Grupo de Economia da Energia

Maldição dos recursos naturais II: o erro de comparar alhos com bugalhos

In petróleo on 13/02/2012 at 01:00

Por Luciano Losekann e Thiago Periard(*)

Em postagem anterior  discutimos a validade da tese de maldição dos recursos naturais (MRN) para países com abundância de petróleo. Corroborando as conclusões de Warner e Sachs (2001), a análise apontava para um menor crescimento econômico dos países que mais exportam e que detêm as maiores reservas de petróleo. Esse artigo busca avançar nessa análise, utilizando variáveis mais apropriadas para mensurar abundância de petróleo e desenvolvimento econômico. Além disso, optamos por testar a tese de maldição comparando países do mesmo continente, que compartilham de semelhantes condicionantes de desenvolvimento e, assim, separar alhos e bugalhos.

Na literatura sobre MRN, a adequação das variáveis de análise é um ponto de grande debate. O artigo de Warner e Sachs (2001), que é a principal referência de análises quantitativas do problema, utiliza as exportações de recursos naturais como porcentagem do produto Nacional Bruto em 1970 como fator explicativo do crescimento econômico dos países entre 1970 e 1989. No entanto, a concentração da atividade econômica em exportações de recursos naturais é mais um sintoma da maldição do que um indicador direto da abundância de recursos. Assim, essa variável pode ter valores baixos em países ricos em recursos naturais, mas que têm uma economia diversificada.

Lederman e Maloney (2008) apontam que a abundância de recursos pode ser adequadamente identificada através de valores per capita de reservas, produção e exportação. Para formar um indicador de abundância relativa de petróleo composto por essas variáveis, que chamamos de IAP (Índice de Abundância de Petróleo) utilizamos metodologia análoga ao Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Essa contempla as distâncias relativas dos dados observados para os países nas três variáveis consideradas (reservas, produção e exportação percapitas), segundo a seguinte equação: Índicej = Xj – min (X)/max(X) – min(X). Onde Xj é o valor observado para o país j e min(X) e max (X), os valores mínimos e máximos observados para a variável.

Segundo o indicador IAP, o Qatar é o país com maior abundância relativa de petróleo. A Arábia Saudita que detém os maiores valores de reservas, produção e exportação, tem apenas o sexto índice devido a sua maior população. A tabela e o mapa a seguir apontam os dez países com indicadores mais elevados e distribuição espacial do indicador.

Top 10: Abundância Relativa de Petróleo

País IAP

1

Qatar

0,975

2

Kuwait

0,772

3

Emirados Árabes

0,634

4

Noruega

0,547

5

Guiné Equatorial

0,483

6

Arábia Saudita

0,481

7

Líbia

0,406

8

Gabão

0,327

9

Venezuela

0,298

10

Canadá

0,285

Mapa da Distribuição Regional do Índice de Abundância de Petróleo

Fonte: Elaboração própria a partir de dados de EIA (2011) e IMF (2011).

Como indicador de desempenho econômico dos países optamos por utilizar o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que é um indicador mais amplo de desenvolvimento que o crescimento econômico e compatível com o método que escolhemos para identificar a abundância de petróleo.

Usualmente, a tese da MRN é analisada para todos os países do globo. No entanto, como os fatores que explicam o desenvolvimento das nações vão muito além da disponibilidade de recursos naturais e o mapa aponta que a abundância de petróleo é mais freqüente em regiões menos desenvolvidas, a relação de determinação encontrada pode ser espúria.

Ou seja, para avaliar se um determinado país experimenta a MRN é interessante compará-lo com países que detêm condicionantes de desenvolvimento semelhantes. Para ilustrar, comparar Angola com Dinamarca é pouco útil para avaliar se a MRN atinge o primeiro.

Dessa forma, optamos por desenvolver uma análise regional da MRN. Assumindo que os países de um mesmo continente apresentam similaridades quanto ao padrão de desenvolvimento, é mais adequado identificar o impacto da abundância de petróleo quando comparamos países do mesmo continente.

Assim, relacionamos IAP e IDH de forma agrupada para Europa, Ásia, África e Américas[1], conforme as figuras que seguem. A tendência linear sugere uma relação positiva entre abundância de petróleo e desenvolvimento econômico e social. Dentro de cada continente, os países com maior abundância de petróleo experimentam maiores níveis de desenvolvimento econômico e social.

Figuras – Relação entre Abundância de Petróleo (IAP) e Desenvolvimento (IDH) – Europa, Ásia, África e Américas

Fonte: Elaboração própria a partir de dados de EIA (2011) e IMF (2011).

Esses resultados sugerem que, quando a relação entre abundância de petróleo e desenvolvimento é analisada a partir de variáveis adequadas e de forma regional (i.e. separando do alho do bugalho), a disponibilidade de petróleo está mais próxima de ser uma benção do que uma maldição.

Referências

EIA (2011) – Energy Information Administration. Country data. Disponível online em: http://www.eia.gov/countries/data.cfm

IMF (2011) – International Monetary Fund. World Economic Outlook. Washington,DC.

LEDERMAN, Daniel & MALONEY, William. (2008). In Search of the Missing Resource Curse. Policy Research Working Paper 4766. The World Bank Development Research Group Trade Team & Latin America and the Caribbean Region Office of the Chief Economist, November 2008.

SACHS, Jeffrey & WARNER, Andrew. (2001). Natural Resources and Economic Development. The curse of natural resources. European Economic Review 45 pp. 827 – 838.


[1] Para obter observações suficientes, optamos por agrupar os países das Américas e não consideramos a Oceânia.

(*) Doutorando em Economia pela Universidade Federal Fluminense

Leia outros textos de Luciano Losekann no Blog Infopetro

Leia outros textos de Thiago Periard no Blog Infopetro

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