Grupo de Economia da Energia

O futuro dos biocombustíveis V: as estratégias de Shell e BP

In biocombustíveis on 25/10/2010 at 00:15

Por José Vitor Bomtempo

Na postagem anterior, discutimos a natureza da competição e da inovação em biocombustíveis. Na classificação que propusemos, o ponto fundamental era a distinção entre a competição dentro da estrutura industrial existente – etanol e biodiesel – e a competição no que denominamos indústria de biocombustíveis e bioprodutos do futuro – novos biocombustíveis e bioprodutos. No primeiro caso, temos tipicamente uma competição baseada no posicionamento à la Porter. Um competidor se torna competitivo ao encontrar uma posição favorável dentro da estrutura industrial vigente.  No segundo, a estrutura industrial ainda não está estabelecida e a base da competição é a construção de capacitações (capabilities building à la Teece) que buscam viabilizar as oportunidades de inovação e moldar a nova estrutura industrial.

É importante ainda notar que na indústria de biocombustíveis de primeira geração as tecnologias de conversão estão disponíveis para os investidores a partir de fontes externas acessíveis como as empresas de engenharia/tecnologia e fabricantes de equipamento. Na indústria de biocombustíveis do futuro – baseada em inovação em novas matérias primas, novos processos, novos produtos – uma mudança fundamental é o deslocamento da fonte de tecnologia para dentro das empresas, isto, a tecnologia tende a ser muito mais sofisticada nos combustíveis do futuro e conseqüentemente proprietária.

Começamos a examinar na postagem de hoje como as estratégias das empresas têm lidado com esses desafios. Existem focos estratégicos claros? Na indústria atual ou na indústria do futuro? Observa-se uma diversidade de estratégias? Ou são elas convergentes?

Começamos pelas empresas de petróleo e gás. Três empresas se destacam pelo envolvimento com os biocombustíveis, pelo volume de recursos aplicados e pela forma como abordam a indústria: BP, Shell e Petrobras. Discutimos hoje os casos da BP e Shell.

As manifestações de interesse da Shell pelos biocombustíveis situam-se por volta de 2005. Nessa época, os biocombustíveis de segunda geração aparecem como alvo da empresa, em particular biocombustíveis derivados de resíduos agrícolas (etanol celulósico) e biocombustíveis pela rota da gaseificação de biomassa (BTL). Numa apresentação divulgada pela empresa, essas duas tecnologias são apresentadas como “aspired technology positions” (Rob Routs, Executive Director Downstream, Oil Products and Chemicals, setembro 2005). No Technology Report de 2007, a tecnologia BTL e a participação da Shell no projeto da empresa alemã Choren são destacadas como inovações em biocombustíveis. Sublinha-se ainda o empenho em não utilizar matérias primas que pudessem competir com alimentos e mais uma vez o foco na chamada segunda geração de biocombustíveis.

Coerente com essa visão, explicitada a partir 2005, Shell se lançou nos últimos anos numa série de projetos voltados para o desenvolvimento de biocombustíveis avançados tanto em termos de novos processos de conversão como de novos produtos. Assim, foram lançadas cinco plataformas diferentes, todas exploradas na forma de associação ou participação em empresas de base tecnológica.

O primeiro desses projetos foi o da Iogen, em 2002. Iogen é uma empresa canadense de biotecnologia com experiência em enzimas. A associação Shell/Iogen tem como objetivo a produção de etanol a partir de material lignocelulósico, no caso resíduos agrícolas. Em 2008, Shell aumentou suas participação para 50% do capital da empresa. Uma unidade de deomstração está em funcionamento e existe o projeto de uma unidade em escala comercial.

Em 2005, Shell se associou a Choren, uma empresa alemã, também apoiada por Volkswagen e Daimler, para produzir biodiesel, a partir de restos de madeira, pela tecnologia BTL (a chamada rota termoquímica: gaseificação seguida de síntese de FT).

Em 2006, Shell começou a trabalhar com Codexis, uma empresa americana de biotecnologia na busca de novas rotas de fermentação para a produção de novos biocombustíveis.  Contrariamente aos dois projetos anteriores, buscam-se no projeto Codexis novos produtos e não apenas novas tecnologias de conversão para a produção de combustíveis já conhecidos como o etanol e o diesel.

Em 2007, Shell se associou à empresa HR Biopetroleum, estabelecida no Havaí, numa joint-venture denominada Cellana,  para a produção de algas visando à produção de biodiesel.

Ainda em 2007, Shell passou a apoiar a Virent, start up americana, que, baseando-se na rota química, desenvolve a produção de biocombustíveis a partir de açúcares. O projeto Virent tem merecido destaque nas publicações especializadas pelo seu caráter inovador e perspectivas comerciais.

A abordagem da Shell enfatiza com clareza a aposta na inovação tecnológica como base da competição em biocombustíveis, toma como foco os biocombustíveis avançados e orienta essa aposta para a exploração de diversas plataformas diferentes. Na estratégia da empresa, uma ou mais plataformas poderiam se relevar vencedoras da competição tecnológica, serem escolhidas no processo de seleção e desenvolvidas como negócios em escala comercial. As demais seriam deixadas de lado.

Em 2009, entretanto, uma certa correção de rumos parece ter sido efetuada pela Shell. A empresa abandonou o projeto Choren que explorava a rota BTL. E, além disso, movimentou-se de forma forte em nova direção ao se associar numa joint-venture à Cosan, maior produtor brasileiro de etanol. Shell se torna assim produtor de etanol de primeira geração. Note-se que a joint-venture Shell/Cosan envolve, além da produção de etanol, a atividade comercial em distribuição de combustíveis.

O caso da BP mostra uma abordagem estratégica diferente. A empresa, que informa ter investido cerca de US$ 1,5 bi desde 2006 em biocombustíveis e bioprodutos, evidenciou mais claramente sua estratégia com movimentos realizados nos últimos três anos. A BP tem como objetivo atuar de forma ativa na expansão do mercado dos biocombustíveis partindo dos combustíveis de primeira geração e caminhando, na medida do amadurecimento dos projetos, para a produção de biocombustíveis avançados e bioprodutos. A empresa atua hoje em 7 projetos diferentes que vão da produção de etanol de primeira geração à pesquisa avançada em biotecnologia: produção de etanol no Brasil (Tropical, uma joint venture BP, Santelisa e Maeda), produção de etanol a partir de trigo no Reino Unido (Vivergo, uma joint venture BP, DuPont e British Sugar), desenvolvimento de tecnologia e produção de butanol (Butamax, uma joint venture BP e DuPont), produção de etanol a partir de materiais lignocelulósicos (Vercipia, uma joint venture BP e Verenium, que recentemente passou ao controle integral da BP), produção de diesel a partir de açúcares (projeto desenvolvido por Martek, a partir de algas com apoio da BP), biotecnologia de sementes para culturas energéticas de alta produtividade (Mendel com apoio da BP) e finalmente a aplicação de US$ 500 milhões, em 10 anos, para a estruturação e desenvolvimento do Energy Biosciences Institute (EBI), com a participação de University of California Berkeley, Lawrence Berkeley National Laboratory e University of Illinois.

Como as duas estratégias podem ser comparadas? Que pontos em comum? Que diferenças marcantes?

Em primeiro lugar, um ponto comum importante : ambas apostam numa indústria do futuro baseada em tecnologias sofisticadas com novas matérias primas, novas tecnologias de conversão e também novos produtos. Entetanto, enquanto a Shell testa tecnologias de natureza diferente – biotecnologia, termoquímica e química – a BP se concentra na biotecnologia em todas os seus projetos. A saída recente da Shell do projeto Choren – rota termoquímica BTL – pode ser visto, na falta de uma avaliação mais aprofundada das razões da saída, como um movimento a favor da rota bioquímica.

Uma diferença expressiva entre as duas estratégias é a visão de como a indústria de biocombustíveis do futuro seria construída. Na visão inicial da Shell esse processo se daria a partir de algumas novas plataformas tecnológicas, entre as diversas alternativas possiveis, que se viabilizariam ao avançarem mais rapidamente na curva de aprendizado. Já a BP parece enxergar um processo de transição no qual a produção de biocombustíveis de primeira geração seria uma passagem obrigatória na introdução de tecnologias mais avançadas. Essas seriam predominantes na indústria do futuro, mas somente depois de um processo de transição longo no qual o know how de produção em escala dos biocombustíveis de primeira geração seria uma passagem obrigatória. É interessante notar que a recente joint-venture Shell/Cosan pode ser interpretada como uma aproximação da Shell em relação à estratégia da BP.

Outro ponto importante que distingue as duas estratégias é a postura em relação à pesquisa mais básica e fundamental com vistas à construção do conhecimento na área. BP ao apoiar a criação de um centro de pesquisa de peso coloca-se em posição de possível controle do conhecimento de ponta gerado. Aparentemente, Shell prefere apoiar iniciativas de start ups e empresas de base tecnológica que já se lançaram como tais a partir de pesquisas fundamentais em que não houve a participação da Shell.

Voltando à distinção incial das estratégias – posicionamento ou inovação/construção de capacitações – pode-se vislumbrar no caso da BP um esforço direcionado para conciliar as duas estratégias, associando a busca de posições na indústria de primeira geração a uma cuidadosa construção de conhecimento e capacitação tecnológica que vai da pesquisa ao desenvolvimento de novas tecnologias. A estratégia da Shell, se considerarmos o que foi explicitamente apresentado nos últimos cinco anos, volta-se para o desenvolvimento tecnológico de múltiplas alternativas de inovação em associação com empresas geradoras iniciais dos conceitos a serem desenvolvidos.

E a Petrobras? E as demais empresas de petróleo? Na próxima postagem discutiremos as estratégias destacadas de outras empresas com foco no caso da Petrobras. Será interessante comparar a Petrobras com a BP e a Shell já que são, entre as grandes empresas de petróleo, as que mais têm se envolvido com os biocombustíveis.

Postagens relacionadas:

O futuro dos biocombustíveis IV: a posição brasileira

O futuro dos biocombustíveis III: O processo de inovação que está construindo a indústria do futuro

O futuro dos biocombustíveis II: Por que a indústria de biocombustíveis do futuro será diferente da que conhecemos hoje?

O futuro dos biocombustíveis

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  1. […] This post was mentioned on Twitter by Economia da Energia and Economia da Energia, Economia da Energia. Economia da Energia said: Hoje, no Blog Infopetro: O futuro dos biocombustíveis V: as estratégias de Shell e BP – Por José Vitor Bomtempo http://bit.ly/c1j1eN […]

  2. Estão excelentes as análises tenho acompanhado de perto suas postagens, hoje vivo em Pequim e estou desenvolvendo minha tese sob bio-combustiveis aqui na China.
    Suas contribuições são fundamentais para minha tese.

    Obrigado

  3. […] Na postagem anterior, comparamos as estratégias da BP e da Shell em biocombustíveis. Hoje, apresentamos o caso da Petrobras. Vale recordar rapidamente a fundamentação da análise. Partimos de uma distinção de base entre a competição dentro da estrutura industrial existente – etanol e biodiesel – e a competição no que denominamos indústria de biocombustíveis e bioprodutos do futuro – novos processos e novos biocombustíveis e bioprodutos. No primeiro caso, temos tipicamente uma competição baseada no posicionamento dentro de uma estrutura industrial conhecida. No segundo, a estrutura industrial ainda não está estabelecida e a base da competição é a capacidade de inovar e moldar a nova estrutura industrial. Esses pontos estão desenvolvidos com mais detalhes nas postagens anteriores da série. […]

  4. […] José Vitor Bomtempo* – No artigo anterior, comparamos as estratégias da BP e da Shell em biocombustíveis. Agora, apresentamos o caso da […]

  5. […] como a Shell, BP, por exemplo (ver as postagens anteriores; o futuro dos biocombustíveis IV e V), que combinam um posicionamento na indústria atual com uma estratégia de construção da nova […]

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  7. […] caso Shell já foi desenvolvido na postagem V. Para não repetir o desenvolvimento apresentado, apresentamos aqui apenas os tópicos principais […]

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