Grupo de Economia da Energia

O futuro do shale gas e a dinâmica da indústria de gás natural

In gás natural on 06/06/2011 at 00:10

Por Marcelo Colomer

O desenvolvimento e aperfeiçoamento das técnicas de perfuração horizontal e de fraturamento hidráulico têm permitido a expansão da capacidade de produção de gás natural em formações geológicas de baixa permeabilidade, especialmente em formações de xisto. Nesse novo contexto exploratório, destaca-se o crescimento da produção de gás de xisto nos EUA e no Canadá onde o aumento da oferta interna de gás natural vem modificando completamente o mercado do energético.

Contudo, apesar do aumento da produção canadense e norte americana de gás de xisto, ainda existem grandes incertezas a respeito do potencial produtivo de gás natural em formações geológicas de baixa permeabilidade. Isso se explica não somente pela inexistência de dados geológicos em determinadas formações de xisto como também pelos elevados e ainda pouco conhecidos impactos ambientais da produção de shale gas.

Entre 2000 e 2010, a produção de gás de xisto nos EUA aumentou de 30 milhões de m3/d para 373 milhões de m3/d, o que representou um aumento de aproximadamente 28% ao ano. Atualmente, cerca 23% da produção de gás natural seco nos EUA provêm de formações geológicas de baixa permeabilidade. No que se refere à disponibilidade de recursos, em 2009 houve um aumento de 1,6 trilhões de m3 nas reservas de gás de xisto totalizando cerca de 20% do total das reservas provadas de gás natural dos EUA.

A crescente importância dos recursos provenientes das formações geológicas de baixa permeabilidade nos EUA pode ser vista no próprio no Relatório Anual da Agência Internacional de Energia (World Energy Outlook 2010) que estima os recursos tecnicamente recuperáveis de gás de xisto nos EUA em 24 trilhões de metros cúbicos. Dada uma base estimada de recursos totais de gás natural de 71 trilhões de metros cúbicos, os recursos de gás de xisto constituem 34% dos recursos de gás natural norte americano, segundo a IEA. Como resultado, a agência prevê que o gás de xisto será o maior responsável pelo crescimento previsto da produção interna de gás natural nos EUA. Até 2035, estima-se que a produção de gás de xisto irá corresponder a 46 % do total de produção norte americana de gás natural.

O aumento da produção de gás de xisto tanto nos EUA quanto no Canadá vem modificando profundamente o mercado internacional de gás natural. Historicamente, o mercado de gás estruturou-se em bases regionais em função das características físicas do seu transporte. Isto é, diferente do petróleo, em que a elevada densidade energética em condições normais de temperatura e pressão permitiu o desenvolvimento de um mercado global composto por múltiplas fontes de abastecimento e inúmeros mercados, os elevados custos de transporte do gás natural contribuíram negativamente para o desenvolvimento de um mercado verdadeiramente global do combustível.

Nas décadas de 80 e 90, contudo, o desenvolvimento de novas tecnologias de liquefação e transporte de GNL permitiu o aumentou da flexibilidade do mercado diversificando as rotas de comércio internacional do gás natural e aumentando o número de agentes no mercado. As expectativas a respeito dos impactos do GNL no mercado internacional de gás natural eram tais que se tornou comum nos debates acadêmicos a idéia de formação de uma OPEP do gás.

A expansão da produção de gás de xisto, contudo, vem contribuindo para reverter à tendência de integração do mercado internacional de gás natural trazida pelo GNL. Em 2009, por exemplo, 57% do comércio internacional de gás natural ocorreram dentro de bases regionais. Esse número se torna ainda mais expressivo, 76%, se considerarmos a Europa e a Eurásia como uma única região. No que se refere ao modal, 72% da movimentação internacional de gás natural, em 2009, ocorreram via gasoduto.

Nos EUA, as reduções recentes nas importações de GNL estão associadas não somente aos efeitos da crise econômica de 2008/09, mas também ao aumento da produção nacional de gás de xisto. Isso se reflete no descolamento do preço no Henry Hub em relação ao preço do WTI ocorrido a partir de 2009 quando o preço do petróleo reverteu sua tendência de queda.

O potencial impacto da produção de gás de xisto sobre a dinâmica do comércio internacional de gás natural está associado aos seus impactos na distribuição geográfica dos recursos. Se forem comparados os dados de reservas provadas de gás natural informadas pela BP statiscal review 2010 com as estimativas feitas pelo DOE norte americano sobre a disponibilidade de recursos provenientes de formações de xisto (figuras 1 e 2) percebe-se claramente que o gás de xisto contribue para uma melhor distribuição geográficas do gás natural.

Figura 1 – Reservas Provadas de Gás Natural em 2009

Fonte: Elaboração própria a partir de dados da BP Statistical Review 2010

Figura 2 – Reservas Provadas e Recursos Tecnicamente Recuperáveis de Gás Natural em 2010

Fonte: Elaboração própria a partir de dados do EIA-DOE, 2010 e do BP Statistical Review, 2010.

A diferença entre as duas figuras acima reflete a existência de importantes reservas de gás de xisto em países com reduzidas reservas de recursos convencionais como, por exemplo, França, Polônia, México, África do Sul e Argentina, como podemos ver na figura 3.

Dados preliminares do DOE mostram que os recursos de gás de xisto no mundo são vastos. Estima-se que haja 185 trilhões de metros cúbicos de gás de xisto tecnicamente recuperável no mundo. Esse volume se torna ainda mais impressionante se for considerado que os recursos recuperáveis de gás natural no mundo (excluído o gás de xisto) em 2010 somaram 448 trilhões de metros cúbicos. Nesse sentido, a adição dos recursos identificados de gás de xisto à base de recursos de 2010 corresponde a um aumento de 40% dos recursos tecnicamente recuperáveis no mundo. A figura 3 destaca as principais áreas com potencial de exploração de gás de xisto no mundo.

Figura 3 – Volumes de gás de xisto tecnicamente recuperáveis, reservas provadas, o consumo e a produção reportadas em 2009

Fonte: Elaboração própria a partir de dados do EIA-DOE, 2010

Apesar do grande potencial produtivo das formações geológicas de baixa permeabilidade, ainda existem grande incertezas sobre os impactos ambientais da produção de gás de xisto o que tem levado muitos países a proibirem sua produção em seus territórios. As técnicas de fraturamento hidráulico, além de utilizarem uma grande quantidade de água, utilizam substâncias químicas, como o benzeno, que ao se infiltrarem no solo contaminam os lençóis freáticos localizados próximos às áreas produtoras.

Ademais, a produção de gás de xisto requer centenas de milhares de quilômetros quadrados de terras em comparação com as dezenas ou centenas necessárias para o desenvolvimento do gás convencional. Isso se explica pela necessidade de perfuração de um grande número de poços adjacentes. Em certas regiões, como na Europa, por exemplo, esta caracteristica da produção de gás de xisto torna-se um problema uma vez que a densidade populacional (três vezes maior do que nos EUA) implica que as negociações a respeito dos direitos de produção e acesso à terra ocorram com centenas de proprietários de terras.

Nesse contexto de incerteza sobre os impactos sociais e ambientais, a Assembléia Nacional Francesa, no início de 2011, proibiu a utilização da técnica de fraturamento hidráulico em seu território até que o relatório sobre os impactos ambientais e econômicos da produção de gás não convencional seja concluído. Nesse mesmo caminho, a Suíça suspendeu por tempo indeterminado as autorizações de produção de gás de xisto em seu território em função das incertezas ambientais.

Mesmo nos EUA, começam a surgir pressões da sociedade contra a produção de gás de xisto. Em Nova York, onde se localiza um dos maiores reservatórios de gás de xisto dos EUA (campo de Marcellus), foi suspensa, temporariamente, a produção de gás de xisto enquanto são avaliados os riscos ambientais na região. No Texas, foi aprovada, em 2011, a primeira lei norte americana que obriga as empresas produtoras de gás natural a divulgarem as quantidades e os tipos de fluídos utilizados no processo de fraturamento hidráulico. Nesse contexto, a Agência de Proteção Ambiental norte americana vem trabalhando na elaboração de um estudo sobre os impactos da produção de gás de xisto e pretende divulgar os primeiros resultados em 2012.

Em suma, o que se pode concluir é que apesar do grande potencial produtivo das formações geológica de baixa permeabilidade (xisto) o desenvolvimento da produção de gás de xisto esbarra nas questões ambientais. Nesse sentido, pode-se afirmar que o ritmo de crescimento da produção de gás natural provenientes de formações de xisto dependerá diretamente do equilíbrio de forças entre os defensores da segurança energética e os ambientalistas preocupados com os impactos ambientais e sociais da produção de shale gas.

O fato é que a moratória nuclear de 2011 não deixa muita alternativa para os países, principalmente da comunidade européia, em termos de fonte de energia. Isso nos leva a crer que os objetivos de segurança energética serão priorizados apesar da maior fiscalização e de uma regulação mais severa sobre o processo de fraturamento hidráulico.

Referencias Bibliográficas

BP Statistical Review, 2010

IEA World Energy Outlook, 2011

EIA-DOE World  Shale Gas Resources: An Initial Assessment of 14 Regions Outside the United States, 2011

Leia outros textos de Marcelo Colomer no Blog Infopetro

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  1. Texto muito bom. O Shale Gás ainda é uma incerteza, porém para o desenvolvimento do mundo seria uma boa saída, principalmente para os EUA. O ser humano novamente em uma encruzilhada. Neste momento é que surgem as inovações e superações.

  2. O SHALE GAS É O “X” DA QUESTÃO
    O sucesso na exploração do gás de xisto nos EUA é um claro indício do fim gradativo de estímulos dos EUA, conforme prevê o FMI.
    “Calmaria de dólares” aumenta despesa da Petrobras, mas estimula a produção nacional de etanol e de gás. Aumenta receita de exportação e diminui despesa corrente de importação. O etanol deve ficar mais competitivo do que a gasolina este ano e se o preço da gasolina for finalmente equiparada – agora mais justificada pela alta do dólar – o etanol premiado de cana tem chance de sair da estagnação dos últimos anos. É claro que a produção deste ano de 2013 ainda não será suficiente. Entretanto, é bom lembrar que o brasil não é somente um simples produtor de etanol, mas detentor da provada tecnologia e fabricante de equipamentos que poderão ser exportados em larga escala para países emergentes.
    CONCORRÊNCIA NA PRODUÇÃO DE CALOR DE PROCESSO
    Indústrias de cerâmica e de vidro substituíram óleo combustível pelo gás e perderam competitividade, mas “não têm como voltar atrás” (Abividro). Até meados da década passada, o Brasil era fornecedor de vidro plano para quase toda a América do Sul.
    Há uma forte concorrência pelo gás para produção de “calor de processo” e gás para acionamento de térmicas. Produtores verticalizados têm a alternativa de “vender o calor” de suas térmicas em lugar da venda do gás propriamente dito.
    Os custos do setor petroquímico dependem tanto do preço do gás que várias fábricas podem fechar.
    Nos Estados Unidos, o gás extraído das rochas de xisto (shale gas) tem custo baixo e abre a perspectiva de reduzir o custo da energia naquele país, que detém a segunda reserva mundial, depois da China.

  3. O RETORNO DO INVESTIMENTO NOS EUA
    Sempre soube que mais dia menos dia os dólares acabariam por voltar ao seu local de origem e porto seguro. Só não sabia quando. Desta vez – não mais como consumo de mercadorias baratas – mas como investimento.

    Se a oferta de dólares realmente for mais restrita a Petrobras terá sérias dificuldades para importar gasolina e etanol – pelo menos momentaneamente – por preço ainda mais caro do que já está fazendo. O subsídio à gasolina importada – que já é um transtorno para a Petrobras – se tornará ainda maior com preços mais elevados da gasolina e etanol devido ao fim do estímulo que a economia dos EUA vai passar – gradualmente – nesse ano de 2013 e seguintes.
    “Calmaria de dólares” aumenta despesa da Petrobras, mas estimula a produção nacional de etanol e de gás.
    E fácil ser nacionalista, mas pergunte a qualquer funcionário do BB, Caixa, Petrobras e trabalhadores que aplicaram seu fundo (inclusive FGTS) em ações da Petrobras se estão satisfeitos com os resultados.

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