Grupo de Economia da Energia

O futuro dos biocombustiveis X: as duas corridas do açúcar

In biocombustíveis on 21/11/2011 at 00:15

Por José Vitor Bomtempo

Na corrida para desenvolver os novos processos e produtos que formarão a bioindústria do futuro, a busca por matérias primas adequadas, principalmente no caso dos processos baseados em biotecnologia, é um ponto estratégico. À medida que alguns projetos inovadores tentam ultrapassar o estágio piloto e fazer o scale up para o de demonstração e o comercial, a garantia do acesso à matéria prima torna-se crítica. Para muitos desses processos, e provavelmente para os mais inovadores, o açúcar é a matéria prima de eleição.

Instala-se em consequência uma verdadeira corrida do açúcar que tem ares de uma corrida do ouro para os bioprocessos. Aliás, evidenciaram-se nos últimos meses não apenas uma, mas duas corridas do açúcar: uma mais imediata e de natureza comercial/estratégica para assegurar o melhor açúcar que existe hoje – o da cana de açúcar brasileira – e a outra de natureza tecnológica para buscar o abundante açúcar que existe nas plantas em geral  (2/3 do material lignocelulósico é composto de açúcares: celulose e hemicelulose).

Sugar rush in Brazil – a corrida pelo açúcar brasileiro

Amyris, LS9, Solazyme, Butamax, Codexis, Iogen, Virent e Mascoma são algumas das mais conhecidas entre as novas empresas da bioindústria. Seus movimentos estratégicos são frequentemente destacados na imprensa especializada. Algumas já fizeram seus IPO e já captaram sócios importantes como BP, Du Pont, Total e Shell. Essas e muitas outras empresas foram pré selecionadas na 1ª etapa do PAISS, programa conjunto BNDES/FINEP, que pretende financiar a bioindústria do futuro.

O ponto interessante e original dessas empresas é o fato de virem para o Brasil estando ainda num estágio de desenvolvimento incial dos projetos, ainda na etapa piloto.  Nosso país é para elas, antes de tudo, a rota do precioso açúcar, indispensável para o desenvolvimento em escala comercial dos projetos. A base de produção de etanol em escala é outra atração. Em muitos casos, os novos processos fermentativos podem ser adaptados às usinas convencionais de etanol, diminuindo o custo de investimento para a produção dos novos biocombustíveis e bioprodutos. É o que a Amyris, por exemplo, está procurando fazer nos seus modelos de produção em desenvolvimento. Não se deve esquecer ainda que o acesso ao bagaço também pode ter valor estratégico, principalmente se considerarmos a outra corrida do açúcar de que falaremos mais à frente.

Os investimentos estrangeiros em biocombustíveis no Brasil são estimados em US$ 20 bilhões e se dirigem também à produção de biocombustíveis convencionais. Mas o que queremos destacar na corrida do açúcar é a vinda dos projetos ainda em desenvolvimento. Esse é um fenômeno original, sem precedentes em outras ondas tecnológicas importantes.  É sem dúvida um tema interessante de pesquisa em economia e gestão da inovação. Mas também um fenômeno que as políticas públicas precisam entender e incorporar com criatividade em seus objetivos.

A vinda dessas empresas de base tecnológica, para jogar no Brasil uma parte importante do campeonato mundial da bioindústria, poderia alavancar a capacitação local? Que formatos de entrada do país estão sendo utilizados? Que formas de inserção têm sido adotadas? Que relações estabelecem com o sistema brasileiro de inovação? Faz sentido estabelecer alguma forma de conteúdo local para a bioindústria? Por que não incentivar a participação no capital ou mesmo a aquisição do controle dessas empresas? Será que é mais importante para o país fazer biodiesel de mamona do que criar uma base de produção avançada?

Pode-se perguntar se não haveria aí uma oportunidade nova e original: adquirir e internalizar o conhecimento que foi desenvolvido nas universidades americanas e transformado em empresas pelo espírito empreendedor do capital de risco com o apoio dos programas do DOE e do USDA? Essas são perguntas iniciais que a corrida do açúcar pode suscitar e colocar em discussão. Um tema a merecer mais debate e sobretudo novas idéias de políticas e estratégias.

Sugar rush – a outra corrida do açúcar

Mas a corrida do açúcar é mais ampla do que a vinda das empresas americanas em busca da cana de açúcar brasileira. Na verdade, a maturidade da biomassa vegetal como matéria prima para a bioindústria somente ocorrerá quando os açúcares, que são quase 2/3 dos materiais lignocelulósicos, forem “libertados” e ficarem disponíveis para os processos de conversão a custo atrativo. A solução desse gargalo para o futuro dos bioprocessos é central nos esforços tecnológicos de empresas e centros de pesquisa como o NREL. Como é da natureza do processo de inovação tecnológica, a definição clara de um problema a resolver orienta e dá foco aos esforços de pesquisa. Diversas propostas têm surgido e algumas empresas de base tecnológica têm se dedicado a esse problema.

Um anúncio em grande alarde chamou atenção recentemente para uma nova e possivelmente revolucionária solução para a produção de açúcares a baixo custo: o processo baseado em tratamento do material lignocelulósico por vapor d’água em estado supercrítico, anunciado pela empresa Renmatix. O alarde e o peso que a tecnologia poderia ter pode ser dado pelo registro do New Yor Times, em 27 de setembro, com o título: A way to make fuel out of wood? Add water

Trata-se de um processo que utiliza praticamente apenas vapor d’água para liberar os açúcares e promete um custo da ordem do alvo de five cents per pound. O anúncio provocou alguma polêmica e ceticismos de alguns analistas. Renmatix tem como principal investidor o fundo de capital de risco  Kleiner Perkins.  A empresa tem em seu conselho de administração a participação do CEO da Amyris, John Melo.  Mas esse é apenas um dos projetos e alternativas que têm merecido a atenção dos analistas nos últimos meses.

Algumas empresas já conhecidas por projetos voltados para a produção de biocombustíveis têm se voltado para o problema da corrida do açúcar. É o caso por exemplo da KL Energy (parceira da Petrobras em etanol celulósico) e Codexis (que têm participação da Raízen). Ao lado dessas, novas empresas, até então ausentes do cenário dos projetos inovadores, têm se incorporado à corrida. Além da Renmatix, acima mencionada, citam-se Proterro, Comet Biorrefining e HCL Cleantech. Uma descrição das linhas de atuação de cada uma delas pode ser encontrada em artigo de Jim Lane de 15 de setembro.

Alguns pontos devem ser destacados nas estratégias de inovação dessas empresas. Em primeiro lugar, observa-se a diversidade de soluções tecnológicas para o problema. Existem pelo menos três caminhos diferentes em desenvolvimento. Repete-se aqui a clássica situação de busca de uma solução superior ou, pelo menos satisfatória, que possa ser adotada pela indústria e proporcionar o desenvolvimento dos bioprocessos. A meta é clara: five cents per pound. O segundo ponto é o envolvimento direto das principais empresas interessadas nos açúcares. Renmatix tem relações diretas com Amyris. HCL tem ligações com LS9 e Virent. Proterro tem a presença da Solazyme no seu conselho cientifico. Isso sem esquecer que Codexis é ligada à Raízen.

Se voltarmos ao começo do texto, veremos que são justamente essas empresas as participantes mais importantes da corrida ao açúcar brasileiro. Fecha-se o ciclo. O problema central é a disponibilidade de açúcar barato. A fonte hoje é a cana de açúcar no Brasil. A fonte no futuro pode se ampliar para outras geografias já que a capacidade de liberar a baixo custo os açúcares dos materiais lignocelulósicos amplia largamente a oferta de biomassa para a indústria. Isso não quer dizer que a cana, com o bagaço e a palha incluídos, venha a perder sua competitividade. Já foi sugerido que, cultivada como fonte de biomassa e não diretamente de açúcar, a cana poderia continuar a ter um papel central como matéria prima do futuro. Mas fica claro que existe uma janela de oportunidade em relação às corridas do açúcar que o Brasil não deveria perder de vista.

As corridas do açúcar sugerem duas agendas para as politicas de P&D&I. A primeira é voltada para a forma de internalizar o conhecimento das empresas de base tecnológica que aportam no país em busca de matéria prima já existente e de condições para desenvolvimento de seus produtos e processos inovadores. A segunda agenda é a do futuro, a dos esforços tecnológicos para desenvolver os processos de tratamento da biomassa para liberação dos açúcares. São duas agendas relacionadas e centradas nas corridas do açúcar.

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O futuro dos biocombustíveis

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  4. […] processos ou tecnologias de conversão, produtos e estratégias/modelos de negócio. Na postagem X tínhamos discutido um importante ponto das matérias-primas: a busca de açúcares ou substratos […]

  5. […] ponto de partida da indústria do futuro. Já discutimos a importância estratégica do açúcar em postagem anterior. A produção do etanol 2G exige a conversão dos resíduos em açúcares fermentáveis em escala […]

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