Grupo de Economia da Energia

A China e o futuro das energias limpas

In energias renováveis on 23/04/2012 at 00:15

Por Ronaldo Bicalho e Felipe de Souza

A China é o maior consumidor de energia e o maior emissor de CO2 do mundo. Sua matriz energética é baseada no carvão, que atende a 67 % da sua demanda energética e gera 79 % da sua eletricidade.

De acordo com a Agência Internacional de Energia, o gigante asiático será responsável por um terço do aumento da demanda global de energia de hoje até 2035.

Se em 2000 a China demandava o correspondente a metade da energia consumida pelos Estados Unidos, em 2035 os chineses irão consumir 73% a mais do que os americanos; em um quadro no qual além de maiores consumidores de energia eles serão também os maiores importadores mundiais de petróleo.

Por outro lado, em 2009 a China ultrapassou o Estados Unidos como o país que detém a maior capacidade instalada de energias limpas. Nesse mesmo ano e no seguinte a China foi o país que mais investiu nesse tipo de energia (US$ 39,1 bilhões e US$ 54,4 bilhões de dólares, respectivamente); de tal forma que hoje os chineses são os maiores produtores mundiais de turbinas eólicas e painéis solares.

Diante desses números, pode-se afirmar que a China tem um papel decisivo no enfrentamento global dos desafios gêmeos, insegurança energética e aquecimento global. Esse protagonismo faz com que a política energética desenhada e implementada por Pequim se torne uma peça chave na evolução do cenário energético/ambiental mundial nas próximas décadas; principalmente no que tange à difusão das tecnologias de energia limpa.

O apoio às energias limpas

Em Novembro de 2009, a China anunciou o objetivo de reduzir o montante de dióxido de carbono emitido para cada unidade do PIB entre 40% e 45% até 2020; tendo como base de comparação os níveis de 2005. Essa meta implicava um grande esforço por parte do governo no incentivo ao desenvolvimento de tecnologias limpas.

No início de 2011, foi apresentado o 12º Plano Quinquenal que estabeleceu novas metas. Essas metas apontavam para um aumento da capacidade instalada de 150 GW para a eólica, 380 GW para a hidrelétrica e 20 GW para a solar.

Há duas agências governamentais que atuam na implementação e fiscalização dessas metas. A primeira é a National Energy Administration (NEA), que aprova o financiamento e construção de todos os grandes projetos de energia, e a segunda é o Ministério de Ciência e Tecnologia, que acompanha as diversas pesquisas na área de energia limpa realizadas nos centros acadêmicos do país.

Por meio dessas duas agências, o governo chinês direciona os investimentos para o desenvolvimento do setor. O massivo investimento estatal tem permitido que a China avance em um ritmo extremamente vigoroso e difícil de ser acompanhado pelo setor privado em outras partes do mundo.

A capacidade instalada de energias renováveis (excluindo a hidráulica), que praticamente não existia na China a alguns anos atrás, vem dobrando desde 2005; ano em que foi promulgada a lei de Energia Renovável, que trouxe um sinal forte e de longo prazo à indústria chinesa. Embora a participação de energias renováveis seja pequena, a magnitude e a velocidade do crescimento são impressionantes.

Eólica

No final de 2004, a capacidade de geração eólica era de 0,76 GW e só havia seis fabricantes de turbinas em toda a China. Em 2010 o número de fabricantes passou para mais de 70. Três fabricantes chineses, Sinovel, Goldwind e Dongfang Eletric passaram a integrar a lista das dez maiores fabricantes mundiais de turbinas eólicas; lista esta liderada pela americana General Electrics.

Na província de Gansu, um projeto de parque eólico de 3,8 GW foi construído em 2010, e constitui a primeira fase de um projeto de 10 GW. Esse é o primeiro de sete mega parques eólicos de 10 GW planejados. Em 2010, a China ultrapassou os EUA e tornou-se o país com a maior capacidade eólica instalada no mundo com 44,7 GW, detendo 22,4% da capacidade mundial instalada.

Apesar do avanço, deve-se ressaltar que o desenvolvimento de energia eólica esbarra em um sério problema na China relacionado à baixa capacidade de transmissão de energia. A transmissão de energia de longa distância é citada como um grande problema para o governo chinês; já que os grandes centros de demanda encontram-se muito longe dos parques eólicos do norte e nordeste do país, onde se encontram os potenciais eólicos mais promissores.

Solar

Com grande apoio financeiro do governo chinês a energia solar tem apresentando um grande desenvolvimento nos recentes anos. Em 2006, havia apenas 2 empresas chinesas entre os 10 maiores produtores no mundo. Em 2010, o país já tinha 6 empresas entre as 10 maiores, de acordo com Bloomberg New Energy Finance. Por trás desse avanço, é necessário destacar a atuação do Banco de Desenvolvimento da China que em 2010 concedeu US$ 30 bilhões em empréstimo aos 5 maiores produtores da indústria solar no país. Isso tem permitido uma rápida instalação de capacidade fotovoltaica no país, além de uma crescente participação no mercado internacional.

Hoje as empresas chinesas dominam 47% do mercado global. De fato, na energia solar, a China toma uma estratégia voltada para o mercado internacional, não apenas o doméstico. As importações norte-americanas de painéis solares chineses somavam US$ 21,3 milhões em 2005, enquanto no ano passado, esse valor chegou a US$ 2,65 bilhões. Tal fato tem levantado a questão sobre o ganho de competitividade da China em relação às empresas ocidentais, em especial nos Estados Unidos. Recentemente, o Departamento de Comércio dos EUA impôs tarifas a painéis e a componentes solares chineses após suas investigações terem concluído a prática de subsídio por parte do governo chinês.

A medida foi bem aceita por fabricantes de painéis solares nos EUA, que se sentiam prejudicados pela concorrência chinesa. Segundo as empresas norte-americanas, a desvantagem comercial seria responsável pela falência de três empresas, inclusive a Solyndra.

Nuclear

A energia nuclear também recebe uma grande atenção do governo chinês; em função de ser uma das fontes mais livres de emissão de CO2, podendo ser construídas mais próximas aos principais centros de demanda onde a capacidade eólica é menor. Em 2008 o governo chinês anunciou a meta de chegar a 40 GW de geração a partir da energia nuclear em 2020. Todavia essas metas foram crescendo, e em 2010, as metas chegavam a 70-80 GW para o ano de 2020. Hoje, o país tem 15 usinas nucleares em operação e esse tipo de energia corresponde a menos de 2% no total de geração do país.

Em março de 2011, o acidente nuclear em Fukushima trouxe uma grande incerteza com relação ao futuro da energia nuclear no mundo. O governo alemão decidiu abandonar a energia nuclear até 2022, seguido pelo governo suíço que decidiu abandonar essa fonte de energia até 2034. A estagnação econômica de diversas nações industrializadas como os Estados Unidos tem diminuído a demanda por energia o que reduz o interesse desses países na construção de novas usinas nucleares.

Entretanto, o programa de energia nuclear chinês não segue essa tendência mundial. Embora o governo chinês tenha suspendido a aprovação de novos projetos e ordenado um programa de inspeção de segurança em suas usinas, o resultado prático dessas ações foi o adiamento por 5 anos das metas estabelecidas em 2010, determinando um novo cronograma pelo qual a China chega aos 35 GW de capacidade instalada de geração nuclear em 2015, 55 GW em 2020 e 70 GW em 2025.

Não é à toa que, segundo dados da Associação Nuclear Mundial, dos atuais 61 reatores em construção no mundo, 26 sejam na China, que planeja construir mais 51.

Sequestro de carbono

Apesar do rápido avanço no desenvolvimento de energias limpas, muitos analistas prevêem que a China continuará sendo dependente do carvão no médio e longo prazos. Ao contrário de muitos países desenvolvidos nos quais a demanda por energia já está estabilizada, a China ainda precisa de uma fonte de energia de alta disponibilidade e de custo relativamente baixo para continuar seu processo de crescimento econômico liderado pela indústria. Portanto, o carvão continuará sendo uma prioridade para os chineses. O país possui a terceira maior reserva de carvão do mundo e toda semana, uma nova usina de geração térmica a carvão passa a funcionar em algum lugar da China, o que leva ao aumento da poluição do ar, problemas de saúde para a população e degradação do meio-ambiente, ocasionando um custo equivalente a 11% do PIB chinês.

Dada a participação na China no nível crescente de emissões de CO2, e ainda a consciência de que o país será dependente do carvão pelas próximas décadas, não é nenhuma surpresa que o investimento no sequestro de carbono apresentou uma grande expansão nos últimos anos. Um exemplo disso é a situação da empresa chinesa Huaneng que gera 160 GW por ano. Para atender as metas definidas pelas autoridades chinesas, a empresa planeja instalar parques eólicos capazes de gerar 10 GW por ano.

Até 2025, a Huaneng pretende adicionar 50 GW em capacidade hidráulica e 10 GW em energia nuclear. Apesar disso, a empresa continuará também a aumentar a geração térmica a carvão, mas buscando inovação. A partir de recursos próprios e também com o forte apoio do NEA e do Ministério de Ciência e Tecnologia, a empresa investe na tecnologia de sequestro de carbono. Em 2011, a empresa estava finalizando a planta GreenGen, que em breve deverá ser a planta de maior ciclo combinado de gaseificação no mundo. Além disso, a empresa também planeja desenvolver em larga escala a tecnologia de sequestro de carbono para atender uma planta próxima a Xangai (600 MW), o que tornará possível a captura entre 2 e 4 milhões de toneladas de CO2 por ano.

Estes projetos serão suficientes para testar e validar a eficiência dessa tecnologia. Já há empresas ocidentais atuando juntamente com empresas chinesas para desenvolver projetos de sequestro de carbono, incluindo GE, Duke Energy Inc., Powerspan, e outros. Essas parcerias serão fundamentais para o avanço da tecnologia e redução dos custos.

China: a chave para o futuro das energia limpas

Como afirma Fatih Birol, economista chefe da Agência Internacional de Energia, a China é, por um lado, um dos países mais sensíveis à piora do contexto global, representada pelo aumento da insegurança energética e ambiental; em função da sua economia ser altamente intensiva no uso de energias fósseis.

Por outro lado, o impacto global de uma aceleração da China em direção às tecnologias de energia limpa seria maior do que o de qualquer outro país, simplesmente pelo fato da China ser hoje o país mais vigoroso em termos da produção dessas tecnologias.

A rápida expansão das energias limpas na China reduziria os custos dessas tecnologias em todo o mundo, mediante a exploração das economias de escala, viabilizadas pelo grande mercado interno chinês, e a aceleração do processo de aprendizado tecnológico; estimularia as exportações dessas tecnologias, aumentando inclusive a capacidade industrial nos países importadores dessas tecnologias; e demonstraria às outras economias emergentes a viabilidade econômica de um desenvolvimento baseado na energia limpa.

Desse modo, o enfrentamento dos dois problemas centrais da política energética atual no âmbito global, insegurança energética e aquecimento global, passa inexoravelmente pela China.

Referências:

Birol, F.; Olerjarnik, P. Will China Lead the world into a clean energy future?. Economics of Energy & Environmental Policy, v.1, n.1, p. 5-9, jan. 2012

Bradsher, K.; Wald, Matthew L. A Measured Rebuttal to China Over Solar Panels. The New York Times, New York, 20 mar. 2012.

Bradsher, K. China Marches on with Nuclear Energy, in Spite of Fukushima (special report). The New York Times, New York, 10 out. 2011.

Cheung, K. Integration of Renewables – Status and challenges in China. Working Paper, International Energy Agency, 2011.

Friedmann, S. J. How Chinese Innovation is Changing Green Technology, Beijing’s Big Gamble on Renewables. Foreign Affairs, 13 dez. 2011

Friedmann, S. J. Carbon Capture and Green Technology – Environmentalism’s Step Forward and Two Steps Back. Foreign Affairs, 11 set. 2011.

Eletronuclear. Panorama da Energia Nuclear, novembro/2011.

Lacey, S. How China dominates solar power. The Guardian, London, 12 set. 2011.

The Pew Charitable Trusts. Who’s Winning the Clean Energy Race? 2010 Edition. Washington, DC, 2011.

World Nuclear Association. World nuclear power reactors & uranium requirements. Disponível em http://www.world-nuclear.org/info/reactors.html. Acesso em: 2 de Abril de 2012.

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