétricas. Em nenhum lugar do mundo, o território é tão exclusivo como aqui no Brasil.

A diversidade energética brasileira

No momento, o país não pode descartar nenhuma fonte de energia. O ideal é que se atue em um sistema. No litoral do Nordeste, há os ventos alíseos que são constantes e oferecem um padrão fora-de-série à energia eólica. No chamado Polígono das Secas, existe um fantástico potencial para energia solar. Na Região Norte, as hidrelétricas de baixa queda. No Centro-oeste, os biocombustíveis. No Sudeste, o petróleo enquanto existir. No Sul, as termelétricas de carvão, que não deveríamos usar por emitirem CO2, e a eólica que nesta área está sujeita a surtos e paradas repentinas dos ventos, mas ainda assim são importantes como capacidade complementar em um sistema. Enfim, temos condições naturais favoráveis, mas enormes desafios tecnológicos pela frente. Um deles, a criação de métodos mais eficazes para a previsão de ventos. Esta é uma área que ainda engatinha em todo o mundo.

A energia nuclear

Não pode ser prioritária, mas também é uma opção útil e não pode ser descartada, especialmente porque temos muito urânio disponível. Os argumentos técnicos apresentados em favor da energia nuclear apresentam fundamentos. Os novos desenhos procuram ser mais seguros e eficientes. Contudo, a questão dos resíduos ainda “pega” e a operação dessas usinas necessita de equipes muito bem preparadas. Foi por um erro operacional que aconteceu a tragédia de Chernobyl (acidente nuclear, em 1986, na antiga União Soviética que expôs mais de oito milhões de pessoas à radiação). Por outro lado a França, que possui diversas usinas, nunca teve qualquer problema. É preciso ter um leque de opções e a nuclear também está entre as energias que poderão funcionar complementarmente.

Os Estados Unidos e o aquecimento global

Nesta luta contra o aquecimento global, ainda falta o engajamento dos Estados Unidos. O atual presidente, George W. Bush, simplesmente não quis saber da questão do meio ambiente. Como o mandato dele está terminando, quem sabe isso não vá se reverter no futuro. Numa possível eleição de Barack Obama, talvez as chances de mudança sejam maiores. Eles deveriam acabar com o etanol baseado no milho, passando a produzir biocombustível a partir de resíduos de celulose.

As metas de redução das emissões

Estamos longe de alcançá-las e, além de fontes limpas e renováveis, precisamos resolver dois pontos chaves: reduzir o consumo de energia e investir na captura e armazenamento do carbono através de filtros que retenham os gases que provocam o efeito estufa, levando-os para depósitos subterrâneos. As usinas de carvão precisam adotar estes mecanismos. A China, por exemplo, consome carvão em larga escala e está ambientalmente uma “droga”, inclusive já ultrapassou os EUA como maior poluidor mundial. O seu caso é até compreensível, porque existe uma enorme parte da população na pobreza e o país precisa crescer. Agora, se os EUA adotam medidas para reduzir os gases do efeito estufa, os chineses vão se sentir constrangidos e talvez possam participar desta luta global. Mais difícil do que investir e desenvolver tecnologia é conter a expansão de carros e caminhões. Não podemos caminhar mais para o modelo tradicional de um automóvel para cada habitante do mundo. Se a gente continuar nesse crescimento, e com este estilo de vida, não sei se haverá saída. Não há solução geral. Quando se fala, na área de energia, em médio prazo, isso representa várias décadas.

O futuro

A Terra recebe uma radiação solar que equivale dez mil vezes ao atual consumo de energia da humanidade. Há potencial energético e, mais à frente, daqui a um século, vislumbro a expansão da energia solar como fonte predominante, com todos os veículos sendo movidos a hidrogênio. Podemos ter esperança desde que não aconteçam políticas equivocadas pelo meio do caminho.

A cobrança pela mudança no marco legal do petróleo

A descoberta do pré-sal mudou totalmente a posição da Petrobras. O valor da empresa saltou da 14ª colocação para as primeiras posições no mercado. O cenário era diferente do atual e vejo esta cobrança como legítima.

As agências reguladoras

Elas funcionam razoavelmente e necessitam de constante supervisão para atuaram direito. Essa idéia de que elas precisam ser totalmente independentes é uma concepção neoliberal, lá do Consenso de Washington (conjunto de medidas econômicas ditadas, em 1989, pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e pelo Banco Mundial). As agências podem ter autonomia, mas não podem se desvincular da política energética de governo. No setor elétrico, de vez em quando surgem denúncias de influência governamental, mas se observarmos de perto, percebe-se que, na maioria das vezes, são ações para baixar tarifas que haviam sido aumentadas em excesso.

A dependência dos Royalties

Não garantem vida longa, embora o petróleo ainda deva existir por décadas. Se os municípios não se prepararem para as “vacas magras”, vai acontecer o que ocorreu no século XIX, com as cidades do Vale do Paraíba, no Sul fluminense, quando o ciclo econômico do café ruiu e junto com ele inúmeras cidades.

As pesquisas do Cepel

O Cepel é o maior centro de pesquisas elétricas da América Latina. É mantido basicamente pelo Sistema Eletrobrás e dá atenção às suas necessidades. Mas seus trabalhos beneficiam todo o setor elétrico brasileiro. Há várias pesquisas em andamento. Um exemplo são os medidores eletrônicos centralizados, com patente internacional do Cepel, fabricados pela Siemens sob licença e adotados pela Ampla Energia e Serviços S.A. Quanto às pesquisas em desenvolvimento, estamos implantando um Laboratório de Ultra-altas Tensões, com financiamento da Agência Financiadora de Projetos (Finep) e da Eletrobrás, para o desenho das linhas de transmissão da Amazônia, em que deveremos ter várias colaborações com a universidade. Ainda em hardware, participamos de uma pesquisa cooperativa acerca de células a combustível usando etanol. Em software, há três destaques: planejamento (energético de longo prazo, operação energética em médio e curto prazo), operação elétrica e controle do sistema. Em planejamento de longo prazo há o MELP (Modelo da Expansão da Geração de Energia Elétrica em Longo Prazo), utilizado pela EPE (Empresa de Planejamento Energético) e pelo Ministério de Minas e Energia (MME) na elaboração do Plano 2030. No planejamento da operação há a família Newave, hoje em sua 13ª versão, todas validadas pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), e usada pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e pelo MME. Esta se mantém na fronteira do conhecimento graças a constantes interações com as universidades, nacionais e internacionais. Na operação elétrica, o Brasil pode orgulhar-se de ser o único país em desenvolvimento a ter uma cadeia completa de software para operação, análise da estabilidade e recomposição do sistema de nível internacional, inclusive com vendas e licenciamentos para países do Primeiro Mundo; aqui, também, mantemos constante colaboração com a universidade. Finalmente, no que diz respeito ao controle, o Cepel desenvolveu o Sage (Sistema Aberto de Gerenciamento de Energia), que permitiu ao setor elétrico brasileiro libertar-se dos pacotes de vendedores de equipamentos; trata-se de um sistema aberto, flexível e modular que está em permanente evolução.

Leia outros textos de Ronaldo Bicalho no Blog Infopetro

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