Grupo de Economia da Energia

Capitalização da Petrobras: as razões do sucesso

In petróleo on 04/10/2010 at 17:44

Por Edmar de Almeida

O debate eleitoral em vigor no Brasil tornou pouco claro para a população em geral a relevância e as conseqüências do recente processo de capitalização da Petrobras.  O calor do debate eleitoral levou as discussões para alguns temas controversos da operação de capitalização, que não necessariamente eram os mais importantes para determinar o sucesso ou o fracasso da mesma.  O debate em torno da capitalização da Petrobras foi dominado por duas questões principais: i) as conseqüências de um eventual aumento da participação do Estado brasileiro no capital da Petrobras; e ii) o nível de transparência quanto aos critérios de definição do preço do barril do petróleo.

As vozes críticas ao processo de capitalização sustentaram até o final que uma elevação da participação do governo no capital da Petrobras iria contribuir para piorar o nível da governança corporativa, com o aumento da interferência política na empresa. Ao mesmo tempo, o governo estaria comprando esta maior participação mais barato que os acionistas minoritários. Isto ocorre porque o governo estaria pagando sua parte das ações com 5 bilhões de barris de petróleo valorados arbitrariamente a US$8,51, um preço acima daquele que seria preço considerado justo.

Apesar das suspeitas acima, podemos dizer que o processo de capitalização da Petrobras foi muito bem sucedido. Esta capitalização somou um total de R$ 120,2 bilhões. Deste total, R$ 74,8 bilhões correspondem às ações emitidas para pagar os 5 bilhões de barris adquiridos via Cessão Onerosa.  O restante de R$ 45,2 bilhões corresponde a novos recursos para serem investidos pela empresa.

A injeção de novos recursos na companhia era considerada fundamental para viabilizar o plano de investimento da mesma. O plano de negócios da companhia 2010-2014 prevê um valor de US$ 58 bilhões em termos de captações líquidas. Este valor corresponde à soma do montante arrecadado no processo de capitalização e o aumento da dívida da empresa. Sem uma capitalização importante, a Petrobras não teria margem para aumentar seu nível de endividamento.  Nos últimos anos, o nível de endividamento da Petrobras tinha aumentado com a aceleração do ritmo dos investimentos e já tinha atingido o teto aceitável para uma empresa avaliada como “investment grade”.

Como explicar o inegável sucesso da operação de capitalização da Petrobras? Inicialmente, é importante ressaltar que as descobertas de petróleo da área do Pré-sal fizeram do Brasil a principal área de expansão da indústria petrolífera mundial fora da OPEP. Ao mesmo tempo em que a Petrobras tem uma posição privilegiada no Pré-sal, as empresas internacionais de Petróleo de capital aberto, que disputam com a Petrobras os recursos dos investidores, vêm enfrentando muitas dificuldades para terem acesso a reservas de petróleo em condições econômicas aceitáveis.  Por esta razão, não está fácil encontrar uma empresa de Petróleo para investir com um bom prognóstico de crescimento da produção de petróleo.

O contexto atual do mercado financeiro mundial, caracterizado por baixo nível da taxa de juros e um fraco desempenho das economias centrais também contribuiu muito para o sucesso da operação. Neste contexto, os grandes fundos de investimento internacionais não encontram boas opções de investimentos no mercado de capital dos países centrais. O Brasil é visto como uma excelente oportunidade quando comparado com as outras opções. No Brasil, certamente um dos negócios mais promissores a médio e longo prazo é a Petrobras.

Dado o exposto acima os investidores foram pragmáticos e aceitaram o risco do negócio. Estes investidores estão apostando que a boa governança corporativa da empresa não irá alterar significativamente porque o governo agora reforça um controle acionário que já detinha. Da mesma forma, estão calculando que o importante não é o preço dos 5 bilhões de barris de petróleo da cessão onerosa, mas o baixo preço dos mais de 20 bilhões de barris do pré-sal que continuaram no regime de concessão atual.

Sobre os dois pontos acima vale uma reflexão adicional. A participação do Estado brasileiro no capital social da empresa aumentou de cerca de 40% para 48% com a capitalização. A participação do Estado nas ações com direito a voto subiu de 57,5% para 64%.  Este aumento foi denunciado como um grande perigo de deterioração da governança corporativa da empresa. Entretanto, o que não foi concretamente explicado por estes críticos é como, na prática, este aumento de 8% no capital votante poderia resultar numa ampliação da interferência do governo na empresa.

Na verdade, o governo brasileiro já detinha o controle de todas as decisões estratégicas mesmo antes de aumentar sua participação com a atual capitalização. É o governo que escolhe a diretoria da Petrobras. Da mesma forma, os representantes do governo já detinham maioria do Conselho de Administração da empresa. Ou seja, o governo já detinha todas as condições para interferir na empresa para o bem ou para o mal, mesmo antes da capitalização. Neste sentido, o que garante que a interferência do governo não afete negativamente o desempenho da empresa é o fato da Petrobras ser uma empresa de capital aberto, cotada em vários mercados internacionais. A Petrobras é constantemente avaliada por agências de avaliação de risco e deve respeitar critérios de governança corporativa. Caso o governo brasileiro interfira negativamente na empresa o próprio mercado financeiro tem instrumentos para punir este tipo de interferência através da redução do preço das ações, que teria implicações políticas muito nefastas para o governo.

Conclui-se, portanto, que o essencial para o investidor privado não é qual é sua parcela como acionista minoritário, mas se a empresa é um bom negócio.  Se analisarmos esta questão por critérios objetivos, não há sombra de dúvidas que a empresa é um excelente negócio. Em primeiro lugar, praticamente todos os especialistas em preços de petróleo estão apontando uma tendência de elevação dos já elevados preços do petróleo na próxima década. Em segundo lugar, a Petrobras será a empresa de capital aberto que mais aumentará sua produção de petróleo no mundo na próxima década, passando de cerca de 2,7 milhões de barris de óleo equivalente por dia (boe/dia) em 2010 para cerca de 5,4 boe/dia em 2020 . E finalmente, a Petrobras será a empresa de capital aberto com maior volume de reservas de petróleo e gás em 2020.  Estas são as verdadeiras razões do sucesso da capitalização da Petrobras.

Leia outros textos de Edmar de Almeida no Blog Infopetro

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  1. Ta muito bom seu artigo, Edmar. Compartilho plenamente das suas visões.

    abraço

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