Grupo de Economia da Energia

Observatório de geopolítica da energia I: incertezas críticas globais em tempos turbulentos

In energia on 12/12/2011 at 00:15

Por Renato Queiroz

Os formuladores de política energética e executivos da indústria de energia estão, certamente, nesse  momento debruçados nas análises voltadas a economia da energia  e  a geopolítica energética na busca de um entendimeno do atual cenário mundial que os levem a implantar ações que minimizem os riscos  de abastecimeno energético em seus  países  e  em suas empresas.

Afinal  o mundo atual que convoca revoluções via facebook ,twitter,  pega de surpresa os estrategistas das corporações e de governos que avaliam o complexo mundo da indústria da energia. Métodos tradicionais  e modelos clássicos racionais para prever desempenhos econômicos, preços de combustíveis, inserção de novas tecnologias podem trazer,nesse novo contexto,uma dose de inocência. A sofisticação é uma exigência para o entendimento do imenso leque de informações que as “ redes” nos proporcionam. A geopolítica  da energia que trata das relações entre energia ,economia e políticas dos países pode aumentar o feeling  dos profissionais e reduzir os riscos de suas decisões.

De fato inúmeros acontecimentos que vem ocorrendo nos últimos tempos constituem-se de fatores importantes que condicionam o futuro da economia da energia dos países. O aumento dos riscos macroeconômicos em face da vulnerabilidade econômica e financeira das economias desenvolvidas, o acidente nuclear na planta de Fukushima no Japão, a chamada “Primavera Árabe” que brotou na Tunísia  e  se esparramou até o Egito, Líbia e Síria , as recentes sanções da UE contra o Irã com possíveis reflexos no comércio de petróleo iraniano para países europeus entre outros são fatos de grande relevância.

Esses fatores permitem que sejam identificadas e mapeadas incertezas críticas em relação ao futuro que o planejador deve prospectar visando estruturar suas ações. São elas: a geoeconomia mundial, o comportamento da demanda global de energia, a reação do mercado global de petróleo, as perspectivas da indústria nuclear, o ritmo de desenvolvimento das tecnologias renováveis, as ações para a redução global das emissões de carbono.

Tal contexto  exige análises acuradas na hora de traçar os rumos das políticas de governo e dos negócios no mundo da energia. As nações têm sido forçadas a monitorarem seus cenários energéticos com menor espaço de tempo, mesmo aqueles que prospectam  horizontes mais longos, pois as  decisões tomadas no presente infuenciarão o atendimento das necessidades futuras de energia.

O entendimento das variáveis que influenciam a indústria futura da energia leva o  foco  aos  acontecimentos que ocorrem em 2 grandes blocos de países: Estados Unidos/ Europa e  economias  emergentes,  Brasil, Rússia, Índia e China, que embora não constituem um bloco econômico coeso e não fazem parte da governança global têm um  PIB total, superior a 15% do total mundial.  Não é à toa que o economista inglês, Jim O’Neill, da Goldman Sachs, criador  do conceito dos BRIC´s considera que esses países fazem  parte dos “tijolos” da fundação da economia moderna. Vale então discorrer sobre as incertezas selecionadas acima.

Iniciando pela geoeconomia mundial, ponto de partida nas elaborações de cenários energéticos, o que chama a atenção é a situação dos Estados Unidos e da Europa que estão há algum tempo  sob uma forte tempestade  em seus mercados financeiros. Suas economias estão sendo empurradas para a zona da recessão e isso trará reflexos para todas as economias do planeta.  Há uma ampla divulgação da mídia sobre o tema e não vale aqui estendê-lo. Embora os temores sobre o endividamento dos Estados Unidos continuem, há sinais de que os americanos, no momento, sofrem menos consequências nessa tempestade,  e  sinalizam até em desenvolver esforços para fortalecer a moeda europeia, conforme as recentes declarações do secretário do Tesouro americano, Timothy Geithner.  No entanto, na Europa, a situação é crítica e os mercados aguardam  decisões do Banco Central Europeu (BCE) sobre concessões de crédito a governos do bloco que podem amenizar o cenário de uma enchente que afogue as economias da  zona do euro.

O Conselho Europeu reuniu-se em Bruxelas nos dias 8 e 9 de dezembro e a  tônica desse importante encontro seria  imprimir alterações aos Tratados da União Europeia, reclamadas pela Alemanha e França. Até a conclusão do presente artigo a reunião de cúpula da UE estava em fase final. Uma decisão, porém, foi já anunciada. Vinte e seis países devem fazer parte de um novo acordo inter-governamental, uma espécie de pacto fiscal,  a ser assinado até o primeiro trimestre de 2012 para reforçar o euro. A meta é dar maior poder de regulação às instituições europeias. O Reino Unido, no entanto, foi o único Estado-membro que se excluiu desse acordo, ao passo que alguns outros países, como Hungria, Suécia e República Checa, definiram remeter a decisão para os parlamentos nacionais.  Há um sentimento dos mercados de que foi um avanço significativo a aprovação desse acordo. Mas a posição inglesa traz uma incerteza:  o que ocorreu foi uma vitória de Pirro? A possibilidade da perda do Reino Unido nesse acordo pode trazer feridas que incitem o  fim da União Europeia. Outra decisão em curso seria um aporte ao Fundo Monetário Internacional (FMI) em mais de €200 mil milhões. Os Estados Unidos, por sua vez, não sinalizaram  aportar mais dólares aos cofres do FMI.

No outro bloco  a China é o  ator de peso entre os emergentes, tendo 50 %  do PIB conjunto dos BRICs. Ultrapassou, em 2011, o Japão, pela pujança de seu PIB. Alguns economistas, menos entusiasmados pelo sucesso do conjunto dos BRICS avaliam que a dependência de comércio que a China impôs coloca os demais países desse bloco como  países periféricos da economia chinesa. Boa reflexão para cenários. Contudo é fato que esse bloco, mesmo assimétrico, vive sob um ambiente econômico menos turbulento ou com uma melhor coordenação do campo econômico.

Focando agora o mercado energético global observa-se que  a demanda energética global continua em curva ascendente, graças, sobretudo,  às  necessidades energéticas das populações emergentes das economias da  Ásia e  América Latina. Mas até quando a curva vai continuar com essa tendência? A edição de 2011 do “World Energy Outlook”  da  Agência Internacional  de Energia   (IEA), recém publicado, prevê  que ao longo dos próximos 25 anos, 90 % por cento do crescimento global previsto da demanda energética virá das atuais economias em desenvolvimento. Mas os reflexos e  desdobramentos da crise americana e europeia nas economias dos emergentes são fatores  preponderantes para o ritmo do consumo de energia.

Sobre o mercado global de petróleo a oferta foi afetada com a crise árabe e o preço médio do barril deverá ficar em 2011 acima dos US$ 100, o que não ocorria há anos. Tal fato trará  reflexos nos orçamentos governamentais na maioria dos países. Segundo declarações recentes do presidente da Petrobrás, José Sergio Gabrielli, “há uma grande transformação na geopolítica e no mercado de logística do petróleo. A demanda por petróleo está migrando dos países da Europa, Estados Unidos e Japão para os países emergentes, como Brasil, China, Rússia, África do Sul”. Um olhar interessante é o  mercado americano de petróleo e gás com o advento do óleo não convencional. O presidente Obama declarou que busca em seu governo reduzir a dependência energética do petróleo importado. Essa história dos americanos é antiga. Nixon nos idos dos anos 70 já declarava essa mesma intenção de ter  independência energética; mas entre 1973 e 2005, as importações de petróleo subiram de 35% a 60% do consumo total. Mas com a “ revolução atual do petróleo não convencional” que vive os EUA essa meta que Obama  deseja pode finalmente ser alcançada. Essa realidade vai alterando o cenário energético mundial.

Sobre as perspectivas da indústria nuclear no mundo, após Fukushima,  com exclusão do Japão, os demais principais países que representam cerca de 60% de projetos em andamento, Rússia, China, e Coréia não alteraram seus planos, contrariamente à Alemanha, Itália, Suíça e certamente o Japão. As opções às centrais nucleares serão certamente as plantas a gás natural e a  carvão.

Avaliando agora o ritmo de desenvolvimento das tecnologias renováveis dentro desse contexto da crise da dívida soberana européia, já há repercussões com cortes de subsídios. A Alemanha e a Itália estão reduzindo as chamadas tarifas feed-in na busca de maior competitividade, por exemplo, no setor de energia solar. O fabricante de turbinas eólicas Nordex, cuja matriz é na Alemanha, está direcionando as  vendas para o mercado americano, através de sua fábrica nos EUA, após a redução de seus negócios na Europa Há sérias dificuldades na obtenção de financiamento. Os BRICs poderão ser o mercado mais atrativo para a indústria  das renováveis principalmente eólica e solar.  Um fato nessa direção é a declaração do vice-presidente da província chinesa da Mongólia, Bu Xiaolin de que Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul vão incentivar o desenvolvimento da energia eólica e solar  no Fórum de Cooperação e Amizade dos Governos Locais, que ocorreu nesse ano de 2011 na ilha chinesa de Hainan.

Por fim, a última das incertezas listadas acima são as ações legais, em nível global, para  a redução das emissões de carbono. É oportuno observar o que ocorreu durante as discussões em Durban, na África do Sul,  na 17ª Conferência das Partes (Cop-17), evento da ONU que se propõs a discutir  as questões relativas ao meio-ambiente. Essa conferência do clima, que reuniu 194 países em 12 dias, tinha como  grande meta o  estabelecimento de  um acordo legal para a redução das  emissões de gases do efeito estufa. Nesse contexto um dos principais assuntos da Cop-17 foi o futuro do Protocolo de Kyoto assinado em 1997 e em vigor desde 2005 que, sob força legal, estabeleceu compromissos para 37 países desenvolvidos, com a exceção dos Estados Unidos, que não o ratificou.

Acontece que os 3 maiores países emissores são a China, EUA e Índia  que desde o início  da Cop-17 criaram dificuldades para o estabelecimento de um novo acordo.  Esses países são responsáveis por cerca da metade das emissões de CO2. A Europa, contudo, desenvolveu esforços para manter Kioto vivo e buscava estabelecer um novo pacto. Uma parte do  Protocolo de Kyoto expira em 2012, mas as divergências entre países desenvolvidos e emergentes a respeito das responsabilidades de cada país trazem sempre dificuldades para o esperado consenso sobre o tema. Outro fato que evidencia a dificuldade do consenso é que os países em desenvolvimento querem recursos para reduzirem as emissões de gases de efeito estufa.  E, sob um contexto de tempestade financeira mundial,  a Europa chegou à cimeira do clima  reticente quanto à estruturação do chamado  Fundo Verde Climático que seria operado já em 2013.  O fundo pretende arrecadar US$ 100 bilhões  até 2020, para ajudar países em desenvolvimento a mitigar os efeitos do aquecimento global – como aumento do nível do mar e as enchentes – e a desenvolver tecnologias para lidar com elas. O fundo seria financiado com recursos públicos e contribuições privadas adicionais.

Um fato real é que  os EUA e emergentes não intencionam desacelerar suas indústrias voltadas aos combustíveis fósseis, sobretudo com o advento da revolução do petróleo e gás  não convencionais no hemisfério norte e o pré-sal no Brasil.

Acrescenta-se que a legislação ambiental americana acarreta disputas acirradas no Congresso dos EUA. Assim, o representante americano não tem “cacife” para ratificar, nessas conferências, determinadas metas, propostas e programas que representem ações para mitigar as emissões das nações ricas.

Em adição o Japão, Canadá e a Rússia também não concordam na renovação de Kyoto pois reclamam das posições da China e dos EUA. O fato é que  já há afirmações de especialistas afirmando que as emissões globais de CO2 estão em linha com as projeções mais altas do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC) desde 2002 que  apontam para aquecimento global muito acima dos 2ºC até 2100. Mas quando o atual artigo estava sendo concluído, informações alvissareiras surgiam de Durban. Houve acordo para um novo Protocolo de Kyoto, vigorando no início de 2013, mas com a participação de menos países. Saem do jogo  Rússia, Japão e Canadá. O Fundo Verde do Clima  teve sinalizações positivas de fundos de países europeus como Alemanha, Dinamarca e Grã-Bretanha. Ainda foi aprovada na Cop-17 a proposta de redução das emissões do desmatamento e degradação, REDD, que permitirá que países possam captar verbas pelas emissões evitadas graças à preservação de florestas.

Enfim um mergulho na geopolítica energética  que envolve os principais atores e temas mundiais trará outras visões sobre o mundo da energia necessárias à realização de cenários energéticos. Em outras postagens essas observações vão continuar pois há novos movimentos surgindo que podem afertar o mundo da energia como, quem sabe, uma “Primavera Russa”.

O fato é que o mundo vive sob um clima de insegurança com a fragilidade econômica dos países desenvolvidos. Conjugando esse ambiente  com a necessidade crescente de consumir energia, os decisores que transitam no setor da oferta de energia estão sofrendo fortes pressões para definir suas ações.

O entendimento da geopolítica da energia não é mais um assunto de acadêmicos e de teóricos da burocracia dos governos como alguns ainda avaliam. Isso já está na agenda de cada CEO das empresas energéticas, ajudando-os a tomarem decisões de investimentos com maior ou menor conservadorismo.

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