Grupo de Economia da Energia

Yvan Barreto de Carvalho: um petroleiro

In petróleo on 30/04/2012 at 00:15

Por Antonio Dias Leite (*)

Chegamos no mesmo mês de janeiro do ano de 1920, Yvan em Juazeiro, à margem do Rio São Francisco e eu em Botafogo, no Rio de Janeiro. Só nos conhecemos cinqüenta anos mais tarde. Neste mês de Abril ele nos deixou.

Logo de inicio da vida, ainda ao tempo de estudante na escola de engenharia em Salvador, se destaca a sua definição, de uma só vez, pela profissão de “petroleiro”. Concorreu para isso o treinamento paralelo que fez, no Instituto Politécnico, em busca de uma atividade prática, concentrando-se na técnica de solda, ainda pouco difundida no Brasil, nessa época. A opção viria a ser imediatamente aproveitada no estágio que obteve no primeiro campo de perfurações para petróleo, denominado Lobato-Joanes, em 1942, nesse tempo sob a responsabilidade do Conselho Nacional do Petróleo. Não se separaria do petróleo durante os trinta anos seguintes. Constituída a Petrobrás para ela foi transferido.

Objetivo, simples e determinado, só me lembro de um momento de vaidade, quando do registro do seu nome, em 2004, no Hall of Fame do Offshore Energy Center, sediado em Houston, Estados Unidos.

Na fase pioneira das pesquisas viveu, com outros jovens técnicos brasileiros, as dificuldades e peripécias do aprendizado nacional nas novas tecnologias, convivendo com os técnicos estrangeiros que eram responsáveis pela condução dos trabalhos. Esteve sempre nas frentes de trabalho, às voltas com os problemas práticos e as tarefas a executar, longe dos discursos políticos que a questão do petróleo atraiu.

Pouco depois seguiu viagem para especialização, nos Estados Unidos, de novo nas frentes de trabalho. Viajou também à Rússia, em 1960, quando lá prevaleciam organizações políticas e econômicas muito peculiares. Na Bahia eram outras as experiências, incluindo-se acidentes de torres, recuperação de sondas e incêndios, além da perfuração sobre água, realizada pela primeira vez no Brasil.

Começando a sair do campo alcançou a posição de Superintendente dos trabalhos da Petrobras na Bahia, e a seguir designado para chefiar o escritório da Petrobrás em Nova York.

Designado diretor da área de exploração da Petrobrás. envolveu-se, inevitavelmente com os problemas políticos inerentes ao cargo. Ficou nessa posição até 1969, completando 28 anos desde  aquele estagio no qual definira a sua profissão. Completava-se a carreira técnica-comercial-politica, sempre em torno do petróleo. Acredito que, com a intenção de fazer uma pausa, foi para a Escola Superior de Guerra indicado pela Petrobras.

Fui responsável, quando ministro de Minas e Energia, por desviá-lo da missão de “petroleiro” que havia escolhido, quando o convidei para assumir a direção do Departamento Nacional da Produção Mineral, que estava a necessitar de alguém que soubesse fazer com que as coisas acontecessem. E foram muitas as iniciativas completadas, com destaque para a coordenação do projeto Remac-Reconhecimento da Plataforma Continental, que foi parte relevante da partida do Brasil para a busca do petróleo no mar.

Ao terminar o mandato e deixar esse departamento foi convidado para a presidência da Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais, permanecendo assim por muitos anos dedicado à geologia geral e à mineração, fora da especialidade do petróleo oportunidade que lhe concedeu o convite, nominal, do Secretário Geral da ONU em 1978 para integrar o “Group of Experts on Mineral and Energy Exploration in Development Countries”, cujo pronunciamento fora classificado de “Suporting Document” por aquela autoridade, em seu Relatório apresentado na Assembléia Geral daquele ano.

Ainda ligado à geologia foi convidado para a difícil tarefa de presidir a IGC Brasil, entidade responsável pela organização do XXXI Congresso Geológico Internacional que veio a se realizar no ano 2000 no Rio de Janeiro, pela primeira vez na América Latina, felizmente com sucesso.

As memórias de Yvan Barreto, publicadas em 2005, para as quais me pediu que fizesse o prefacio, são como uma história paralela da pesquisa e exploração de petróleo no Brasil, valiosa por partir de pessoa que viveu todas as etapas desse penoso processo de emancipação energética do país. Mas, o que fica, mesmo, é uma lição de vida e, para mim, como amigo, a melhor lembrança do tempo que trabalhamos juntos em prol da mineração deste país.

(*) Fundador da ECOTEC, presidente da Vale do Rio Doce, idealizador da Aracruz Celulose, secretário da política econômica do Ministério da Fazenda, ministro de Minas e Energia, criador da CPRM e do CNEN, organizador da FUJB, diretor da Faculdade de Economia e Professor Emérito da UFRJ. Autor de vários livros e consultor do Banco Mundial em assuntos de infraestrutura e meio ambiente.

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