Grupo de Economia da Energia

Observatório de geopolítica da energia III: parcerias estratégicas entre Brasil e China nos setores de energia e transportes

In energia on 03/09/2012 at 00:15

Por Amaro Pereira e Renato Queiroz

A China apresentou na última década (2000-2010) um crescimento econômico muito expressivo, passando de 10% ao ano, segundo dados do Banco Mundial. O país, dessa maneira, consolidou-se não somente como uma potência asiática, mas também como um dos principais atores econômicos mundiais.

Tal evolução vem demandando expressivos investimentos, com destaque para a área de infraestrutura com a construção de rodovias, ferrovias, aeroportos e centrais de geração de energia elétrica, tal como a hidrelétrica de Três Gargantas, a maior do mundo, com 18 GW de capacidade. O Brasil, como grande exportador de produtos básicos, como minérios, e semimanufaturados, se beneficiou tanto do desempenho da economia chinesa que se tornou o seu principal  parceiro comercial, superando os EUA.

No entanto,  na última década, o crescimento econômico brasileiro foi bem mais modesto do que o da China, de 3,6% ao ano, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE.  Alguns autores argumentam que os dois países tiveram estágios de grande desenvolvimento econômico em épocas diferentes. Afinal o milagre econômico brasileiro já ocorreu na década de 70.

Deve-se assinalar que o desenvolvimento chinês é suportado principalmente pelos setores de ciência e tecnologia. Os maciços investimentos em educação, principalmente tecnológica, são considerados por especialistas a razão do destaque dos chineses na produção de bens de alta tecnologia, influenciando fortemente as altas taxas de crescimento do PIB. Cabe a ressalva de que esse crescimento foi possível, também, devido a uma combinação de fatores tais como: a evolução da produtividade industrial, o câmbio desvalorizado em relação ao dólar, inovação, financiamento estatal acessível e a forte presença do Estado na economia, conforme destaca Corrêa (2012).

Cumpre ainda destacar que o Brasil também foi favorecido pela alta dos preços das commodities, o que contribuiu para que se tornasse em 2011 a 6ª economia do mundo. Mas o governo brasileiro se deu conta de que, para continuar se beneficiando dos avanços do crescimento chinês, deve intensificar as parcerias tecnológicas, buscando, assim, novas  oportunidades de ampliações comerciais.

Nesse contexto recentemente foram assinados entre China e Brasil acordos no âmbito do Plano Decenal Brasil-China de Cooperação 2012-2021, abrangendo as áreas de tecnologia, inovação, infraestrutura, cooperação espacial, energia e transporte. Os governos ratificaram que a ênfase desse plano está diretamente ligada à inserção internacional adequada dos dois países na economia do conhecimento. No campo acadêmico há também ações pró-ativas na troca de experiências.[1]

Especulando sobre possíveis parcerias entre chineses e brasileiros nas áreas apontadas nesse Plano Decenal de Cooperação e selecionando, por exemplo, os setores de energia e de transportes, a princípio não se percebe muita similaridade entre a China e o Brasil. O primeiro tem uma matriz energética fortemente baseada em carvão mineral, enquanto a do Brasil é predominantemente renovável.

No caso do setor de transportes, ambos têm base rodoviária e apresentam, em grandes cidades, problemas de poluição atmosférica e de mobilidade urbana, porém apostam em tecnologias diferentes para minimizar as emissões. A China não dispõe de fontes para produção de biocombustíveis em larga escala e investe na expansão dos veículos elétricos para reduzir a dependência de petróleo.

Existem, entretanto, algumas complementaridades entre os referidos setores nos dois países que se apresentam como boas oportunidades para ampliação da relação comercial. De acordo com Yan & Crookes (2010), a China possui um potencial hidrelétrico estimado em 542 GW e tem o objetivo de construir 300 GW até 2020.  O Brasil, tendo construído várias centrais hidrelétricas, adquiriu vasta experiência em pesquisas que viabilizam a construção civil de grande porte e  em  estudos hidráulicos em modelos reduzidos, que garantem a segurança e eficiência dos projetos hidrelétricos.  A empresa Eletrobras-Furnas, por exemplo,  implantou  laboratórios de solos e de hidráulica experimental  e vem  prestando serviços para mais de 200 empreendimentos em vários países. Outro laboratório com tradição em serviços técnicos especializados em concreto e solos é o da  Cia Energética de São Paulo – CESP  instalado em Ilha Solteira/SP.

Por sua vez, o Brasil tem reservas de carvão mineral ainda a explorar, ou realizadas com tecnologias obsoletas, poluentes e de pouca eficiência. A mineração do carvão  concentra-se praticamente na região sul do país  e  as minas dessa região são responsáveis por cerca de 99 % das reservas brasileiras de carvão mineral.A China vem adotando uma abordagem sistemática com investimentos em P&D na implantação da  tecnologia de captura e armazenamento de carbono (CCS) proveniente de usinas termelétricas (UTEs) a carvão mineral.

Ora, se o Brasil tem reconhecido know-how em hidrelétricas e a China tem o mesmo em relação às termelétricas a carvão mineral, o aprofundamento na cooperação nestas duas áreas é uma opção que conjuga interesses. Ressalte-se que a ANEEL, através de sua  Instrução normativa 500 de 17 de julho de 2012, poderá motivar um aumento no esforço exploratório para uma maior participação de usinas térmicas a carvão na  matriz energética brasileira[2].

No campo das energias renováveis a parceria entre os dois países pode render progressos importantes e acelerar o processo de aprendizado tecnológico. Embora a China seja um dos países que mais polui o planeta,  investe fortemente nas tecnologias de renováveis. A Agência Internacional de Energia (AIE) tem divulgado que os chineses crescerão em cerca de  40 %  a produção de energia renovável até 2017, focando em fazendas eólicas e parques solares. A própria AIE divulgou que dos 10 principais fabricantes mundiais de módulos fotovoltaicos 7 são chineses. E ainda a China tem fabricantes que já se colocam nas primeiras posições no ranking mundial de equipamentos eólicos.

No caso do setor de transportes, conforme citado acima, há similaridades nos problemas nos dois países mas buscam soluções diferentes (carro elétrico versus o carro movido a biocombustíveis), visando dispor suas matrizes de transporte com tecnologias mais sustentáveis. Uma possibilidade seria o estabelecimento de uma linha de pesquisa em parceria que atendesse às necessidades de ambos. Um exemplo seria o desenvolvimento de um veículo híbrido que tivesse um motor de combustão interna que funcionasse como um carro flex. Ou seja, um veículo equipado com motor a combustão a etanol e gasolina e energia elétrica alimentada por baterias adicionais.

Resumindo, a China adotou como modelo de desenvolvimento a criação de joint-ventures de maneira a atrair investimentos externos, absorvendo tecnologias. No caso de uma cooperação entre os dois países, o Brasil poderia adotar esse modelo para o desenvolvimento de novas tecnologias de geração a carvão mineral (clean coal technologies) e a China poderia seguir a mesma direção absorvendo experiências em relação à construção de plantas hidrelétricas.

O mesmo caminho poderia ocorrer na indústria da geração através de renováveis. Aliás a geradora estatal Furnas tem anunciado o interesse  em um projeto, em parceria com a chinesa Three Gorges, de geração de energia eólica offshore com capacidade de 200 MW na China. Mas não há notícias de interesse nem da China nem do Brasil em constituir uma joint-venture para fabricação de equipamentos de geração renovável entre empresas brasileiras e chinesas.

No que diz respeito ao setor de transporte, a colaboração poderia se dar também de maneira conjunta passando da fase de acordos para ações concretas de parcerias tecnológicas.

A concretização de joint venture internacional traz desafios  impostos por uma série de fatores, que vão desde questões voltadas aos assuntos institucionais, diferenças culturais que se refletem na maneira de negociar, até nas  ameaças associadas ao ambiente competitivo. Mas o Brasil já vem avançando em projetos conjuntos com a China. A Embraer tem parceria com empresas chinesas desde 2002. E no mês de julho deste ano assinou um acordo com a AVIC- Aviation Industry Corporation of China para fabricação de jatos executivos Legacy 600/650,[3] na China.

O setor de energia e de transporte poderiam embarcar na experiência da Embraer  traçando novas relações técnicas e comercias com o dragão chinês. São parcerias estratégicas que têm,inclusive, um caráter de importância geopolítica, capazes até de aprofundar os rumos das relações entre China e Brasil. Afinal, estudiosos em China afirmam que houve uma mudança de atitude do governo chinês em relação ao Brasil e agora não se trata apenas de  uma sinalização meramente retórica para fazer parcerias como anteriormente.

Referência Bibliográficas

CORRÊA, A. P. (2012). Segurança energética da China, um estudo das relações entre estado e mercado com foco na indústria do petróleo e gás natural no período de 1978 a 2010. Tese de Doutorado, IE-UFRJ.

YAN, X., CROOKES, R. J. (2010). Energy demand and emissions from road transportation vehicles in China. Progress in Energy and Combustion Science, 36(6), 651-676. Elsevier Ltd. doi:10.1016/j.pecs.2010.02.003.

Revista de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação-APOEMA-Artigo: Excelência Tecnológica das Empresas Elétricas- 5ª edição- Ano 3- dez 2011 disponível em www.furnas.com.br acessado em 01/08/2012. 


[1]  O Programa de Pós-Graduação de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe-UFRJ) e a Universidade de Tsinghua firmaram parceria para  incentivar o desenvolvimento de tecnologias em energia renovável nos 2 países. A Universidade Federal Fluminense e a Universidade de Línguas Estrangeiras de Dalian, China, assinaram também acordo de parceria, visando intercâmbios de dados e informações.

[2] A instrução  define o reembolso até 100 % da despesa com recursos da Conta de Desenvolvimento Energético- CDE dos custos de consumo de carvão mineral brasileiro em geração termelétrica.

[3]  A infraestrutura, recursos financeiros e mão-de-obra serão da joint venture Harbin Embraer Aircraft Industry (Heai), que iniciou operações em 2002. O primeiro avião deve estar pronto no final de 2013.

Leia outros textos de Renato Queiroz no Blog Infopetro

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