Grupo de Economia da Energia

Estocagem de gás natural no Brasil como solução para o conflito entre a indústria de gás e o setor elétrico

In gás natural on 20/08/2012 at 00:09

Por Marcelo Colomer 

O aumento da produção de gás de folhelho (shale gas) nos EUA, o acidente nuclear de Fukushima e o acirramento das pressões ambientais vêm contribuindo para o redirecionamento das atenções mundiais para a indústria de gás natural. Esse otimismo, recentemente despertado sobre o gás natural, não é um episódio recente. De fato, desde a década de 70 o gás vem captando os olhares, não só dos Estados Nacionais, mas também das principais empresas petrolíferas como uma alternativa aos hidrocarbonetos líquidos.

A partir da década de 80, e no Brasil a partir da década de 90, o processo de abertura e liberalização da indústria de gás natural vem exigindo mecanismos operacionais e contratuais cada vez mais flexíveis. Em outros termos, nesse novo ambiente competitivo, as especificidades associadas aos investimentos na malha de transporte e distribuição, assim como a complexa interação existente com o setor elétrico, aumentam a importância de modelos de negócio mais flexíveis. É nesse contexto que se destaca a importância crescente da atividade de estocagem em formações geológicas.

Os estudos sobre estocagem de gás natural em formações geológicas datam do início do século XX sendo que foi somente a partir de meados da década de 70 que a atividade de estocagem passou a assumir um papel mais relevante dentro da cadeia do gás natural, principalmente nos EUA.

Destacam-se como estruturas geológicas propícias a armazenagem de gás natural antigos reservatórios de hidrocarbonetos, cavernas de sal e aquíferos. Nos EUA, por exemplo, em 2010, havia cerca de 410 sítios de estocagem sendo 37 cavernas de sal, 43 aquíferos e 330 antigos reservatórios, como pode ser visto no gráfico 1.

           Figura 1 – EUA: Capacidade de Estocagem por Tipo

Fonte: Elaboração Própria a partir de EIA, 2012

 Em 2011, a retirada líquida de gás natural dos sítios de estocagem nos EUA (diferença entre volume injetado e volume retirado) atingiu seu máximo em Janeiro com uma média de 745 MMm3/d ou 42% da produção líquida norte-americana. Nesse mesmo mês em 2012, a retirada líquida foi de 508 MMm3/d ou 27% da produção líquida dos EUA. A diferença entre estes dois períodos deve-se as temperaturas mais amenas verificadas nos primeiros meses de 2012. O gráfico 2 mostra as retiradas líquidas verificadas nos EUA entre janeiro de 2010 e maio de 2012.

 Figura 2 – EUA: Retirada Líquida de Gás Natural dos Sítios de Estocagem

Fonte: Elaboração Própria a partir de EIA, 2012

 A importância da estocagem para a indústria de gás natural nos EUA pode ser verificada pela elevada participação das retiradas líquidas sobre a produção líquida de gás natural. O gráfico 3 mostra que entre 2002 e 2012 por várias vezes as retiradas líquidas de gás natural dos sítios de estocagem estiveram em torno de 50% das produção líquida do energético nos EUA. Não por coincidência, esses momentos ocorreram, quase que exclusivamente, nos meses de inverno no hemisfério norte (Dezembro, Janeiro e Fevereiro).

Figura 3 – EUA: Porcentagem das Retiradas Líquidas sobre a Produção Líquida de Gás Natural

Fonte: Elaboração Própria a partir de EIA, 2012

Segundo Goraieb e Iyomasa (2005), a atividade de estocagem de gás natural apresenta algumas importantes funções econômicas e operacionais dependendo do seu uso e propósito. No hemisfério norte, por exemplo, as características climatológicas impõem um perfil sazonal ao consumo de gás natural. No inverno, em função das baixas temperaturas, verifica-se um elevado consumo de gás enquanto que no verão, a demanda pelo energético mostra-se diminuída. Nesse sentido, a estocagem de gás natural permite que os compradores se defendam dos elevados preços praticados nos meses de inverno comprando e estocando gás nos meses de verão, quando o preço e as condições de oferta são mais favoráveis.

Ao lado da sazonalidade, outra importante utilidade da estocagem diz respeito às situações de contingência. Em outros termos, os efeitos negativos de picos inesperados de consumo ou de cortes súbitos na produção podem ser mitigados através da estocagem de gás natural. No Brasil, por exemplo, em 2008, um desmoronamento de terra causado por intensas chuvas na região de Santa Catarina danificou parte do trecho sul do GASBOL deixando parte dos estados da região sul do país sem fornecimento de gás natural por semanas.

A terceira função da estocagem está associada à formação de reservas estratégicas. A geopolítica da indústria do petróleo e gás natural é permeada de instabilidades e incertezas. Um exemplo claro dessa conturbada relação pôde ser visto em 2009 quando o fornecimento de gás da Rússia para Europa foi interrompido em função dos embates comercais entre a Ucrânia e Moscou. Nesse contexto, a formação de estoques estratégicos mostra-se uma importante defesa contra problemas políticos circunstanciais.

Outra utilidade da estocagem é o armazenamento da produção, principalmente de campos com gás associado. Nesses casos, onde a produção de óleo depende da extração de gás natural, a estocagem permite que os produtores se defendam das sazonalidades da demanda de gás reduzindo as necessidade de queima e reinjeção.

Por fim, a estocagem se mostra muito importante na logística de otimização e confiabilidade da malha de transporte. A armazenagem subterrânea de gás natural permite otimizar os projeto de gasodutos uma vez que atenua os efeito de picos e vales de produção e demanda, fazendo com que os volumes transportados pela malha de gasoduto seja mais homogêneo. Nesse sentido, se reduz a capacidade ociosa da infraestrutura de transporte reduzindo também as perdas impostas aos carregadores pelos contratos com clausulas de ship-or-pay.

Além das funções acima mencionadas, o armazenamento de gás natural em mercados maduros e liberalizados tem cruciais funções econômicas. Este se mostra essencial na garantia da liquidez do mercado e na mitigação da volatilidade dos preços – uma das principais razões de novos projetos de armazenamento.

Em suma, o armazenamento tem um papel fundamental de arbitragem: (i) de consumo, transferindo o consumo presente para o futuro, aumentando assim a confiabilidade do fornecimento no sistema; e (ii) de preços, retardando as provisões para períodos de pico de demanda suavizando, assim, os picos de preços.

O Brasil, por sua vez, ainda não possui qualquer investimento em estocagem comercial de forma que seus benefícios são ainda desconhecidos, devido ao número reduzido de estudos nesta área. Ademais, o reduzido grau de desenvolvimento do mercado de gás no país e o perfil singular do setor elétrico brasileiro dão origem a uma complexa interelação entre estas duas indústrias, o que confere a estocagem um importante e complicado papel.

No Brasil, desde 1999, o gás natural vem apresentando um aumento acentuado de sua participação na oferta interna de energia (10% em 2010) [1]. Percebe-se, contudo, que o recente crescimento verificado na demanda de gás natural concentrou-se nos setores industrial e termoelétrico. A concentração de mercado e a predominância de contratos de longo prazo com clausulas de take-or-pay limitam, dessa forma, a demanda pelo serviço de estocagem como mecanismo de defesa contra a volatilidade de preço de mercado.

Sendo assim, em termos práticos, a estocagem, no caso brasileiro, teria alguns potenciais usos que não o de proteção contra as flutuações de preço. Primeiramente, esta permitiria a otimização da malha de transporte frente ao perfil de demanda do setor termelétrico.

O Brasil tem uma grande intermitência na geração de energia térmica devido à ordem de mérito de despacho que desestabiliza a curva de demanda de gás. Como se pode ver na figura 4, a procura térmica é a principal fonte de instabilidade para o fornecimento de gás natural. Ademais, os futuros projetos hidroelétricos serão desprovidos de um programa plurianual de reserva de capacidade devido a fatores geográficos e de política ambiental, o que piora a instabilidade do sistema.

Figura 4 – Brasil: Consumo de Gás Natural e Estocagem no Brasil

Fonte: Adaptado de Perspectivas para o setor de gás natural no Brasil. Petrobras, April 2011

Neste sentido, o armazenamento de gás natural faria sentido em um contexto de estabilidade operacional, evitando uma pressão elevada no sistema de transporte nos momentos de necessidade de despacho das térmicas. É importante ressaltar que a prioridade de fornecimento de gás para as usinas termoelétricas, compromete o abastecimento dos consumidores industriais que possuem um perfil de consumo muito mais estável. Sendo assim, diferente de países com mercado maduros, no Brasil, os contratos interruptíveis e não-firmes não são apresentados como uma opção de custo reduzido, mas sim com única alternativa de suprimento para certos segmentos industriais.

Outra utilidade da estocagem no Brasil seria a formação de reservas estratégicas. Atualmente, cerca de 50% do consumo brasileiro de gás natural depende da importação da Bolívia. Após 2006, as incertezas sobre a capacidade de fornecimento do país vizinho vêm aumentando principalmente devido ao clima de instabilidade política e institucional que predomina no país. Sendo assim, a formação de estoques estratégicos de gás natural pode proteger o país de uma possível interrupção no fornecimento boliviano.

Por fim, a característica dos reservatórios brasileiros, onde predomina o gás associado, e a severa política de controle e fiscalização das queimas e reinjeções faz da estocagem de gás natural uma alternativa para a produção de petróleo, principalmente, na área do pré-sal. Em outros termos, frente ao mercado pouco desenvolvido e ao perfil sazonal da demanda termelétrica, a estocagem pode ser um meio importante de viabilizar a produção de óleo dos campos com gás associado.

Concluindo, a estocagem de gás natural em mercados desenvolvidos mostra-se amplamente utilizada. No Brasil, contudo, o armazenamento de gás natural em formações geológicas ainda não se apresenta como uma realidade embora seja uma alternativa interessante para lidar com os riscos de abastecimento e como apoio ao sistema de transporte. Ademais, verifica-se que a estocagem no Brasil pode ser extremamente importante na viabilização da produção de certos campos petrolíferos.

Apesar da potencial importância da estocagem no país, verifica-se que os estudos sobre áreas de armazenamento no Brasil ainda são muito escassos, necessitando de incentivos públicos. Nesse cotexto, o papel do Ministério de Minas e Energia e da ANP é crucial tanto na elaboração de pesquisas técnicas e operacionais quanto no estabelecimento de um ambiente regulatório propício aos investimentos em armazenamento geológico.

Nesse caso, outro problema que merece destaque no caso brasileiro é a falta de um arcabouço regulatório bem definido. A lei 11.909, embora tenha regulamentado a atividade de estocagem, deixou vários aspectos regulatórios em aberto, como por exemplo, a questão do livre acesso, a chamada pública para a alocação da capacidade, as regras de concessão da atividade de estocagem e a definição da política tarifária. Nesse sentido, mesmo que estudos geológicos evidenciem potenciais áreas propicias a estocagem de gás natural, os vazios “regulatórios” podem restringir os incentivos ao desenvolvimento da estocagem no Brasil.

Referências Bibliográficas

BEN, 2012

EIA 2012 U.S. Underground Natural Gas Storage Capacity em   http://www.eia.gov/dnav/ng/ng_stor_cap_dcu_nus_a.htm

GORAIEB, C.; IYOMASA, W.; APPI, C.. Estocagem subterrânea de gás natural: tecnologia para suporte ao crescimento do setor de gás natural no Brasil. São Paulo: IPT – Institute of Technological Research of São Paulo, 2005


[1] BEN, 2011

Leia outros textos de Marcelo Colomer no Blog Infopetro

Para ver/fazer comentários sobre esta postagem, clique no retângulo vermelho abaixo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s