Grupo de Economia da Energia

Exploração e produção de petróleo e gás em águas profundas: evolução e tendências III

In gás natural, petróleo on 02/01/2012 at 00:15

Por Thales Viegas

As duas primeiras postagens a respeito de E&P em águas profundas (*) caracterizaram essa atividade nos âmbitos global e nacional. Aspectos como a importância e a atratividade desse negócio podem ser apontadas como fatores que contribuíram para o aumento dos investimentos, das descobertas e da produção no âmbito offshore em grandes profundidades.

No presente texto será discutido o processo de aprendizagem tecnológico e os investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) realizados pelas empresas de petróleo. O objetivo é motivar a reflexão a cerca do surgimento e da consolidação de novas tecnologias. É também demonstrar que o aumento dos esforços inovativos das petroleiras apontam para uma busca crescente por capacitação tecnológica, como forma de compensar os custos crescentes.

No entanto, a maturidade de um conjunto de tecnologias e o seu domínio pelos agentes é um processo que requer prática e tempo. Nesse contexto, cabe analisar alguns dos limites e das oportunidades tecnológicas que surgiram ao longo do desenvolvimento das competências para operação em águas profundas, com destaque para o caso do pré-sal.

Sem dúvida o surgimento da fronteira do pré-sal incluiu obstáculos adicionais devido à extensão dos poços perfurados. Os custos são maiores quanto mais profundos são os poços. Eles aumentam mais ainda quando se aplica a perfuração horizontal, por exemplo. Por um lado essa técnica tende a facilitar o acesso apropriado à rocha reservatório e contribuir para aumentar o fator de recuperação do petróleo contido na jazida. Por outro lado, a perfuração horizontal requer uma maior quantidade de metros perfurados em relação à perfuração vertical, sendo, portanto, mais onerosa. Cabe lembrar que a perfuração é um dos elementos mais caros da estrutura de custos de um projeto de exploração e produção de petróleo.

Ademais, a perfuração na camada de sal é complexa devido à fluidez e à instabilidade dessa camada geológica, que são somadas às condições ambientais demasiadamente hostis de temperatura e pressão. Por ser tratar de novos desafios a exploração na camada pré-sal em águas ultraprofundas é considerada uma fronteira tecnológica emergente e em evolução. A indústria aponta que ainda existem estágios evolutivos a serem percorridos para que os conhecimentos estejam consolidados e as tecnologias possam ser consideradas maduras.

No entanto, essa não é uma particularidade da indústria mundial do petróleo (IMP). O processo de evolução técnico evolve uma curva de aprendizado que, por mais acelerada que seja, pode levar muito tempo, anos ou até mesmo décadas em alguns casos. Exemplo disso é que há décadas algumas empresas de petróleo já estudam as formações geológicas correlatas às camadas de sal e aquela que está abaixo do sal, ou pré-sal (sub-salt). Publicações científicas de mais de meio século atrás investigavam essas formações que já despertavam interesse.

Nos anos 1980 alguns poços pré-sal foram perfurados no Golfo do México, embora parte deles tenha chegado até essa camada de modo não intencional. Todavia, as tecnologias e os dados disponíveis levavam a conclusão de que sua exploração não era viável naquele contexto, ainda que existisse um potencial latente. Desde então até os dias atuais os sistemas de sísmica, informação e perfuração melhoraram significativamente e alguns permitem um estudo mais preciso das formações do pré-sal.

Atualmente, a Petrobras assegura que possui os principais conhecimentos críticos para empreender a exploração no pré-sal. Resta saber alguns itens relevantes no âmbito da extração, tais como: i) de que forma as acumulações de petróleo reagirão quando o pico de produção for atingido; ii) qual a mistura de gás e água apropriada para injetar; e iii) qual o volume de reinjeção adequado para se atingir o nível ótimo de produção. No entanto, essas são questões comuns a todos novos campos que entram em produção. Adicionalmente, no caso das descobertas já realizadas ainda é preciso identificar qual a melhor alternativa para transportar e monetizar os hidrocarbonetos que serão produzidos.

O que ocorreu no Brasil foi uma aceleração do aprendizado a cerca dessas formações a partir do conjunto de descobertas realizadas. Tudo indica que o acúmulo de conhecimento operacional específico também tem sido decisivo. Vem viabilizando o contínuo avanço no desenvolvimento de novos materiais, insumos, equipamentos e procedimentos requeridos. Está permitindo a superação dos desafios enfrentados na exploração em águas profundas, ultraprofundas e, em particular, na camada pré-sal.

Existem diversos métodos de aprendizagem. O mecanismo de aprender fazendo (termo cunhado originalmente em inglês learning by doing) provavelmente conforma um dos mais importantes meios de se lograr avanços tecnológicos significativos. Nessas condições, logicamente, é necessário que as empresas operem utilizando o arcabouço de informações que já possuem, incrementando-o até que se atinja o patamar de domínio pleno da tecnologia.

Vale salientar que o amadurecimento de um pacote tecnológico tampouco garante o sucesso em todas as operações, uma vez que o risco é inerente a essa atividade. Ademais, outras incertezas, como, por exemplo, de origem climática ou mesmo advinda de imperícia humana podem deturpar a trajetória esperada de algum procedimento em determinado momento. Sem dúvida, o risco de surpresas e acidentes nunca será nulo. O conhecimento e a tecnologia adequados servem para reduzir a sua probabilidade de ocorrência.

Outras formas de aprendizagem também são possíveis. Três merecem destaque aqui, a saber: i) aprender pesquisando (do inglês learning by researching); ii) aprender interagindo (learning by interacting); iii) aprender relacionando (learning by relating). Aparentemente, as duas primeiras modalidades são bastante utilizadas pela IMP. Tudo indica que a terceira modalidade também vem se difundindo.

A primeira delas pode ser diretamente avaliada a partir dos indicadores de investimentos em P&D (em inglês R&D). Os dados da tabela 1 expressam o elevado crescimento dos gastos em pesquisa realizados pelo setor de produtores de petróleo e gás. Isso ocorre à medida que seus processos e equipamentos envolvem conteúdos tecnológicos cada vez mais complexos de modo a requerer rápidos e profundos avanços. Esse fenômeno pode ser percebido particularmente no segmento offshore para o qual parte significativa dos investimentos em tecnologia teria sido direcionada nas últimas décadas.

Tabela 1 – Ranking de crescimento dos investimentos em P&D, em percentual,  por setor, das empresas dos Estados Unidos, Europa e Japão em 2011.

*Os bancos europeus já relatam P&D conforme o Padrão Internacional de Relatórios     Financeiros (IFRS), mas os americanos e japoneses ainda implantam esse padrão.

 Fonte: EU Industrial R&D Investment Scoreboard 2011. European Commission, JRC/DG RTD

A segunda maneira de avançar na curva de aprendizado está associada à cooperação tecnológica. Uma pergunta frequentemente levantada é qual a importância da associação, formação de consórcios e cooperação entre as petroleiras? Para quem não estão familiarizados com a lógica das estratégias empresarias das petroleiras, o processo de associação e formação de consórcios parece contraditório. Isso porque as empresas envolvidas são concorrentes em última instância. Entretanto, além das razões puramente econômicas, de aporte do capital necessário ao investimento e da diversificação de risco em diferentes projetos, existem outras motivações tecnológicas relacionadas a aspectos cognitivos. Vejamos.

A cooperação permite que o aprendizado ocorrido no bojo de uma empresa específica seja compartilhado entre outras. Isso amplia o escopo potencial dos avanços tecnológicos e permite mitigar os custos da pesquisa em torno do tema compartilhado. Tende a aproveitar de modo mais amplo o conhecimento tácito dos trabalhadores das distintas empresas. Na prática, as empresas têm mais incentivos a cooperar em inovações de produto que serão difundidas pela indústria. Geralmente, trata-se de inovações incrementais às tecnologias dos equipamentos já existentes.

Assim, as empresas podem criar soluções conjuntas para problemas comuns. Um exemplo disso ocorreu depois do derramamento de petróleo no Golfo do México quando um pool de empresas investiu no desenvolvimento de um dispositivo para conter grandes vazamentos.

De fato, a IMP vem investindo crescentemente em centros de pesquisa e estreitando as relações com outras instituições de pesquisa. A Petrobras, em particular, emprega mais de 1600 pessoas em seu centro de pesquisa e mantém relação com diversas universidades. A tabela 2 corrobora esses fatos e mostra que a Petrobras está bem posicionada dentre as petroleiras que mais investem em P&D, especialmente no quesito percentual da receita investido em P&D. Grande parte dessas inversões está associada aos novos desafios enfrentados no âmbito das águas profundas e do pré-sal.

Tabela 2 – Ranking das petroleiras conforme investimento em P&D,  em milhões de euros

Fonte: EU Industrial R&D Investment Scoreboard 2011. European Commission, JRC/DG RTD

Como cerca de um quarto da produção mundial em águas profundas ocorre no Brasil e as recentes descobertas mais relevantes também foram realizadas no país, outras empresas também estão constituindo grandes centros de pesquisa no país. Ainda que o setor petroleiro seja classificado como sendo de baixa intensidade tecnológica por investir menos de 1% de suas receitas em P&D, o segmento de águas profundas vem se destacando na medida em que se envolve em pesquisas de maior complexidade e densidade tecnológica.

No entanto, maiores esforços inovativos não garantem a superação de todos os obstáculos. Aumentam a probabilidade de êxito nessa direção. As incertezas quanto às possibilidades, custos e acidentes futuros também não são passíveis de serem eliminadas completamente. Independente da empresa ou do corpo técnico que esteja envolvido na atividade.

Nessas condições cabe às empresas seguirem investindo nas diferentes formas de capacitação para aumentar a eficiência em todas as suas frentes de atuação. Isso tende a se refletir nos seguintes aspectos: i) aumento das oportunidades exploratórias; ii) elevação do fator de recuperação de petróleo; iii) melhoria da capacidade de produzir e transportar os hidrocarbonetos em condições adversas; iv) redução de custos sem aumentar riscos de acidentes; v) aumentar a confiabilidade e segurança dos procedimentos e operações.

Em resumo, os processos de aprendizagem e desenvolvimento tecnológicos tendem a resultar de um conjunto variado de esforço envolvendo diferentes agentes, incluindo a esfera pública. É desejável que esses processos sejam continuamente incentivados por governos e órgãos reguladores potencializando seus efeitos e transbordamento por toda a indústria. Esse parece ser o melhor caminho para que os recursos de hidrocarbonetos situados no Brasil sejam bem aproveitados. Assim, os benefícios dessa produção poderão ser muito maiores que os custos nela envolvidos.

 (*)Postagens relacionadas:

Exploração e produção de petróleo e gás em águas profundas: evolução e tendências II

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