Grupo de Economia da Energia

Regulação ambiental: um entrave para a extração do gás de xisto?

In gás natural on 03/10/2011 at 00:14

Por Edmar de Almeida e Luiz Suárez

O shale gas ou gás de xisto é um tipo de gás natural não convencional que se encontra em formações sedimentares de baixa permeabilidade. Diferentemente do gás convencional, que migra das rochas onde foi formado para rochas reservatórios, este gás não convencional fica aprisionado, pois a baixa permeabilidade dificulta o seu escape. Esta característica inviabilizou por muito tempo a extração deste tipo de gás, visto que não havia tecnologias capazes de promover a retirada do mesmo de dentro das formações de xisto.

Com a perfuração horizontal dos poços e o advento do fraturamento hidráulico este paradigma foi superado. Este processo consiste em bombear, sob alta pressão, um composto de água e areia junto com outros produtos químicos no poço a fim de fraturar as formações de xisto através de fendas abertas inicialmente por um instrumento conhecido com “perforating gun”, permitindo a liberação do gás das formações sedimentares para o poço.

Esta técnica foi responsável por aumentar enormemente os recursos mundiais de gás natural recuperáveis. Nos EUA, por exemplo, dos 71 trilhões de metros cúbicos de reservas totais recuperáveis, 24 trilhões são referentes às reservas de gás de xisto, segundo a Agência internacional de energia (IEA). A mudança de cenário foi tal que os EUA passaram de importadores de GNL para potenciais exportadores de gás natural.

Com a constatação de que era possível extrair gás das formações de xisto, o gás natural que já figurava como um combustível de transição para fontes energéticas mais limpas teve esse papel reafirmado. Mas como nem tudo é um mar de rosas, esta nova oportunidade de obtenção de gás natural veio acompanhada de algumas questões sobre os impactos negativos que o fraturamento hidráulico pode causar sobre o meio ambiente.

As maiores preocupações são a grande quantidade de água utilizada em todo processo, e a possível contaminação do lençol freático pelo próprio gás e pelos produtos químicos que estão presentes na água utilizada na atividade. Por fim, há ainda a preocupação com o vazamento e a emissão de metano oriundo da exploração dos poços.

O documentário “Gasland”, do produtor Josh Fox, ilustra bem as questões levantadas pelos grupos ambientalistas que pressionam as autoridades contra as atividades de fraturamento hidráulico. No documentário o próprio Fox viaja por alguns estados americanos entrevistando proprietários que alugaram suas terras para companhias de extração de gás de xisto. Os relatos mais comuns desses proprietários são contaminações nas águas que utilizam para beber, principalmente por benzeno, ocorrência de combustão da água que sai das torneiras, além de problemas de saúde decorrentes dos impactos causados pelo fraturamento.

Mesmo com as inúmeras denúncias de impactos ambientais, as companhias de extração alegam que nunca houve um caso comprovado de contaminação da água pelas atividades de fraturamento hidráulico. Apesar da negação das empresas, alguns estados americanos e países europeus se mostram reticentes quanto ao desenvolvimento da extração de gás de xisto por conta das questões ambientais. A França, que detém juntamente com a Polônia a maior reserva de gás não convencional da Europa, depois de promover no inicio do ano a concessão de licenças para exploração de gás de xisto sem consulta pública, proibiu no final de junho o fraturamento hidráulico em todo o país. Segundo analistas esta decisão foi tomada por conta da posição contrária da opinião pública ao fraturamento, tendo em vista a proximidade das eleições para o parlamento e para a presidência. A Alemanha, através do Escritório Federal para o Meio Ambiente, também vem buscando impedir a exploração do gás de xisto, mas não através do banimento e sim de alterações na legislação que tornem as explorações não rentáveis.

Na contramão desses países, na América do sul, a Argentina, e na Europa, Polônia e Bulgária mostram-se muito favoráveis ao desenvolvimento do gás de xisto. Na Argentina, onde está localizada a terceira maior reserva mundial de gás de xisto, o desenvolvimento da extração vem sendo capitaneado pela YPF, empresa pertencente à espanhola Repsol. A YPF já começou a trabalhar na perfuração de um poço na província de Neuquen, o que fará da Argentina o primeiro país da América do Sul a extrair gás de xisto. Na Polônia, diversas licenças foram concedidas a empresas para perfurações de testes das áreas, essas licenças já abrangem quase toda região onde essa formação sedimentar está localizada. Assim como os poloneses, os búlgaros também estão entusiasmados com o desenvolvimento deste novo recurso, e uma das razões parece ser a mesma, a independência em relação ao gás russo.

Apesar das concessões à exploração em alguns países, em geral, a opinião pública européia, que se caracteriza por ter uma preocupação maior com o meio ambiente do que a população americana, se mostra contrária ao fraturamento hidráulico por conta da possível contaminação dos lençóis freáticos e pelo volume expressivo de água utilizado.

Abaixo podemos observar um gráfico com estimativas dos volumes de água utilizados nos campos exploratórios dos EUA.

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Volume utilizado de água por poço de gás de xisto (em galões)*

* 1 galão = 3,78 litros.

Est 1 e Est 2 se referem a duas diferentes estimativas obtidas na literatura industrial.

Fonte: Growing Shale Resources ( Black & Veatch Management Consulting)

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A água é utilizada não só no fraturamento mas também na perfuração, contudo como pode ser observado no gráfico o volume mais expressivo fica por conta do fraturamento.

Segundo uma estimativa da EPA, a agência americana de proteção do meio ambiente, o volume anual de água utilizado nos EUA para a extração de gás de xisto varia entre 265 a 530 bilhões de litros, o que daria para abastecer 40 a 80 cidades de 50 mil habitantes ou 1 a 2 cidades de 2,5 milhões de habitantes.

Mesmo esta questão sendo de grande relevância, ela não é a principal. O que mais preocupa os ambientalistas é a possível contaminação que o lençol freático dos EUA pode estar sofrendo por conta dos produtos químicos utilizados no fraturamento. A questão é polêmica e alimentada pelo fato de que até a pouco tempo não havia nenhuma lei que obrigasse as empresas a revelar os produtos químicos utilizados no fraturamento hidráulico.

A ausência de leis e regulamentações para extração de gás de xisto se deve a este ser um fenômeno novo, mas este cenário vem se modificando. No estado do Texas, por exemplo, onde se localiza uma das principais áreas de extração, foi sancionada uma lei que obriga as empresas a divulgarem o volume de água e os produtos químicos utilizados. Em West Virginia as novas exigências sobre a perfuração horizontal são maiores. As empresas devem desenvolver planos de controle de erosão; a construção das bases de perfuração deve ser certificada por um engenheiro registrado pelo estado; e as companhias que utilizarem mais que 795.000 litros de água por mês devem apresentar um plano de gestão, indicando entre outras coisas, a fonte da água utilizada e o tratamento da água residual. Já em New Jersey, foi aprovada no senado estadual uma medida drástica, a proibição permanente do fraturamento hidráulico, que foi vetada pelo Governador Chris Christie que optou pela proibição de apenas 1 ano para que a agência de proteção estadual do meio ambiente tenha tempo para estudar o caso mais cuidadosamente.

Na esfera federal, a EPA irá realizar um grande estudo, onde pretende gastar 12 milhões de dólares para avaliar os possíveis impactos do fraturamento hidráulico nas fontes de água potável. Essa pesquisa foi solicitada pelo Congresso Federal e deve ter resultados preliminares em 2012, sendo concluída apenas em 2014. O estudo pretende analisar todo o ciclo da água durante o processo do fraturamento hidráulico, incluindo a aquisição, a mistura com outros produtos químicos, a injeção no poço e por fim o tratamento e a dispersão da mesma. Os dados coletados irão permitir determinar a relação entre os impactos ambientais relatados e as atividades de fraturamento.

O estudo se dará em duas frentes, uma através do monitoramento de áreas onde já houve fraturamento, buscando relacionar os impactos relatados e os dados obtidos pela pesquisa na área, e a outra irá monitorar áreas onde ainda ocorrerá o fraturamento, permitindo o desenvolvimento de amostragens e a caracterização das áreas antes, durante e depois da extração da água, da perfuração dos poços e da injeção dos fluidos nos mesmos.

As áreas selecionadas para o estudo onde já houve fraturamento são:

  • Bakken Shale – Kildeer and Dunn Counties, North Dakota.
  • Barnett Shale – Wise and Denton Countries, Texas.
  • Marcellus Shale, Bradford and Susquehannah Counties, Pennsylvania.
  • Marcellus Shale, Washington County, Pennsylvania
  • Raton Basin, Las Animas County, Colorado

As áreas selecionadas aonde ainda ocorrerá a perfuração são:

  • Haynesville Shale – DeSoto Parish, Los Angeles.
  • Marcellus Shale – Washington Country, Pennsylvania.

O estudo permitirá determinar se o fraturamento hidráulico impacta as fontes de água potável e qual a extensão dos danos. Irá ajudar ainda a determinar práticas que deverão ser usadas para impedir ou mitigar esses impactos. Vale ressaltar que apesar de muitas regulações se darem no âmbito estadual, a EPA tem autoridade de impor regras ao fraturamento no plano nacional se baseando na proteção dos recursos hídricos. Um fato que aumenta ainda mais a importância desse estudo é que o resto do mundo observa a experiência americana para decidir sobre seus próprios rumos quanto ao desenvolvimento da extração de gás de xisto.

Segundo um trabalho feito para o estado do Alaska por uma consultoria americana, a Black and Veatch Consulting, a aquisição e o tratamento da água podem elevar significativamente o custo da extração. Este mesmo trabalho aponta que hoje o custo da água para a extração de gás de xisto de um poço com retorno esperado de 3,5 bilhões de pés cúbicos está por volta de $0.25/Mcf e que em um possível cenário com condições adversas ele pode se elevar para $1.38/Mcf. Este cenário desfavorável seria caracterizado por regulações mais severas, como limitação do volume de água e dos produtos químicos a serem utilizados no fraturamento hidráulico, além de maiores exigências sobre o tratamento da água que sobra de todo processo.

O que é certo é que hoje o gás de xisto é um fenômeno global. Além dos EUA, pioneiros na área, o processo para extração desse tipo de gás já foi iniciado na Austrália, na Europa, na África (África do Sul), na América do Sul (Argentina) e na Ásia. O último plano qüinqüenal da China (2011-2015) prevê grandes investimentos para esta atividade. E mesmo este fenômeno tendo se alastrado pelo mundo, o seu futuro passará pelos resultados do estudo que está sendo realizado pela EPA, pois este trará muitas respostas sobre os impactos ambientais do fraturamento hidráulico. Desta forma as futuras regulamentações sobre esta atividade não só nos EUA mas no mundo todo deverão ser influenciadas pelas conclusões da agência americana, que provavelmente constituirão o ponto final sobre o debate dos impactos da extração do gás xisto sobre o meio ambiente.

Referências bibliográficas:

Aol Energy EPA’s Draft Hydraulic Fracturing Study Plan, Junho de 2011.

Bill Text: TX House Bill 3328 – 82nd Legislature Regular Session.

Black and Veatch Consulting Growing Shale Resources: Understanding Implications for North American Natural Gas Prices, Novembro de 2010.

Bloomberg New Jersey Lawmakers Send Christie Ban on Hydraulic Fracturing, Junho de 2011.

Centre For Eastern Studies Will Germany restrict the possibilities for the development of shale gas fields? Agosto de 2011.

EPA Draft Plan to Study the Potential Impacts of Hydraulic Fracturing on Drinking Water Resources, Fevereiro de 2011.

European Energy Review France’s “green votes” kills shale gas – and targets nuclear power as well, Julho de 2011.

European Energy Review Shale gas: controversy and resources, Setembro de 2011.

European Energy Review Shale gas doesn’t make Poland the Norway yet, Junho de 2011.

European Energy Review Shale gas battle in Bulgaria – high stakes for Europe, Setembro 2011

E&P Examining Texas’ Hydraulic Fracturing, Agosto de 2011.

Institute for Energy Research China Plans to Exploit its Shale Gas Resources, Abril de 2011.

Latin American Herald Tribune YPF Invests in Unconventional Gas in Argentina, Setembro de 2011.

Natural Gas For Europe Will Germany Be Next to Shut the Door to Shale Gas.

Oil and Gas Journal NJ governor rejects permanent frac prohibition, Agosto de 2011.

Oil and Gas Journal West Virginia issues emergency horizontal drilling rule, Agosto de 2011.

Oil and Gas Law Brief West Virginia DEP Announces Regulations for Hydraulic Fracturing, Agosto de 2011.

Reuters Analysis: Australia shale gas heats up,but output still far off, Julho de 2011.

Seeking Alpha Shale Gas Exploration Goes Global With Drilling in Argentina, Fevereiro de 2001.

Well Servicing Magazine Hydraulic Fracturing Debate Rages On, Julho de 2011.

Leia outros textos de Edmar de Almeida no Blog Infopetro

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