Grupo de Economia da Energia

O cenário energético atual

In energia on 16/07/2012 at 00:19

Por Luciano Losekann

Nos dias 24 a 27 de junho, a 35ª edição da conferência internacional da Associação Internacional de Economia da Energia (IAEE) foi sediada em Perth na Austrália. Essa conferência é a mais importante da área de economia de energia. Os principais temas discutidos foram: as perspectivas para o gás natural resultantes da oferta não convencional, o panorama da energia nuclear no Japão pós-Fukushima e a mitigação de emissão de CO2 no setor elétrico.

A relação entre as indústrias de petróleo e gás natural foi discutida, principalmente quanto a formação de seus preços. A apresentação de Fereidun Fesaraki abordou o tema, recorrendo a seguinte ilustração: “se o petróleo é um namoro, o gás natural é um casamento”. Apesar da introdução de flexibilidade a partir da difusão do GNL e da maior importância de mercados spot, a infraestrutrura de gás exige maior comprometimento entre os envolvidos. Assim, os contratos de longo prazo ainda tendem a ser dominantes. Usualmente, contratos de GNL têm duração de quatro a dezessete anos. São os contratos longos que permitem o financiamento dos projetos, já que bancos só aceitam participar quando os contratos de compra de longo prazo são apresentados.

Os debatedores apontaram que o diferencial de preços entre os mercados norte-americano, europeu e asiático deve diminuir, mas não desaparecer. Nos Estados Unidos, o preço do gás se descolou do preço do petróleo em função da produção não convencional (shale gas principalmente). Mesmo com preços baixos do gás no Henry Hub, a produção de shale gas segue atrativa, pois a extração de líquidos viabiliza o negócio. Nesse sentido, há uma força de divergência entre os preços dos combustíveis. O preço elevado do petróleo estimula a continuidade da exploração de shale gas, que amplia a oferta de gás nos EUA e ajuda a derrubar mais seu preço.

Os preços do gás natural na Ásia e Europa são próximos à paridade com o petróleo. As importações japonesas de GNL resultantes do desligamento das centrais nucleares e do maior uso de termelétricas a gás inflaram os preços na Ásia e tiveram efeito sobre a Europa, que também importa GNL. Como a oferta de GNL tende a se elevar nos próximos anos, o diferencial em relação aos Estados Unidos tende a diminuir, mas a opinião é que o diferencial não deve desaparecer.

Quanto à oferta de GNL, a Austrália deve representar um papel muito relevante. Nos últimos 18 meses, seis novos projetos de GNL tiveram início no país. Entre esses, está o projeto pioneiro da Shell de uma planta flutuante para produzir GNL em offshore. A meta da Austrália é se tornar o maior exportador de GNL do mundo, ultrapassando o Qatar em 2017. O país experimentou um boom de projetos recentemente. No entanto, esses experimentaram problemas de atraso e estouro de orçamento. Um caso marcante é o projeto de Gorgon da Chevron, que terá capacidade de produção de 15 milhões de toneladas de GNL por ano e que deve custar 50 bilhões de dólares (como referência foi citado o projeto da Cheniere de 9 milhões de toneladas de GNL de capacidade que custou US$ 6,5 Bilhões).

A Agência Internacional de Energia apresentou dois relatórios sobre gás natural na conferência. O primeiro, midterm Gas Report 2017, aponta para um crescimento da demanda de gás de 2,7% ao ano até 2017, com a China representando um quarto da expansão. A Europa diminuiria o consumo de Gás. Os Estados Unidos representariam 20% do crescimento da demanda global. A geração termelétrica a gás natural alcançaria a mesma participação do carvão no país. O estudo “Golden Rules for a Golden Age of Gas” define os princípios para mitigar os impactos ambientais e sociais da exploração de gás natural não convencional, que são mais significativos que a produção convencional. Nos Estados Unidos o número de poços não convencionais atingirá a marca de 1 milhão, o que causa impacto ambiental e de uso da terra. Segundo a agência, esses impactos podem ameaçar a chamada “Golden Age of Gas”.  Assim, é necessário tratar os problemas relacionados à exploração de shale gas, Tigh gas e Coalbed methane com transparência, medindo e monitorando continuamente os impactos.

No cenário em que essas regras são respeitadas, a produção de gás cresceria 55% até 2035, com não convencionais representando 2/3 do aumento. Os Estados Unidos se tornariam o maior produtor de gás natural do mundo e passariam a exportar o combustível. O gás natural deslocaria o carvão da segunda posição de fonte primária mais utilizada no mundo. A geração de eletricidade representaria 40% do crescimento da demanda.

O cenário alternativo, com menor produção não convencional, prevê que os Estados Unidos continuarão como importador de gás. As importações chinesas também serão relevantes. O gás natural aumentará sua participação na matriz energética mundial em apenas 1%, que não permitirá alcançar o carvão. Os países se tornarão mais dependentes das exportações de gás da Rússia e do Oriente Médio. Em função da maior utilização de carvão as emissões de CO2 aumentam.

O futuro da energia nuclear no Japão após o acidente de Fukushima foi outro tema abordado na conferência. Logo após o acidente, todas as usinas nucleares do Japão saíram da operação. O primeiro ministro japonês permitiu a retomada de dois reatores. A decisão foi motivada pela segurança do abastecimento e as usinas estão localizadas nas regiões de abastecimento mais crítico (Kansai e Kyushu). A retomada da produção nuclear recebeu forte oposição da sociedade japonesa, apesar das restrições ao uso de eletricidade que ocorrem em função da retirada da produção nuclear.

O custo de combustíveis que substituem a geração nuclear alcançou US$ 30 bilhões em 2011. O programa de restrição ao uso de eletricidade tem a meta de reduzir em 15% a demanda de pico e atingiu 18%. No entanto, os consumidores residenciais reduziram apenas 6%, enquanto de grandes consumidores diminuíram o consumo de eletricidade em 29%.

A grande questão abordada por Yukari Yamashita do Instituto de Economia da Energia foi a possibilidade de cumprir objetivos ambientais e de segurança energética sem contar com energia nuclear. A meta 2030,  referente ao plano básico de 2010, prevê a redução de emissões de CO2 de 25% e alcançar um índice de auto-suficiência  de 40%.  Essa meta foi mantida, mesmo após o acidente. O plano original previa a construção de 14 novas centrais nucleares. A energia nuclear alcançaria 30% da matriz de geração, equivalente à capacidade de 70 GW. O Instituto de Economia da Energia considera três opções para a participação nuclear na geração de eletricidade, 0%, 15% e 20 a 25%. Apesar de considerar que atualmente a sociedade japonesa é favorável a manter a totalidade das usinas nucleares desligadas, o Instituto apoia um cenário de participação de 25% das nucleares. Nesse cenário, as fontes renováveis teriam participação de 25%, termelétricas 35% e cogeração 15%. Assim, a meta de reduzir emissões seria alcançada com menores custos para a sociedade.

A mesa sobre setor elétrico abordou os casos do Reino Unido e da Austrália, que buscam tornar a matriz de geração mais limpa. Richard Green afirmou que há duas abordagens para a organização do mercado de eletricidade. A abordagem fora da Europa busca a estruturação de mercados mais sofisticados, com modificações mais significativas em relação aos modelos anteriores.  A abordagem europeia é gradual e prioriza arranjos mais simplificados. O modelo é modificado a partir das necessidades.

No caso do Reino Unido, um novo arranjo institucional está sendo implementado a partir da constatação o regime atual não concede mecanismos para enfrentar o desafio atual de incrementar investimentos e estimular fontes renováveis. O plano de desligamento de centrais antigas a carvão e nucleares implica uma necessidade de investimentos da ordem de 110 bilhões de libras. Por outro lado, a meta da Comunidade Europeia de diminuir emissões em 80% em 2050 e ter uma participação de renováveis de 20% em 2020 implica em modificar a matriz de geração de eletricidade. Segundo David Newbery, o ETS (Emissions Trading System) não dá sinais suficientes para estimular investimentos renováveis e incrementar gastos em pesquisa e desenvolvimento (P&D). O autor aponta que recuperar os gastos com P&D é fundamental para limpar a matriz de geração. A liberalização do setor de eletricidade implicou em redução significativa desses gastos em empresas do setor. Em função da crise econômica, o consumo de eletricidade se reduziu e o preço atual do carbono na Europa é cerca de um quarto do que seria apropriado segundo o autor (13 euros/tonelada).

O novo desenho para o mercado de eletricidade do Reino Unido instaura um piso para o preço do carbono de 13 euros/tonelada, que aumentaria progressivamente. Esse preço seria suficiente para estimular investimentos em centrais nucleares, mas ainda é insuficiente para viabilizar fontes renováveis. A contratação de longo prazo é também um ponto da reforma. O desafio é desenhar condições que sejam adequadas às diferentes características das fontes de geração mais limpas, como a energia nuclear que opera continuamente e eólica que é intermitente.

Na Austrália, o preço da eletricidade experimentou forte elevação, cerca de 70%, nos últimos cinco anos. O debate em curso no país é o impacto da precificação do carbono na geração de eletricidade. Em 1º de julho, iniciou a cobrança de taxa de carbono no país (a meta é que o preço do carbono seja definido por mecanismos de mercado no futuro). A tendência é de elevação de custos e de maior participação do  gás natural na geração de eletricidade.

Esses foram os principais debates da conferência da IAEE em Perth. Certamente, são temas que terão forte impacto sobre a evolução dos mercados de energia nos próximos anos. As apresentações apontam que essas questões ainda não estão concluídas. Dependendo dos cenários apresentados, diferentes trajetórias da matriz energética e de preços são possíveis.

Leia outros textos de Luciano Losekann no Blog Infopetro

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  1. Caro,
    Achei muito interessante. Há suficiente material e análise para uma discussão da questão sob diversas óticas.
    Gostaria de saber como poderei ter acesso às apresentações pois no site da IAEE só encontro alguns “abstracts”.
    Penso que como você deve ter participado, ou saber quem esteve presente à Conferência em tela, poderia disponibilizar estas apresentações.
    Grata.
    Sandra Souto

  2. Sandra,
    Infelizmente, as apresentações não foram disponibilizadas nem para os participantes da conferência. Fiquei surpreso, pois esperava que essas seriam colocadas no site da conferência. A IAEE disponibiliza os proceedings das conferências aos associados, mas ainda não consta a conferência de Perth.
    att,
    Luciano

  3. Muito bom o asunto

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