Grupo de Economia da Energia

Qual o alcance dos impactos sobre o mercado da atual da revolução do gás de xisto?

In gás natural on 25/07/2011 at 00:10

Por Edmar de Almeida

O desenvolvimento das tecnologias de produção do gás de xisto vem sendo apontado como uma revolução para o negócio e a economia do gás natural. Muitos agentes e o próprio governo americano acreditam que o descolamento do preço do gás natural do preço do petróleo nos Estados Unidos é um fenômeno estrutural que reflete o novo contexto tecnológico e geológico da indústria do gás natural. Existe uma percepção de que a revolução tecnológica do gás de xisto afetará não apenas a indústria do gás americana, mas também o comércio mundial de gás de forma permanente. Os que acreditam nesta mudança estrutural apontam os seguintes argumentos para sustentar esta visão:

  • Os recursos existentes nos Estados Unidos de gás de xisto equivalem a 3,5 vezes o volume de todas as reservas provadas atualmente nos EUA. Além disto, a disponibilidade de recursos de gás de xisto não se restringe aos EUA. Um recente levantamento realizado pelo Departamento de Energia (DOE) apontou a existência de grandes volumes de recursos de gás de xisto em 48 bacias sedimentares em 32 países, incluindo Brasil, Argentina, Bolívia, Uruguai e Paraguai.
  • O processo de aprendizado tecnológico dos últimos 10 anos permitiu reduzir de forma radical o custo de produção de gás de xisto. As principais inovações foram: i) redução do tempo de perfuração dos poços; ii) aprimoramento das técnicas de perfuração horizontal; iii) melhoria do conhecimento geológico de áreas produtoras; iv) desenvolvimento de tecnologias de fraturamento hidráulico e padronização de equipamentos. Estas inovações teriam reduzido os custos de produção para menos de 3 dólares por Mmbtu, nas melhores áreas produtoras.
  • Além da redução do custo de produção, muitos autores apontam o menor risco geológico e de mercado como um indutor dos investimentos nas áreas de gás de xisto. De fato, além do risco geológico ser menor que os do gás convencional, os projetos de gás de xisto têm como característica um curto período de investimento e produção. Grande parte da produção do gás está concentrada nos primeiros períodos de 3 anos. Neste horizonte de tempo é possível garantir preços do gás no mercado americano através de contratos no mercado futuro. Este menor risco tem facilitado a atração de capital com baixo custo para o setor.

Pelas razões acima mencionadas, muitos agentes vêm sustentando que as mudanças ocorridas no mercado de gás americano, em particular sobre o nível de preços, são estruturais. O Departamento de Energia dos EUA, por exemplo, reviu para baixo suas previsões de preços futuros para o gás natural. Essas previsões apontam para um preço de gás entre 3 e 3,5 vezes menor do que o preço do petróleo no mercado americano durante todo o período entre 2011 e 2035, no cenário de referência. Ou seja, o preço do gás subiria lentamente de 4 para cerca de 7 dólares por MMBtu no período, enquanto o petróleo sairia de 13 para y 22 dólares por MMBtu no mesmo período. Neste período, a produção de gás não convencional (Areias compactas, Gás de Xisto e Gás de Carvão) passaria de 50% para 74% do volume total de gás produzido nos EUA.

Esta visão do Governo Americano é compartilhada pela maioria dos agentes privados do mercado. O DOE já recebeu pedido de cerca de 10 empresas para autorização de projetos de liquefação de gás visando a exportação de GNL. A empresa de gás americana Cheniere recebeu a autorização do DOE e pretende investir bilhões de dólares numa planta de liquefação no mesmo sítio onde hoje já opera uma planta de regaseificação de gás. O projeto da planta de liquefação se sustenta na previsão de que os preços do gás nos EUA ficarão pelo menos 5 dólares por MMbtu mais barato que o preço do gás na Europa. Mais uma vez, o diferencial de preços entre os EUA e a Europa estaria baseado na hipótese do descolamento do preço do gás do preço do petróleo nos EUA, enquanto o preço do gás na Europa tenderia a permanecer vinculado ao preço do Petróleo.

No entanto, nem tudo é céu de brigadeiro na revolução do gás de xisto:

  • Os custos de produção não são exatamente os anunciados pelas empresas. Apesar da formação de um consenso entre os analistas de que o custo atual de produção do gás de xisto encontra-se entre 3 a 4 dólares por MMbtu e a taxa média de retorno dos projetos em torno de 30%, estudos mais focados no tema mostram uma realidade diferente. Os custos de produção de gás de xisto podem variar muito de acordo com os projetos, o custo marginal de produção atual situa-se entre 6 e 7 dólares por MMbtu e a rentabilidade dos projetos têm sido abaixo dos 10% ao ano. Os especialistas que advogam esta visão explicam o crescente investimento em gás de xisto pelas seguintes razões: i) muitas empresas investidoras conseguiram se proteger da queda do preço do gás em 2009 através do mercado futuro; ii) com o excesso de liquidez atual do mercado financeiro, as empresas conseguem atrair capital mesmo para projetos de baixa rentabilidade; iii) com a queda do preço do gás novos investimentos têm se orientado para áreas produtoras de gás com líquidos associados; iii) na recente “corrida” ao gás de xisto, as grandes empresas de petróleo adquiriram concessões em áreas produtoras na fase em que o preço do gás já havia caído. Estas empresas agora têm obrigações legais de investir, mesmo no cenário de baixos preços.
  • Os custos que estão elevados em relação ao preço atual do mercado (cerca de 4,4 dólares por MMbtu) podem elevar-se significativamente com a evolução da regulação ambiental. A legislação ambiental americana está desatualizada frente às novas tecnologias de perfuração e fraturamento hidráulico. Atualmente, existe uma crescente mobilização da comunidade ambiental para que os estados adotem uma legislação ambiental específica para o gás de xisto. O Texas já fez isto e se tornou o primeiro Estado americano a aprovar uma legislação específica para o gás de xisto. A partir de agora as produtoras de gás de xisto no Texas serão obrigadas a divulgar os componentes químicos utilizados para o fraturamento hidráulico bem como todas as características técnicas do poço a ser perfurado.

Pelas razões acima mencionadas, começam a surgir visões que destoam do consenso em torno da ideia da revolução do gás de xisto. Estas visões destoantes esperam uma recuperação mais firme do preço do gás nos Estados Unidos a partir de uma recuperação da economia americana. Por um lado, esta recuperação poderia acelerar o crescimento da demanda de gás, principalmente a partir de uma maior demanda de eletricidade. Por outro lado, a recuperação da demanda implicaria numa elevação da taxa de juros, reduzindo a disponibilidade de capital para projetos de baixa rentabilidade.

Todo bom economista da energia deveria desconfiar dos consensos que se formam nos mercados energéticos. O setor energético é por demais complexo para justificar consensos duradouros. A própria revolução do gás de xisto esteve fora do radar dos especialistas até a consumação dos fatos. É hora de prestarmos mais atenção sobre a economia do gás de xisto antes de afirmar com tanta certeza que o preço do gás ficará tão baixo em relação ao preço do petróleo nos próximos 25 anos.

Leia outros textos de Edmar de Almeida no Blog Infopetro

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  1. Prezado Sr.,
    Inicialmente gostaria de dizer que achei o artigo excelente e bastante oportuno, já que a exploração do SHALE GAS está causando uma verdadeira revolução no cenário da exploração de hidrocarbonetos nos EUA, em termos de investimento e desenvolvimento de novas tecnologias.
    Gostaria entretanto de sugerir que o termo GAS DE XISTO fosse substituido pelo termo GAS DE FOLHELHO (tradução geologicamente correta de SHALE GAS), já que o xisto é uma rocha metamórfica, que não faz parte da coluna estratigráfica das bacias sedimentares, e o gás na realidade se encontra na rocha sedimentar denominada folhelho. Sei que o termo XISTO BETUMINOSO tem sido historica e errôneamente usado para o FOLHELHO BETUMINOSO de Irati já faz muito tempo, tendo se consagrado em diversas publicações, mas acho importante, por motivos educativos, evitarmos que esse tipo de engano se perpetue.
    Finalizando, parabenizo-o não só por este artigo mas por tantos outros que tenho acompanhado no BLOG INFOPETRO e que tem me auxiliado a ter uma visão mais abrangente da indústria do petróleo e gás natural.
    Sds, Anibal
    Geólogo – Pesquisador Visitante (UFRN)

  2. As maiores vantagens proporcionadas pela revolução do shale gas decorrem do fato de serem explorados por indivíduos que têm a propriedade privada dos recursos e os exploram com meios próprios (como garimpeiros de Serra Pelada) alem dos incentivos dos próprios estados fundadores, ao contrário daqueles que estão submetidos à propriedade comum, garantidos por concessão de velhos dispositivos constitucionais que remontam ao código de águas, reminiscência arqueológica do fascismo de 1934 (tal como o “Carta del Lavoro”).
    – É estabelecida em bases locais – devido aos baixos custos do transporte em relação ao do petróleo e gás por oleodutos.
    – Aproveita a extensa rede de gasodutos subutilizada (500 mil Km nos EUA) dos antigos campos, o que favorece a geração distribuidada através termoelétricas combinadas a gas muito mais econômicas do que as antigas térmicas a vapor movida a carvão e óleo.
    – A ocorrência contempla indistintamente países grandes e pequenos, ricos ou pobres, que podem recorrer à P&D desenvolvida nos países ricos em regime de cooperação espontânea. Assim, podem escapar da ditadura do cartel dos grandes produtores de petróleo.
    – A água é a mesma que foi utilizada na recuperação de petróleo e gas encarcerado nos poços maduros e abandonados por baixa economicidade.
    Repetem a experiência dos estados fundadores dos EUA que inventaram o petróleo do Texas e Pensilvânia.
    – “Insignificante até 2005 nos EUA, hoje é responsável por 23% da produção americana de gás natural e nos próximos 20 anos deve alcançar 50% do total explorando as reservas tecnicamente recuperáveis de 93 bilhões de barris equivalentes do petróleo do país” (Adriano Pires).
    – Substitui o excedente de 500 milhões de toneladas no mundo todo. Este é o maior problema para toda a indústria de aço: o excesso de produção. Surpresas positivas nos Estados Unidos, como o shale gas [GÁS DE XISTO], que provoca um revival da engenharia mecânica.
    – Liberação da extensa rede de estradas de ferro, utilizada no transporte de carvão de siderúrgicas desativadas, para o transporte de grãos.

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