Grupo de Economia da Energia

Exploração e produção de petróleo e gás em águas profundas: evolução e tendências II

In gás natural, petróleo on 24/10/2011 at 00:43

Por Thales Viegas

A nossa última postagem sobre E&P em águas profundas procurou situar esse segmento setorial no bojo da Indústria Mundial do Petróleo (IMP). A presente abordagem se propõe a analisar as atividades petrolíferas em grandes profundidades que são executadas no Brasil. Demonstra o alto índice de sucesso exploratório e a liderança do país no que tange às maiores descobertas da década. Discute o circulo virtuoso criado em torno das novas descobertas. Discorre sobre o potencial remanescente e o alto grau de atratividade que possui o Brasil em geral, e a província do pré-sal, em particular. Destaca que a magnitude dos reservatórios e a qualidade dos hidrocarbonetos encontrados são fortes atrativos para as petroleiras internacionais.

O pré-sal vem demonstrando possuir uma das maiores estruturas geradoras de petróleo do mundo. No Brasil, o pré-sal pressionou para cima o índice de sucesso na perfuração de poços. A tabela 1 mostra o sucesso excepcional das perfurações do pré-sal no pólo de Lula (Ex-Tupi), na Bacia de Santos. Fica evidente a superioridade da média de sucesso na província do pré-sal em relação à média mundial. Isso denota que o risco exploratório nesse ambiente tem sido baixo no pré-sal em relação às alternativas ao redor do mundo. Até o início dos anos 2000 a média nacional era compatível ao índice médio de sucesso no mundo, que tem variado em torno de 25%.

Tabela 1 – Índice de Sucesso Exploratório em 2010

Tupi/Lula

Pré-sal Brasil

Petrobras

Mundo

100%

87%

57%

25%


Fonte: ANP e Petrobras (Elaboração Própria)

O resultado disso se verifica nas novas descobertas, que por seu turno retroalimentam as campanhas exploratórias. O primeiro incentivo se fundamenta nos elevados níveis de preços do petróleo. O segundo se baseia no acesso à informação, a baixo custo, a cerca da alta probabilidade de se encontrar hidrocarbonetos na região. Diante dos altos riscos da atividade, os agentes se movem de modo estratégico, inclusive como “free riders”, ou seja, eles esperam outro agente realizar uma descoberta em certa área para, então, adquirir os direitos de explorar e colocar em marcha os seus investimentos e as suas campanhas exploratórias em áreas adjacentes. Essa é uma prática comum na indústria e, no Brasil, a Petrobras, tende a ser a primeira a se mover, uma vez que é a maior conhecedora da estrutura geológica da costa brasileira.

A partir desse mecanismo se alimenta uma espécie de círculo virtuoso, em que campanhas exploratórias bem sucedidas estimulam e facilitam outras novas descobertas em regiões próximas. O limite desse processo pode ser atingido basicamente por cinco elementos: i) esgotamento físico dos recursos; ii) conhecimento insuficiente das formações geológicas; iii) indisponibilidade de capital para investir; iv) inviabilidade tecnológica ou econômica dos projetos; v) barreiras regulatórias. Sem dúvidas, mais conhecimento, tecnologia e capital serão essenciais para a exploração eficiente da totalidade desses recursos potenciais. Todavia, até o momento nenhum dos fatores supracitados constituíram óbices intransponíveis, capazes de conter alto ritmo das campanhas de E&P no Brasil.

De acordo com dados da ANP, em seis anos o número de descobertas de petróleo e gás no Brasil dobrou. O total de indícios de hidrocarbonetos relatados pelas petroleiras foi de 75 em 2005 e atingiu os 149 em 2010. Ao longo da última década foram realizadas mais de 960 descobertas no Brasil. Embora os dados relativos aos indícios não expressem a existência de reservas comercializáveis, eles ilustram o nível de atividade do setor, o qual se mostrou bem aquecido no último quinquênio no país.

O caso do Brasil é peculiar, por isso chama tanta a atenção. Enquanto o país vem realizando importantes descobertas, a IMP, em sua totalidade, há alguns anos tem encontrado dificuldades para realizar grandes descobertas de hidrocarbonetos. Uma explicação fundamentada em aspectos históricos e geológicos associados à própria indústria aponta que os grandes campos são encontrados e explorados primeiro. Em geral eles despertam maior interesse das empresas diante da tendência de serem mais lucrativos.

No entanto, os avanços tecnológicos e exploração em direção a águas cada vez mais profundas permitiram uma espécie de revolução no conhecimento (a respeito de formações geológicas como a do pré-sal) e na expertise de operação nesses ambientes, o que teria aberto um novo mundo de oportunidades na indústria petrolífera. Ainda não está claro se é possível reproduzir o sucesso brasileiro em países africanos, por exemplo, onde a origem das bacias sedimentares seria semelhante à da costa brasileira. No Brasil, a expectativa da indústria é que ainda haja um significativo potencial de descobertas de reservatórios gigantes no país.

No campo tecnológico e operacional o Brasil desempenhou papel de vanguarda. Destaque para a competência da Petrobras nesse tema. Diante disso, na última década, o Brasil foi o país líder das grandes descobertas de hidrocarbonetos. Das dez maiores descobertas realizadas em águas profundas, sete foram logradas no Brasil. Dentre as trinta e cinco maiores descobertas feitas entre 2001 e 2011, todas contendo mais de um bilhão de barris, onze foram realizadas no Brasil. Considerando o volume total de petróleo e gás contido nesses campos, o país teria descoberto o equivalente a um terço do total de recursos contabilizados naquele ranking, o equivalente a 35 bilhões de barris de petróleo equivalente. Ademais, as petroleiras OGX e BG também possuem campos no país com volume que podem ultrapassar um bilhão de barris cada.

A tabela 2 apresenta algumas das grandes descobertas de hidrocarbonetos na última década. Destaque para a forte presença dos campos localizados no Brasil, onde foram encontradas as principais reservas de petróleo no período, a maioria delas em águas profundas.

Tabela 2 – Principais Descobertas de Hidrocarbonetos nos anos 2000

País

Campo

Descoberta

Operadora

Reservas Estimadas

Brasil

Libra

2010

Petrobras

3,7-15 bilhões de boe

Brasil

Lula

2006

Petrobras

5-8 bilhões de boe

Brasil

Júpter

2008

Petrobras

Até 8 bilhões de boe

Brasil

Franco

2010

Petrobras

4,5 bilhões de boe

Brasil

Iara

2008

Petrobras

3-4 bilhões de boe

Brasil

Jubarte

2001

Petrobras

1,77 bilhões de boe

Iran

Ferdowsi

2010

POGC

1,7 milhões de boe

Brasil

Mexilhão

2001

Petrobras

227 bi/m3 Gás e 200 mi boe

Iraq

Shaikan

2009

G.Keystone

1,5 milhões de boe

Gana

Jubilee

2007

Tullow

1,5 bilhões de boe

China

Nanpu

2007

PetroChina

1,18 milhões de boe

Brasil

Guará

2008

Petrobras

1,1-2 milhões de boe

Nigéria

B. Sothwest

2001

Shell

1 bilhão de boe

Fonte: Rigzone, ANP e Petrobras (Elaboração Própria)

Com esse histórico, que envolve altos índices de sucesso exploratório e grandes volumes de recursos encontrados, o Brasil se tornou o país mais atraente do mundo na atividade. De fato, os recursos já descobertos no pré-sal conformam apenas uma parte do potencial das bacias sedimentares brasileiras na camada pré-sal. Foram licitados somente 40 quilômetros dos 150 quilômetros quadrados conhecidos como o pré-sal da Bacia de Santos. Dentre as diversas estimativas já publicadas, uma muito utilizada pelos agentes que operam no Brasil aponta que a ordem de grandeza do total de recursos do pré-sal seria de 100 bilhões de barris de óleo equivalente.

Independente do volume exato, o relevante é que há muito tempo não se conseguia descobrir tamanhos volumes de óleo e de gás em uma fronteira exploratória nova. O potencial do polígono do pré-sal é muito grande. Os tamanhos dos reservatórios descobertos foram surpreendentes, ainda no período de inércia, o qual se caracteriza pela fase inicial na curva de aprendizagem, quando ainda não se conhece muito da nova fronteira. É sabido que muitos avanços técnicos já foram logrados, mas outros tantos são desejados, a fim de que esses recursos sejam bem aproveitados.

Atualmente, a bacia do atlântico brasileira é o maior laboratório de pesquisa e desenvolvimento (P&D) offshore do mundo. À medida que avança o conhecimento sobre essas formações e novas tecnologias são adicionadas tendem a aumentar, a saber: i) as descobertas, ii) a produtividade dos poços; iii) o fator de recuperação de petróleo; iv) a rentabilidade da produção e; v) a capacidade de mitigar riscos e os possíveis impactos ambientais.

As atividades exploratórias estão atingindo profundidades cada vez maiores. Elas vêm sendo feitas inclusive em bacias consideradas maduras. A título de exemplo, a Petrobras que vem realizando perfurações para encontrar novas reservas abaixo dos campos em declínio, da Bacia de Campos. A principal vantagem desse projeto é acelerar a produção ao aproveitar a infraestrutura já instalada no local. A empresa já logrou êxito nessa campanha. A maior descoberta no pré-sal da Bacia de Campos foi de 3,5 bilhões de barris recuperáveis, realizada por um consórcio operado pela Repsol (petroleira espanhola), envolvendo a Petrobras. Esses resultados ampliam ainda mais os horizontes de oportunidades exploratórias no país.

Assim, a atividade exploratória no Brasil vem se consolidando como a mais atrativa do mundo. Os altos índices de sucesso na perfuração em poços pioneiros e os elevados volumes de recursos encontrados fundamentam essa condição de referência. Essas condições permitem que o custo de encontrar o petróleo possa até ser mais baixo que descobertas em águas rasas em regiões onde o sucesso exploratório é menor. O êxito operacional dessas atividades em grandes profundidades contribui para que o ambiente regulatório se mantenha favorável. A estabilidade política e o crescimento econômico também despertam interesses e estimulam as inversões no país.

Nesse cenário, o Brasil reúne as condições para que os investimentos e as descobertas continuem acontecendo em ritmo acelerado, sejam elas realizadas no ambiente pós-sal, sujeitas ao contrato de concessão ou na esfera da província pré-sal (ou áreas estratégicas), sob o regime de partilha. As atividades em águas profundas não pararam de crescer. Elas deverão ser responsáveis por parcelas significativas da adição de produção na oferta mundial nos próximos anos.

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