Grupo de Economia da Energia

Impactos do terremoto e da crise nuclear japonesa sobre o mercado internacional de gás natural

In gás natural, GNL on 18/04/2011 at 00:15

Por Marcelo Colomer e Edmar de Almeida

Um dos poucos consensos existentes entre os especialistas de energia neste momento é o reconhecimento de que a crise energética, em particular a crise nuclear que se estabeleceu no Japão após o grande terremoto do dia 11 de março, tenderá a beneficiar o mercado internacional de gás natural. Muitos especialistas apressaram-se em apontar uma rápida redenção do mercado de gás natural após quase três anos de preços deprimidos. De fato, o preço do gás natural, assim como o do petróleo, sofreu uma queda abrupta a partir da crise de 2008, permanecendo em um patamar muito baixo, mesmo após a recuperação do preço do barril em 2009. Esta esperada recuperação dos preços no mercado de gás é vista com grande alívio pelos agentes do setor, embora uma análise mais cuidadosa do atual contexto do mercado revele que esta recuperação pode levar mais tempo do que se gostaria.

A crença de que o desastre no Japão irá afetar o mercado de gás se apóia na elevada importância das importações do país no mercado de GNL e por ser o gás a melhor alternativa de curto e médio prazo para se restabelecer o fornecimento de energia elétrica no Japão. Em 2010, por exemplo, o percentual da participação japonesa nas importações mundiais de GNL foi de 35%. Esse número se torna ainda mais elevado se consideramos somente as importações ocorridas na região da Bacia do Pacífico e Oriente Médio, 50%.

No que diz respeito à infraestrutura de geração elétrica, estima-se que cerca de 20 GW de capacidade de geração nuclear e a carvão tenham sido afetadas pelos eventos do dia 11 enquanto que a infraestrutura de geração a gás natural foi muito pouco afetada. De fato, apenas um pequeno terminal de regaseificação, de Shin Minato, foi fechado em decorrência dos tremores de março.

Outros dois fatores contribuem para explicar a importância do gás no atendimento emergencial da demanda por eletricidade no Japão. A existência de capacidade ociosa de geração térmica a gás natural próxima dos centros consumidores e o reduzido custo da geração a gás quando comparada a geração a óleo sugerem que não haja, no curto e médio prazo, alternativas melhores do que o gás natural para compensar a perda de capacidade de geração elétrica.

Estimativas iniciais calculam o aumento da demanda de GNL japonesa em 40 milhões de metros cúbicos por dia (Mm³/dia). Em outros termos, caso o gás natural seja utilizado para compensar 50% da capacidade de geração perdida, seria necessário uma importação adicional de cerca de 40 milhões de metros cúbicos por dia. Para isto, seria necessário enviar algo como 12 carregamentos de GNL adicionais por mês para o Japão. Estes números podem impressionar numa primeira avaliação, contudo, uma análise cuidadosa da atual situação do mercado sugere que os impactos de curto e médio prazo nos preços podem não ser muito significativos.

Primeiramente é importante considerar que a demanda adicional de gás natural pode não ser tão grande quando as primeiras estimativas indicam. Isso porque se acredita que, no médio prazo, haja o restabelecimento de parte da infraestrutura de geração a carvão e nuclear que hoje estão fora de operação. De fato, estima-se que apenas 6,8 GW de geração nuclear e a carvão tenham sido permanentemente perdidas, o que reduz significativamente a demanda adicional de gás natural para geração elétrica no médio prazo. Outro ponto a ser levantado, é que os efeitos do terremoto do dia 11 de março sobre o parque industrial e sobre a própria economia japonesa ainda são incertos, o que coloca uma grande dúvida sobre a evolução do consumo de energia elétrica e mesmo de gás natural nos setores não geradores nos próximos anos.

Entretanto, mesmo que as estimativas iniciais de demanda sejam confirmadas, o contexto atual do mercado de GNL permite que o consumo emergencial japonês seja facilmente suprido sem grandes pressões nos níveis de preços. Isso pode ser explicado pela elevada capacidade ociosa existente atualmente nas plantas de liquefação e no transporte de GNL.

A indústria mundial de GNL investiu maciçamente na expansão da capacidade liquefação entre 2005 e 2007, quando os preços do petróleo e do gás natural dispararam no mercado internacional. Entretanto, muitos destes projetos só entraram em operação após a crise de 2008, quando o mercado de gás se encontrava numa situação de reduzida demanda o que contribuiu ainda mais para a redução dos preços. Adicionalmente, a produção nacional de gás natural norte-americana se recuperou a partir do shale gas o que pressionou ainda mais para baixo os preços no mercado internacional de GNL. O resultado foi o surgimento de um excesso de capacidade de liquefação e de transporte. Em 2010, por exemplo, a capacidade de liquefação ociosa na Bacia do Pacífico e Oriente Médio atingiu 18% da capacidade instalada enquanto na Bacia do Atlântico essa ociosidade atingiu 17%. Em relação à capacidade de transporte, o fator de utilização em 2010 esteve em torno de 60%.

Não por acaso, Rússia, Qatar e Indonésia foram os primeiros fornecedores do GNL emergencial para o Japão. É nestes países que se situa boa parte da capacidade ociosa de liquefação atualmente existente. De forma geral, aceitou-se atender a demanda adicional do Japão ao mesmo preço dos contratos previamente estabelecidos e indexados ao petróleo. Em outras palavras, o preço acordado nos contratos já firmados com o Japão será estendido para as cargas emergenciais de GNL. Portanto, é de se esperar que o Japão sozinho não será capaz de reverter o atual contexto do mercado de gás no curto e médio prazo.

No longo prazo, contudo, mudanças estruturais na matriz energética mundial, decorrentes da crise nuclear japonesa, podem trazer efeitos persistentes no mercado de gás natural. A cada vez mais provável moratória na expansão da capacidade de geração nuclear levará o Japão e muitos outros países pobres em recursos energéticos renováveis a lançarem mão do gás natural para expandir a capacidade de geração. Em outros termos, em um contexto de redução das opções tecnológicas de geração em função de questões de segurança (nuclear) e emissões (carvão), o gás natural apresenta-se como a melhor opção. Nesse sentido, acredita-se que os principais efeitos do terremoto do dia 11 de março sobre o mercado de gás natural deverão ocorrer no longo prazo e dependerão muito mais do embate político em torno da questão nuclear do que de pressões conjunturais de demanda.

Leia outros textos de Marcelo Colomer no Blog Infopetro

Leia outros textos de Edmar de Almeida no Blog Infopetro

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  1. Caros Marcelo e Edmar,

    Muito boa a avaliação de vocês. Deixo alguns comentários para complementar a análise:

    1. Mesmo com a ausência de importações de GNL pelos EUA, o mercado mundial não está em situação de sobre-oferta excessiva, pois o mercado Europeu aborve, desde 2009 (na arbitragem com os volumes importados da Rússia, indexados a petróleo) parte dessa disponibilidade de GNL;

    2. Parte da capacidade ociosa de liquefação é apenas nominal, pois, em algumas plantas, há grande dificuldade de se expandir produção (Sacalina) ou, mesmo, opção por manutenção e/ou atraso de entrada em operação e/ou ramp-up (Catar);

    3. No caso das cargas redirecionadas ao Japão neste primeiro momento, muitas são de países também importadores, o que quer dizer que, eventualmente, deverão ser repostas. Alie-se isso ao fato dos meses entre o fim do inverno e começo de verão serem de baixa sazonal de demanda no Japão e entende-se que um aperto maior no mercado de GNL deve emergir até o final do ano;

    4. A Comissão Européia já declarou que todos os reatores na UE passarão por inspeção ainda em 2011. Considerando-se paradas dispersas ao longo dos meses com diração de 1 mês por reator, isso pode levar a um aumento de cerca de 30 MM m3/dia das importações da Europa – o que pode não ser muito no total importado, mas certamente mais sifnificativo para as importações de GNL;

    5. No longo prazo, a não-concessão de extesões de licenças de operação às usinas nucleares e o atraso ou mesmo cancelamento de novos projetos hão de impactar positivamente a demanda por gás natural (ao mesmo tempo que o petróleo e o carvão, por certo), talvez fazendo com que um eventual “aperto” dos mercados de gás natural (com a notável exceção dos EUA) ocorra antes do esperado. Concordo com vocês que o “embate político em torno da questão nuclear” seja o principal veículo de transmissão dos efeitos do sismo no longo prazo, mas entendo que ainda há outros fatores;

    6. A expectativa de que o mercado mundial de GNL ficará mais apertado já a partir do final deste ano é disseminada entre os analistas; por custo de oportunidade (no melhor estilo “hotellingiano”) isso há de trazer consequências sobre o valor inferido ao GNL hoje, ainda que não haja redução imediata de sua disponibilidade;

    7. De efeito prático observável, nota-se – e espera-se que assim continue a ocorrer – uma aproximação dos preços spot do gás natural na Europa (NBP) aos patamartes dos preços contratados (indexados a petróleo); ao mesmo tempo, e exatamente por isso, arrefece-se a pressão dos países consumidores por revisões contratuais que dêem maior peso aos preços no spot.

    As consequências do sismo do Japão serão, portanto, maiores e mais diferidas no tempo. A direção desses impactos é certa (maior demanda por gás natural), mas quantificar qualquer resultado, hoje, ainda parece-me muito temprano. De grande importância, álém do efeito deslocamento da capacidade de termogeração nuclear, acredito ser a maior resistência dos contratos de gás natural com preços indexados a petróleo. Isso não necessariamente significa preços mais altos, mas pode muito bem significar um mercado global com preços menos convergentes.

    abraços,

    RAFAEL PERTUSIER

    • Caro Rafael,

      muito obrigado pelos seus comentários. Acho que vc agregou informações muito interessantes. Acredito que o que procuramos mostrar neste artigo é que, na nossa opinião, os problemas no Japão não são suficientes para mudar estruturalmente o atual contexto de mercado no curto-prazo. O mercado de GNL está vendedor neste momento. Alguns produtores de GNL que recentemente expandiram sua capacidade de liquefação vêm buscando novos mercados para colocar este gás que normalmente seria vendido aos países da Europa, japão e Estados Unidos. Neste caso, o que eles buscam são contratos firmes de longo-prazo para garantir o retorno destes investimentos.

      Acredito que mesmo considerando um aumento temporário das importações de 30 Mm³ por dia na Europa, e o aumento do Japão, a virada para um mercado comprador vai depender da retomada da economia dos países centrais. Mas certamente, a crise nuclear vai acelerar esta transição, do mercado vendedor para um mercado comprador.

      um abraco,

      Edmar

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