Grupo de Economia da Energia

A integração truncada das Indústrias de Gás Natural e Eletricidade no Brasil

In energia elétrica, gás natural on 20/09/2010 at 00:15

Por Luciano Losekann

O movimento de convergência das indústrias de gás natural e de eletricidade caracterizou a indústria mundial de energia nos últimos 20 anos. Em países da OCDE, a utilização de gás natural para geração de eletricidade aumentou a uma taxa de 6% ao ano nesse período e sua participação na matriz de geração saltou de 9% para 23%. Atualmente, a participação do gás natural é superior a nuclear e apenas inferior a do carvão.

Alguns fatores explicam essa dinâmica: (i) a descoberta de reservas relevantes de gás natural e interconexão dos mercados mudaram a perspectiva, principalmente na Europa, do gás natural como produto com disponibilidade restrita e reservado para usos mais nobres; (ii) a difusão de turbinas em ciclo combinado tornou a geração de eletricidade a gás natural mais eficiente, aumentando sua competitividade frente a outras fontes; e (iii) a liberalização das indústrias reduziu as barreiras institucionais para entrantes.

Com certo atraso, o Brasil seguiu esse movimento, mas a difusão do gás natural em termelétricas experimentou vários percalços. A construção do gasoduto Brasil-Bolívia impulsionou o uso de gás natural no Brasil e a perspectiva no final dos anos 1990s era que as termelétricas iriam ancorar o desenvolvimento da indústria de gás natural no país.

No entanto, as condições para investimento em termelétricas a gás natural não eram atrativas mesmo em um contexto de escassez de oferta de eletricidade. O Programa Prioritário de Termeletricidade (PPT) incentivou a construção de termelétricas a gás, mas não em tempo de evitar o racionamento de eletricidade em 2001 e 2002.

Desde então, várias centrais termelétricas a gás natural foram construídas e a capacidade de geração a gás natural alcançou 10 GW, cerca de 10% da capacidade total de geração de eletricidade (figura 1). No entanto, a entrada de capacidade de geração de termelétricas não significou que houve integração entre as indústrias.

Figura 1 – Capacidade Instalada (MW) e Produção Média (MWmed) de Termelétricas a Gás Natural

Fonte: ONS

As indústrias estão em graus distintos de maturidade e as expectativas quanto ao papel de cada uma delas no processo de convergência também são muito diferentes.

A indústria de eletricidade é madura no Brasil e seus gestores consideram que as centrais termelétricas a gás têm o papel de complementar a geração hidrelétrica. Ou seja, essas centrais só devem operar em situações em que a hidrologia é desfavorável, o que minimiza o vertimento de água e, portanto, o custo de operação do sistema.

A indústria de gás natural é menos desenvolvida no Brasil. A infra-estrutura de transporte e, principalmente, de distribuição é incipiente. Apenas os principais mercados (São Paulo e Rio de Janeiro) contam com malha capilarizada de gás. Nesse contexto, o papel das termelétricas seria o de ancorar o desenvolvimento da rede. O consumo regular de gás  por termelétricas possibilitaria a diluição dos custos fixos e, progressivamente, o gás natural seria difundido em outros mercados.

Como o regime de operação de centrais termelétricas segue a lógica do setor elétrico, o fator de utilização médio das centrais a gás natural é de 22% [1]. A baixa utilização das centrais não propicia a diluição dos custos fixos do desenvolvimento da rede de gás.

O modelo institucional do setor elétrico instaurado em 2004 pouco mudou essa situação. As centrais termelétricas têm tratamento diferenciado e sua receita é desvinculada de sua utilização[2]. Tal qual o PPT, essa é uma solução para o problema dos investidores nas centrais, mas não para o desenvolvimento da rede de gás.

O descompasso entre os papéis esperados das duas indústrias acarretou problemas. Para lidar com a subutilização de sua rede de transporte de gás, a Petrobras optou por desenvolver outros mercados além do termelétrico no início da década de 2000. O consumo de gás natural cresceu progressivamente. O maior uso da rede de gás implicou em episódios de falta do combustível para alimentar as centrais termelétricas quando essas eram chamadas a operar. Essa situação motivou o termo de compromisso entre Petrobras e Aneel em 2007.

A indisponibilidade de gás natural acarretou na dominância de centrais termelétricas a óleo nos leilões de energia nova. Segundo o PDE 2019, essas representarão 10 GW de capacidade instalada em 2013. Além dos impactos ambientais, esse volume de capacidade em centrais com elevado custo operacional não é adequado para o sistema elétrico brasileiro. Em caso de um período hidrológico desfavorável prolongado, uma conta pesada será repassada aos consumidores. O PDE 2019 também aponta que o planejamento não considera a construção de novas centrais a gás natural no Brasil.

A solução encontrada para conferir flexibilidade para a oferta de gás natural para as termelétricas foi a construção de terminais de regaseificação de Gás Natural Liquefeito. No entanto, além do patamar de custo ser mais elevado, a contratação de GNL não é completamente flexível.

Para propiciar a integração entre as indústrias de gás natural e eletricidade seria necessário rever o regime de operação do sistema elétrico de forma a tornar a operação das centrais termelétricas a gás mais freqüente.

Essa revisão teria implicações sobre o funcionamento do setor elétrico. Por um lado, o custo operacional médio seria mais elevado e mais água seria vertida. Por outro, os reservatórios seriam mantidos em níveis mais elevados, contribuindo para a segurança do abastecimento e para diminuir a necessidade de investimentos no setor elétrico. Atualmente, o sistema elétrico brasileiro opera com uma taxa de utilização de 52%. Ainda que esse baixo fator seja, em parte, explicado pela presença de centrais hidrelétricas, ele indica que os custos de capital são excessivos. Para avaliar o efeito líquido para o setor elétrico é necessário quantificar as alterações de custo de capital e operacional resultantes da operação mais freqüente de centrais a gás.

Alguns fatos recentes indicam que a revisão do regime de operação do setor elétrico é exeqüível: (i) As descobertas de gás natural no mar e em terra irão disponibilizar volumes relevantes de gás natural nos próximos anos; (ii) A prática comum de despacho de centrais termelétricas por razão de segurança revela a insatisfação com o regime de operação atual do setor elétrico. Por essas razões, essa questão, certamente, ganhará maior espaço no debate de política energética no Brasil.


[1] Para calcular o fator médio de utilização (razão geração média/capacidade instalada), foi assumido que a entrada de capacidade ocorre na metade de cada ano.

[2] As centrais são remuneradas por um valor anual fixo e os custos operacionais (combustível) são repassados.

Leia outros textos de Luciano Losekann no Blog Infopetro

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  1. […] nos próximos anos é sua relação com a indústria de gás natural. Como foi abordada em artigo postado nesse blog, a integração entre as duas indústrias é truncada. O papel complementar da geração […]

  2. […] postagem anterior foram analisados os determinantes e as implicações do regime complementar de operação das […]

  3. […] Outra implicação seria sobre a operação das centrais termelétricas. No caso Alemão, a difusão das renováveis acarretou em uma inadequação das centrais termelétricas a um papel de complementação. As centrais passaram a ser sub-remuneradas com o despacho pouco frequente. No Brasil, se o papel de complementação (backup) de eólicas passa a ser exercido pelos reservatórios, as térmicas devem operar de forma mais contínua. O que poderia resolver o problema de sub-remuneração, principalmente da infraestrutura de fornecimento de gás natural, conforme apresentado na postagem “A integração truncada das Indústrias de Gás Natural e Eletricidade no Brasil”. […]

  4. […] ocorrida em julho, interligando nossa rede ao sistema nacional da Eletrobras. O problema é que o gás é um tecnologia com investimentos tardios  e a energia que chega a Manaus pelo linhão não consegue atingir o consumidor final por falta de […]

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