Grupo de Economia da Energia

A gestão energética eficiente da demanda de energia: um tema para a primeira página das agendas de políticas energéticas

In energia on 19/07/2010 at 00:15

Por Renato Queiroz

Qualquer coisa que você possa fazer, ou sonha que possa fazer, comece a fazê-la. A ousadia tem em si genialidade, força e magia” (Goethe, poeta e escritor alemão, 1749-1836).

Em uma postagem anterior apontamos, entre um leque de alternativas visando à segurança energética, dois temas: vulnerabilidade ambiental e a gestão energética eficiente da demanda de energia. No que se refere ao primeiro, já há uma espécie de “consciência coletiva” da importância da preservação ambiental para um desenvolvimento sustentável. Isso não quer dizer que haja um consenso entre os países na adoção de medidas para atender os requisitos defendidos nos fóruns que tratam do aquecimento global. Mas, de fato, mesmo com diferentes acepções sobre segurança ambiental, há um entendimento de que ações devem ser implantadas, para que  não haja uma perda de condições mínimas da qualidade de vida das sociedades.

Em 1972, em Estocolmo, a Conferência das Nações Unidas, realizada sobre o Meio Ambiente Humano, colocou o assunto na “mesa”  dos grandes temas mundiais. A partir da Declaração de Estocolmo talvez o mundo tenha despertado para a necessidade do estabelecimento de ações estruturadas que preservem o meio ambiente.Vários fóruns foram sendo estabelecidos sobre o tema e o Protocolo de Quioto é um resultado significativo desses debates.

Hoje pode-se afirmar que a eficiência na utilização dos recursos naturais para uso energético está incorporada nas discussões sobre políticas de desenvolvimento dos países. O Brasil nesse novo estágio de desenvolvimento e inserção nas discussões mundiais tem assento nessa “mesa“ e participa dessas discussões. Afinal, a nossa matriz energética baseada em geração hidroelétrica com perspectivas, cada vez maiores, de um aumento crescente da participação da energia eólica e da biomassa da cana nos dá  a vantagem de sentar em boa posição na mesa de debates dos temas energéticos.

Sobre o segundo tema, o uso eficiente de energia também faz parte dessa consciência  global?  Penso que ainda  não.

Uma gestão eficiente da demanda da energia está sob a mesma exposição minuciosa nos fóruns internacionais de grandes temas sobre sustentabilidade do planeta?  Penso que ainda não.

Na perspectiva da segurança energética, essa gestão deveria estar no mesmo nível de importância de outras opções? Penso que sim .

Certamente há uma intrínseca relação entre o aquecimento global e o uso eficiente da energia. De fato,verificando recomendações de planos energéticos e documentos sobre sustentabilidade, encontramos a indicação da necessidade de uma  gestão eficiente da demanda dentro de um amplo espectro de ações que buscam a sustentabilidade do planeta. Um exemplo é a divulgação, no fórum de CEOs, em Nova Delhi, na Índia, ocorrido em fevereiro de 2010, do documento “Vision 2050: The New Agenda for Business”, elaborado pela ALCOA  em parceria com o Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável-WBCSD[1]. São recomendadas ações globais para o estabelecimento de uma sociedade sustentável e, entre elas, a melhoria da eficiência energética sob o ponto de vista da demanda. O fato relevante nessa proposta é que uma das autoras do documento é uma das líderes mundiais na produção de alumínio.

Alguns consideram que expandir a oferta de energia através de energias renováveis e implantar medidas de eficiência energética na ótica da demanda estão sob um mesmo fórum de discussão. Os temas, no entanto, são complexos, há especificidades,  têm, inclusive, especialistas para cada um deles. E no caso do uso eficiente da energia um aprofundamento minucioso das ações para cada país é desejável.

Considerando que : i) há uma perspectiva de expansão demográfica mundial  em que a humanidade poderá passar  de  6,7 a cerca de 9 bilhoes de habitantes até 2050[2];  ii) nos próximos 30 a 40 anos, espera-se um maior desenvolvimento de regiões atualmente desfavorecidas, como boa parte da África e Ásia, que trará indíviduos para a sociedade de consumo; iii) já se observa a entrada  no mercado consumidor de grandes contingentes de populações dos  países do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), a demanda de energia tende a aumentar consideravelmente.

Nesse sentido,  a gestão energética eficiente da demanda de energia deveria ter um papel de destaque nos fóruns internacionais que discutem as perspectivas futuras do uso da energia, na busca da mitigação dos impactos do aquecimento global. Esperam-se , nesses encontros, proposições de medidas de eficiência realmente resolutivas e experiências obtidas em diferentes sociedades para uma avaliação da aplicação desses resultados em outros países.

Refletindo sobre o caso brasileiro, as perspectivas de um maior consumo de energia no médio e longo prazos é um fato sem contestação. Conforme Balanço Energético Nacional – BEN de 2009, o Brasil teve um  consumo final de energia em 2008 de 226,4 milhões de tep, montante superior a  3,6 vezes ao de 1970. Os setores industrial com 36 %, transporte com 27% e o setor residencial com 10%, responderam por mais de 70 % da demanda total de energia [3] nesse ano.

Olhando para o futuro, verifica-se que as taxas projetadas do consumo final de energia apresentadas no Plano Nacional de Energia de Longo Prazo – PNE 2030[4],  em um cenário em que o mundo vive sob condições econômicas favoráveis, se situam entre  3,5 % a  4,0 % ao ano. Em cenários mundiais desfavoráveis ou até mesmo favoráveis,  mas estando o Brasil sem uma administração eficiente de sua economia, as  taxas ficam na faixa de 2,6 % a 3,0 %. Segundo o estudo, o país entre  2005 e 2030  terá um  acréscimo relevante do consumo final, equivalendo a quase  90% daquele  ocorrido no primeiro ano de projeção.

Ressalta-se que  as projeções  do estudo consideram estimativas de conservação de energia. Foram formuladas hipóteses de maiores participações de uma fonte energética mais eficiente e usos de equipamentos também mais eficientes em processos industriais. Ou seja, um avanço tecnológico em cada setor produtivo que independe até de políticas determinativas.

Foram considerados, ainda, hábitos incorporados pela população, buscando a compra, por exemplo, de equipamentos de menor consumo e resultados bem-sucedidos de programas em curso, voltados à conservação de energia[5].

Por fim, montantes de energia foram diminuídos dos valores projetados do consumo, oriundos de ações de políticas energéticas que deverão ser implantadas. Caso não ocorram essas ações, a oferta de energia projetada terá que ser reprogramada para atender a esse consumo, evidentemente maior, que fora abatido das projeções.

Em suma, todos esses montantes são frutos de exercícios prospectivos calcados em metodologias, ferramentas e hipóteses consistentes. Logicamente as projeções de consumo podem ser menores ou maiores, dependendo da conjuntura econômica mundial e nacional e dos resultados da regulação do setor. Periodicamente, como indicam as teorias sobre a prospecção, os estudos de cenários devem ser monitorados e/ou atualizados.[6]

Outro fator que influenciará consideravelmente o Brasil a ter um maior consumo de energia é a forte contribuição do conjunto de políticas de transferência de renda, para a redução da desigualdade, implantado no país nos últimos anos.  Esse processo deve ainda vai perdurar por muito tempo, pois a renda nacional está longe de estar “perfeitamente” distribuída. A melhoria na renda do brasileiro traz um  impacto direto  no consumo de energia. Já existe um aumento no número de pessoas com renda domiciliar maior, o que movimenta o mercado de eletrodomésticos, automóveis e outros bens de consumo que rebatem no aumento da demanda de energia. Os novos cenários de projeção de longo prazo da demanda de energia certamente incorporarão essa nova realidade.

Tais indicações já devem estar acionando os botões de alerta dos formuladores de políticas energéticas na busca não somente de estruturar a expansão da oferta, mas sobretudo para a determinação de ações efetivas de gerenciamento da demanda.

Observa-se que há movimentos importantes como o do CGEE – Centro de Gestão e Estudos Estratégicos. O órgão reuniu em Brasília, neste mês de julho, representantes de entidades, empresas, ministérios, embaixadas, consultores e professores para discutirem açoes voltadas a eficiência energética[7]. Nesse encontro o próprio secretário de Planejamento e Desenvolvimento Energético do Ministério de Minas e Energia (MME), Altino Ventura, avaliou que o governo deveria ter conquistado mais em eficiência e conservação energética nos últimos anos [8].

Fica aqui a reflexão da  necessidade do estabelecimento de um programa estruturado com metas definidas de médio e longo prazos, consolidado pelos setores  residencial, transporte, industrial, públicos (iluminação, saneamento, poderes públicos), rural, etc. É importante que nesse processo se inclua uma série de notas técnicas que apoiem os formuladores de políticas energéticas, como alguns exemplos dados a seguir mas que não se esgotam aqui:

i) avaliação dos custos da energia economizada pelas aplicações de mecanismos de gerenciamento da demanda[9]; ii) indicadores associados à eficiência energética nos diversos setores econômicos; iii) análise da eficiência global de cadeias energéticas; iv) regulação para novas moradias populares eficientes energeticamente, construídas com subsídios governamentais; v) atualização do balanço de energia útil; vi) ) implantação de programas educativos para a população sobre o desperdício no uso da energia. Nesse último item o governo poderia utilizar os meios de comunicação, que são concessões,  para tal objetivo.

Vale ressaltar que esses estudos e suas consequentes proposições devem estar inseridos em um contexto de realidade. Caso contrário, as propostas caem no descrédito e ficam como se fossem discussões entre confrades que se reúnem em  irmandades para promover a devoção a algo sagrado.

O país tem “back-ground” em contrução de barragens, produção de  petróleo e gás em condições pioneiras como a exploração “off shore”, vide o pré-sal. Enriquece urânio, tem tecnologias de geração por  bioeletricidade,  transmite  energia elétrica em longas distâncias que, se comparadas com o continente europeu, interligariam  Portugal à  Rússia. Enfim,  por que não introduzir nessa fileira de experiências ações avançadas na gestão da demanda de energia, dando um novo salto naquelas experiências já bem- sucedidas como aquelas citadas anteriormente ?

Não seria o momento do Brasil influenciar organismos internacionais, puxando esse “barco”, dada a importância que o país adquiriu em suas experiências bem-sucedidas  e respeitadas no campo da energia? Essa é uma reflexão para que o Brasil  pense em promover  uma Cúpula Internacional da Gestão da Demanda Energia, iniciando assim o processo de “consciência coletiva” na eficiência energética no uso da energia.


[1] Entre oito recomendações é apontada pelo documento “Vision 2050: The New Agenda for Business”: “cortar pela metade, até 2050, as emissões de carbono em todo o mundo (com base nos níveis de 2005), com a emissão de gases do efeito estufa, atingindo o pico por volta de 2020, passando-se a dar preferência a sistemas de energia de baixo carbono e uma grande melhora na eficiência de energia no lado da demanda”.

[2] De acordo com os dados da  ONU- Organização das Nações Unidas, no planeta vivem cerca de 6,7 bilhões de  pessoas, sendo que mais de 75% vivendo em países subdesenvolvidos. A população mundial de acordo com a pesquisa da ONU e divulgada pelo jornal Folha Online (www.folha.com.br) de 13.07.2007 o mundo terá um aumento de 2,5 bilhões de habitantes nos próximos 43 anos  e o aumento será absorvido, em sua maioria, pelos países em desenvolvimento, chegando a mais de 9,2 bilhões de habitantes em 2050.

[3] Demanda total de energia considera a  soma da demanda final e do uso no setor de transformação.

[4] PNE 2030, elaborado pela equipe da Empresa de Pesquisa Energética – EPE, entre dez 2005 e início de 2007, cujo coordenador executivo foi o autor deste artigo.

[5] O país vem obtendo  resultados ao longo dos anos através de programas e legislações como: i) PROCEL- Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica- MME/ELETROBRAS; ii) PEE -Programa de Eficiência Energética;  iii) PP&D- Programa de Pesquisa e Desenvolvimento do Setor Elétrico; iv) PBE- Programa Brasileiro de Etiquetagem- CONPET/INMETRO/ABINEE/MME iv) LEI Nº 10.295, DE 17 DE OUTUBRO DE 2001,entre outras experiências.

[6] Em 2008, ainda na EPE, o autor participou do início da atualização dos estudos prospectivos para um novo Plano de Energia de Longo Prazo.

[7] Em 13 de julho 2010, o CGEE – Centro de Gestão e Estudos Estratégicos promoveu uma oficina  sobre Eficiência Energética no  Brasil,  para debater o estudo desenvolvido por esse Centro, sobre ações em PD&I com foco em energia elétrica. Estiveram presentes representantes dos Ministérios da  Ciência e Tecnologia (MCT), Minas e Energia (MME), Meio Ambiente (MMA), Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), Relações Exteriores (MRE), a Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda (SPE/MF), a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI),  a Eletrobrás, a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a Embaixada Britânica e o Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro) e representantes de Universidades. Fonte: http://www.cgee.org.br/ acesso em 15 de julho de 2010

[8] “Não estamos organizados institucionalmente para avançar nesta área e, em termos práticos, tivemos resultados, mas aquém do desejado”. “Faltam ações efetivas e programas bem estruturados, por exemplo, a substituição integral de lâmpadas incandescentes”.

Fonte: http://www.cgee.org.br/ acesso em 15 de julho de 2010.

[9] O país tem estudos, teses, publicações de especialistas no tema que apontam experiências interessantes alternativas às convencionais  no trato do gerenciamento da demanda  como venda de eficiência energética,leilões de eficiência energética.

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  2. Caro Renato,
    Muito oportuna a publicação desta nota. A questão da eficiência já é uma realidade nas empresas, e espero que seu grupo de pesquisa avance no tema.
    Abraços cordiais,
    Aragão

    • Prezado Raymundo Aragão.
      Um comentário de um especialista como você traz motivação para continuarmos a provocar o tema no BLOG. O Grupo de Economia da Energia tem discutido nas suas reuniões internas o tema. Para uma gestão eficiente da demanda de energia é necessário que o planejamento crie e aperfeiçõe sua ferramentas e principalmente coloque o tema na primeira página de sua agenda.
      Abraços

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