Grupo de Economia da Energia

A maldição dos recursos naturais

In petróleo on 14/11/2011 at 00:15

Por Luciano Losekann(*) e Thiago Periard do Amaral(**)

1 – Introdução – A associação entre a riqueza mineral de um país e o baixo dinamismo de sua economia foi observada por vários autores, dando origem à tese da maldição dos recursos naturais. Muitas vezes, essa relaçao é verificada em países ricos em petróleo.  Autores internacionalmente reconhecidos, como Moisés Naím (2011) e Daniel Yergin (2011), citam a emergência e consolidação de alguns países em situações classificadas por ambos como Petro-Estados.

O Petro-Estado é a situação crítica onde a abundância de recursos petrolíferos é canalizada para o atendimento de demandas econômicas de grupos específicos dentro de um Estado, gerando assim um situação em que os benefícios trazidos pela renda do petróleo são gozados de forma privada em detrimento do desenvolvimento social da nação produtora.

No estudo aqui apresentado, é testada de forma simplificada a validade da hipótese de menor crescimento econômico de países com abudância de petróleo, utilizando dados recentes.

2 – A tese da maldição dos recursos naturais (MRN)

Desde os anos 50, a abundância em recursos naturais tem sido vista como insuficiente,  até como um entrave, para promover o desenvolvimento econômico. Autores cepalinos como Prebish (1950) e Singer (1950) já discorreram sobre a armadilha em que os grandes produtores de produtos primários se encontram ao se especializarem na produção destes bens básicos deixando de lado as oportunidades e os ganhos de escala e escopo presentes no processo industrializante.

Seguindo a linha de raciocínio aberta por Prebish, muitos autores debateram essa relação e, em meados da década de 90, foi lançado um estudo bastante influente que apresentou evidencias empíricas para esta tese. O estudo feito por Sachs e Werner (1995) buscou verificar o impacto das exportações de recursos naturais no crescimento econômico através  de uma análise cross-country que identificou a relação negativa entre a concentração da pauta de exportações e o crescimento econômico (figura 1). Os autores utilizaram como referência a situação das reservas em 1970 e o crescimento econômico observado nos vinte anos posteriores. 

Figura 1 – Relação inversa entre a concentração das exportações de recursos naturais e o crescimento do PIB.

Fonte: Sachs e Werner (2001)

A partir dessa constatação, vários estudos procuraram identificar as relações causais entre a abundância de recursos naturais e o desempenho econômico. Diversos caminhos teóricos foram abertos com a utilização de explicações diversas usando a argumentação histórica, a doença holandesa, comportamento rent-seeking entre diversos motivos que levariam ao desenvolvimento da MRN. Desta maneira se criou um arcabouço teórico que justifica em termos lógicos os resultados empíricos mencionados na figura 1.

3 – Quem são os países intensos em petróleo?

Existem diversas maneiras para se definir esta grandeza na industria do petróleo e este é um ponto central para a discussão como pode ser verificado em Lederman e Maloney (2008). Alguns autores defendem que a exportações seriam a medida ideal por representar uma produção além das próprias necessidades de dado país. Outros autores, como Sachs e Werner (1995), utilizam conceitos aproximados ao volumes de reservas.

Na tabela 1 abaixo pode-se verificar o volume das 20 maiores reservas provadas no ano de 2010. Este ranking é liderado pela Arábia Saudita com seus mais de 250 bilhões de barris de óleo recuperável. Um dado interessante é a concentração neste indicador. Mais de 90% do volume mundial de reservas se encontram em poder de menos de 10% da população mundial (dados de elaboração própria a partir de EIA (2011) e IMF (2011)).

Tabela 1 – Ranking maiores reservas provadas de petróleo em 2010.

Fonte: Elaboração própria a partir de dados de EIA (2011).

 Outro dado muito observado neste debate é a participação do petróleo nas exportações totais. No entanto, segundo alguns autores, a concentração elevada seria mais uma conseqüência da MRN do que sua causa. Ainda assim, esse é o indicador que foi utilizado originalmente por Sachs e Werner (1995) e que é amplamente utilizado para ilustrar a abundância de petróleo.

Na tabela 2, pode-se observar os valores obtidos nas exportações liquidas em 2009. Nestes dados destaca-se novamente o poder saudita como o maior exportador mundial. Ao contrário das reservas, onde ela é seguida mais de perto por outros países dominantemente da OPEP, neste caso destaca-se o relevante valor obtido pela Rússia que hoje já assume em algumas bases de dados o lugar de maior produtor mundial de petróleo.

Tabela 2 – Ranking maiores exportações liquidas de petróleo em 2009

Fonte: Elaboração própria a partir de dados de EIA (2011).

4 – Os testes corroboram ou não a tendência à MRN?

Para tentar esclarecer a validade da tese da MRN para os países produtores de petróleo, são realizados dois testes empíricos simplificados. O objetivo aqui é apresentar indícios básicos da validade da tese e por isso buscou-se repetir o experimento de Sachs e Werner (1995) com dados mais recentes, rodando dados dos dois rankings de intensidade expostos anteriormente, ou seja, reservas e exportações versus o crescimento do PIB.

Nos testes aqui realizados, utilizou-se os valores de PIB constante à dólares de 2005 e adotou-se a média na década (2000 – 2009) como medida da variação desta variável. No primeiro teste realizado pode-se verificar a relação entre as reservas provadas e o crescimento econômico. A tese da MRN resiste a este teste ao se confirmar a relação negativa entre as duas variáveis analisadas.

Gráfico 2 – Tendência entre reservas provadas em 2009 e média do crescimento do PIB real entre 2000 e 2009

Fonte: Elaboração própria a partir de dados de EIA (2011) e IMF (2011).

O segundo teste realizado adotou a mesma metodologia de verificar a tendência linear entre os valores das exportações de petróleo frente ao crescimento econômico médio entre os anos de 2000 e 2009. A MRN afirma que deve haver uma tendência inversa entre estas duas variáveis, ou seja, maiores exportações de petróleo devem levar a menores crescimentos médios do PIB. Este estudo também confirma a hipótese apresentando uma relação inversa entre o volume exportado pelos vinte maiores exportadores líquidos de petróleo e o crescimento do PIB destes mesmos 20 países. Mais uma vez se confirma a existência da relação negativa entre a intensidade em petróleo e o crescimento econômico.

Gráfico 3 – Regressão entre exportações liquidas de petróleo em 2009 e média do crescimento do PIB real entre 2000 e 2009

Fonte: Elaboração própria a partir de dados de EIA (2011) e IMF (2011).

5 – Considerações finais

Os resultados obtidos neste estudo indicam que existe um problema subjacente à intensidade em relação à produção e exportação de petróleo. Assim, a tendência sugerida por Sachs e Werner (1995) e que ficou conhecida como maldição dos recursos naturais é verificada quando são utilizados dados mais recentes e específicos para petróleo.

6 – Referências bibliográficas

Brunnschweiler (2008). Cursing the blessings? Natural resource abundance, institutions, and economic growth. World Development Vol. 36, No. 3, p. 399–419.

EIA (2011) – Energy Information Administration. Country data. Disponível online em: http://www.eia.gov/countries/data.cfm

IMF (2011) – International Monetary Fund. World Economic Outlook.Washington,DC.

Lederman e Maloney (2008). In search of the missing resource curse. World Bank. Policy Research Working Paper 4766.Washington,DC.

Naim (2011). País petroleiro ou petro-Estado? Folha de São Paulo. 07/10/2011.

Prebisch (1950) The economic development of Latin América and its principal problems. Economic bulletin forLatin América, 7 p. 1 – 12.

Sachs e Werner (1995) Natural resource abundance and economic growth. National Bureau of Economic Research,Cambridge.

Sachs e Werner (2001) The curse of natural resources. European Economic Review 45, p. 827 – 838.

Singer (1950) Comments to the terms of trade and economic development. Review of economics and statistics, 40. p. 84 -89.

Yergin (2011). The Quest. Penguin Press,New York.

(**) Doutorando em Economia pela Universidade Federal Fluminense

Leia outros textos de Luciano Losekann no Blog Infopetro

Leia outros textos de Thiago Periard no Blog Infopetro

Para ver/fazer comentários sobre esta postagem, clique no retângulo vermelho abaixo.

  1. Muito interessante e oportuno o estudo. Infelizmente, não foi possível abrir os gráficos e tabelas. Haveria a possibilidade de verificarem se não se trata de um problema na postagem.

    Abraços.
    Flavio Lyra

  2. Prezado Flávio,

    Obrigado pelo comentário. O problema já foi sanado e os gráficos e tabelas agora já estão abrindo.

  3. […] postagem anterior  discutimos a validade da tese de maldição dos recursos naturais (MRN) para países com […]

  4. […] (*) Maldição dos recursos naturais II: o erro de comparar alhos com bugalhos e A maldição dos recursos naturais […]

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