Grupo de Economia da Energia

Perspectivas tecnológicas e emissões de CO2

In energia on 02/07/2012 at 00:15

Por Jacqueline Batista Silva

Em junho foi lançada a edição 2012 do Energy Technology Perspectives (ETP), da Agência Intenacional de Energia (AIE).  A publicação é apresentada como sendo a mais ambiciosa e abrangente no que diz respeito ao desenvolvimento de tecnologias em energia. Nela, é demonstrado como tecnologias – de veículos elétricos a parques eólicos – podem contribuir significativamente para o objetivo internacionalmente acordado de limitar o aumento global da temperatura em, no máximo, 2°C sobre os níveis pré-industriais. O relatório é norteado, portanto, pelo cenário de 2°C ou 2DS (2 Degrees Scenario).

O Energy Technology Perspectives 2012 ganhou repercussão no New York Times e no The Guardian, numa época em que, a despeito dos resultados, vimos diversos países envolvidos em torno de questões ambientais na Rio+20.

O estudo disponibiliza no site a visualização do padrão de emissões e projeções de diferentes países (incluindo o Brasil) para os diferentes cenários de emissão. O gráfico que apresenta a condição do Brasil para o nível de emissões de CO2 em Gt, numa projeção para 2050, é reproduzido a seguir:

Fonte: AIE

O documento é estruturado por cinco considerações fundamentais às iniciativas em prol da mitigação dos danos ambientais. Os tópicos estruturados no relatório, e de aplicabilidade global, merecem atenção.

Um sistema de energia sustentável ainda é possível de ser alcançado e pode trazer amplos benefícios.

O estudo afirma que o uso integrado das tecnologias já existentes tornaria possível diminuir a dependência em combustíveis fósseis, baixar os níveis de emissão da geração de eletricidade, aumentar a eficiência energética e reduzir as emissões na indústria, no transporte e nos setores de construção.

Economicamente, é apontado que o investimento em energia limpa faz sentido: para cada dólar adicional investido, três dólares seriam gerados em termos de economia futura de combustível até 2050. São apresentados dados concisos no documento: quanto poderia ser economizado, qual o adicional de custo por pessoa para atingir a meta e quanto isso traria de economia: a economia de combustível projetada chegaria a USD 150 trilhões.

Outro ponto destacado dentro dessa seção analisada é o de que segurança energética e mitigação da mudança climática são aliadas. Eficiência energética e utilização mais efetiva de tecnologias de baixo carbono reduziriam os custos do governo bem como a dependência da importação de energia.

Apesar do potencial tecnológico, o progresso em energia limpa é muito vagaroso.

Nove em dez tecnologias que poderiam ser efetivamente melhor empregadas na redução do uso de energia e das emissões de CO2 não são devidamente implantadas, de forma a atingir a meta de transição para um futuro de baixo carbono. Um exemplo disso seria a utilização de veículos elétricos: a meta governamental de 20 milhões de veículos nas estradas em 2020 (Estados Unidos) é mais que o dobro da capacidade planejada da indústria.

Outro ponto preocupante é a queda do investimento em pesquisa, desenvolvimento e demonstração. Desde a década de 1980 foi observada uma queda de dois terços no investimento. Tais políticas devem ser alinhadas a medidas de implementação no mercado, já que as expectativas de novos mercados desencadeariam mais investimento privado em pesquisa e inovação tecnológica.

Além da lentidão com que as tecnologias associadas às energias limpas têm sido efetivadas na economia, ainda nos vemos diante de um aumento da demanda por combustíveis fósseis.

Políticas energéticas devem abordar o sistema de energia como um todo.

As tecnologias em energia interagem e devem ser desenvolvidas e implantadas em conjunto. Mesmo os consumidores de energia poderiam ser ativos na geração distribuída de energia solar fotovoltaica, por exemplo. Outro fator de incentivo é o comportamental, em que os consumidores de energia realizem uma demanda responsável.

O investimento em infraestrutura mais robusto e inteligente também é essencial. Através de grids de eletricidade mais robustos e inteligentes, uma operação mais eficiente do sistema elétrico pode ser obtida com um maior grau de resposta à demanda. O sistema de eletricidade de baixo carbono é uma questão central do programa de energia sustentável.

A eficiência energética – um tema recorrente nas discussões climáticas – precisa atingir todo o seu potencial. Ela é capaz de reduzir a intensidade energética da economia global em dois terços até 2050. Informação e gestão energética são formas efetivamente provadas de encorajar a adoção de medidas de eficiência energética na indústria.

O uso da energia se torna mais equilibrado: os combustíveis fósseis não desaparecerão, mas seu papel irá mudar.

É importante repensar, num primeiro momento, a utilização do carvão. Atualmente, observa-se um aumento no uso do carvão para geração de eletricidade e este aumento tende a ser o ponto mais problemático na relação entre energia e mudança climática.

O combustível fóssil que tem um papel destacado no relatório é o gás natural. Segundo as perspectivas, ele continuará importante para o sistema de energia global por décadas, e inicialmente, numa política de transição, seu uso sofrerá considerável aumento – deslocando a utilização tanto do carvão quanto da energia nuclear, em algumas áreas. No curto-prazo, é importante a indústria investir em flexibilidade tecnológica para utilização desse combustível. O GN contribuiria para o equilíbrio da geração e das flutuações de demanda num cenário em que as renováveis também já tivessem uma participação expressiva: a projeção é que em 2050 a demanda de GN seja ainda 10% maior que a de 2009, em valores absolutos. Mas, tendo em vista cenários mais restritivos para as emissões de CO2, o seu uso seria cada vez mais questionado ao longo de toda a transição.

No caso do petróleo, apesar da estimativa de que sua utilização sofra uma redução de mais de 50% até 2050 no cenário 2DS, ele ainda teria um importante papel como fonte energética no transporte e como matéria-prima na indústria.

A captura e estocagem de carbono (CCS – Carbon Capture and Storage) é apresentada como a única tecnologia atual que permitiria a setores industriais (tais como ferro-gusa e aço, cimento, processamento de GN) alcançar as metas de reduções propostas. Abandonar a CCS como opção de mitigação representaria um grande aumento no custo para o objetivo das metas 2DS.

O governo terá papel decisivo na transição para tecnologias mais eficientes e de baixo nível de emissão de CO2.

As políticas governamentais podem tornar tecnologias-chave realmente competitivas e amplamente utilizadas. Segundo o relatório, a principal barreira às tecnologias limpas é a desigualdade de distribuição – no tempo, entre setores e entre países – dos custos e benefícios associados à transformação global do sistema de utilização de energia.

Será necessário criar incentivos para consumidores, empresas e investidores. Isso teria início com a adoção de metas rigorosas e plausíveis de energia limpa. Incentivos temporários de transição podem ajudar a criar mercados, atrair investimentos e desencadear a implantação efetiva das tecnologias. Promover a aceitação social da nova estrutura de desenvolvimento também deve ser considerado uma prioridade.

Alguns exemplos recentes de políticas governamentais demonstram como o governo pode catalisar o progresso dessas tecnologias. No caso da energia solar fotovoltaica, o crescimento médio anual observado foi de 42% na última década. No caso da energia eólica onshore, o crescimento verificado foi de 27% em média. Isso foi resultado de uma política de apoio aos estágios iniciais de pesquisa, desenvolvimento, demonstração e implantação no mercado – o que permitiu que o setor privado passasse a ter um papel maior e fez com que os subsídios oferecidos tivessem um retorno em escala.

O quadro a seguir apresenta um sumário do progresso na redução de CO2 para diferentes tipos de tecnologia:

Fonte: AIE

Algumas recomendações – aplicáveis globalmente – são feitas no relatório, e devem ser mantidas em foco pelos policy makers:

  • Criar uma política de investimento que leve à credibilidade no potencial de longo prazo das tecnologias de energia limpa;
  • Nivelar o campo de atuação das energias limpas pela taxação das emissões de carbono e eliminação progressiva dos subsídios aos combustíveis fósseis;
  • Ampliar esforços para utilizar plenamente o potencial de eficiência energética;
  • Acelerar os programas de inovação, pesquisa pública, desenvolvimento e demonstração em energia.

As tecnologias a serem colocadas em utilização em 2050 no programa de metas 2DS podem ser insuficientes para atingir o nível de emissão zero. O relatório ETP2012, no entanto, provê a primeira análise quantitativa da AIE de como as emissões relacionadas à energia poderiam ser eliminadas completamente de acordo com as estimativas da ciência climática.

Leia outros textos de Jacqueline Batista Silva no Blog Infopetro

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  1. A pesquisa voltada para a redução do CO2 é perda de dinheiro e tempo. Deve-se investir em pesquisas de processos combustíveis de grande eficiência voltados para a eliminação de gases poluentes de enxofre e nitrogênio, estes sim, perigosíssimos. Deixem o CO2 em paz, nunca será um poluente nem causador de efeito estufa e sem ele não havia vida como conhecemos…

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