Grupo de Economia da Energia

Os leilões de energia elétrica e a descentralização da geração

In energia elétrica, energia solar on 03/12/2012 at 00:15

Por Clarice Ferraz

clarice122012No último dia 30 de novembro, em informe à imprensa, a EPE apresentou os empreendimentos habilitados para participar do Leilão de Energia A-5 que será realizado no próximo dia 14 de dezembro.

A análise dos empreendimentos habilitados, apresentados na tabela abaixo, revela a predominância da energia eólica, confirmando a complexificação de parque gerador elétrico brasileiro, apresentada em postagem anterior. Além da predominância de uma só fonte, intermitente – dos 14.181 MW ofertados, 11.879 são de energia eólica -, também é marcante a concentração regional da expansão: 80% da geração eólica se situa na região Nordeste.

Tabela 1: Empreendimentos habilitados para o leilão A-5 de 14 de dezembro 2012:

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Fonte: EPE, Informe à Imprensa, 30/11/2012

De acordo com Plano Decenal de expansão 2021 da EPE, a capacidade instalada do sistema deverá crescer 57% até 2021. Entretanto, a capacidade de armazenamento dos reservatórios deverá crescer apenas 5 %, como revela a figura abaixo. 

Figura 2: Evolução da capacidade de armazenamento do SIN:

clarice122012b

Fonte: EPE, PDE 2021:81

Com a perda da capacidade de regularização de seus reservatórios, o sistema elétrico precisará fatalmente de novas fontes de back up e/ou de importante expansão das linhas de transmissão e distribuição para facilitar o intercâmbio de eletricidade entre diferentes submercados. É preocupante a ausência de planejamento para a adequação do sistema elétrico face às importantes mudanças de seu perfil que se anunciam. Nenhuma alteração foi incorporada ao modelo e os programas de controle de demanda e integração da microgeração permanecem como temas marginais nas discussões do setor.

A análise de tal cenário nos leva a pensar que em breve o Brasil estará enfrentando sérios desequilíbrios de preços e que o seu modelo de setor elétrico merece ser reavaliado. Os recentes black outs e o despacho das usinas térmicas do Nordeste com CVU superior a R$ 900,00 – fora da ordem do mérito para que os níveis críticos dos reservatórios não fossem atingidos, pode se repetir com mais frequência, comprometendo o objetivo de modicidade tarifária que o governo vem se empenhando em alcançar. Assim, é preciso se pensar se o modelo atual, com sistema de leilões em vigor, sem sinais locacionais, continua sendo um instrumento adequado para a expansão da geração no país.

Do lado do consumidor também se deve agir. Além da importância da incitação à eficiência energética, salientada no post de Gustavo Haydt, a expansão da microgeração representa uma alternativa interessante para colaborar com a redução da curva de carga e diminuir a necessidade de investimentos na geração, transporte e distribuição do sistema elétrico integrado brasileiro. O setor residencial já é responsável por cerca de 26% do consumo de eletricidade do país e pode contribuir de maneira importante (EPE, PDE:38). Se somarmos ao setor residencial, o setor púbico e o comercial, existe um grande potencial para a microgeração, em particular através da instalação de sistemas fotovoltaicos. Além do aumento da produção de eletricidade produzida de maneira descentralizada, é importante salientar que em países onde houve o desenvolvimento da microgeração, os consumidores passaram a preocupar mais com seu consumo de eletricidade.

No Brasil, o tema como dito anteriormente, recebe pouca atenção. Em 19 abril de 2012, a ANEEL editou a Resolução Normativa n°482, regulando o acesso de microgeração e minigeração distribuída aos sistemas de distribuição de energia elétrica e o sistema de compensação de energia elétrica. As distribuidoras obtiveram um prazo de 240 dias para publicar as normas de integração à rede e atender às solicitações de acesso para micro e minigeradores de eletricidade. Após ter recebido destaque como o início do mercado para a disseminação da tecnologia solar fotovoltaica, agora que o prazo para as distribuidoras se pronunciarem sobre como será realizada a integração da micro e minigeração se aproxima, pouco tem se falado a respeito. Recentemente, a Abradee, representante das distribuidoras, pediu adiamento desse prazo mas a ANEEL por enquanto tem resistido à pressão. Assim, se os prazos inicias forem respeitados, em março de 2013 poderá haver a operação integrada à rede da micro e minigeração. A partir desse momento, com a instalação dos medidores para controlar as quantidades de eletricidade consumida e injetada na rede do distribuidor, novas iniciativas de diferenciação de tarifas por horário de consumo poderão ser mais facilmente implementadas.

Após a edição da Medida Provisória 579 (11/09/2012), e o anúncio da redução das tarifas de eletricidade da ordem de 20%, chegou-se a pensar que eletricidade de origem fotovoltaica perderia sua paridade tarifaria com os preços de eletricidade cobrados pelas distribuidoras. Entretanto, com a entrada em operação das centrais termelétricas, cujos custos serão distribuídos pelos consumidores, e a provável repetição desse cenário nos próximos anos, a energia solar fotovoltaica deverá permanecer competitiva.

Leia outros textos de Clarice Ferraz no Blog Infopetro

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  1. A nossa política energética dá um passo para frente e dois para trás. Co o aumento da geração eólica a dependência do Back up aumenta, e isto numa região em que já é pouca a reservação (região nordeste). Vamos ter que gastar rios de dinheiro em linhas de transmissão simplesmente porque as exigências ambientais para implantar uma Usina Hidrelétrica são demoradas na definição.
    Nosso problema não é a preservação do meio ambiente, isto ninguém nega, porém demorar quatro a cinco anos para dizer que a obra está aprovada levará a corrida para as eólicas, até o momento que se forrem achadas restrições ambientais a mesmas (mortes de morcegos e aves migratórias e problemas de infra-som), aí além de termos uma energia cara teremos apagões constantes.

  2. Muito bom trabalho. Merece uma maior divulgação.
    Parabens

  3. Prezada Clarice, parabéns pela discussão sobre um assunto tão importante.

    Também existe a hipótese de aumentar ainda mais a capacidade de geração para compensar a queda na capacidade de estocagem conforme descrito no estudo da Universidade de Delaware abaixo mencionado:

    Renovável e constante

    As energias renováveis poderão suprir as necessidades mundiais de energia elétrica em 99,9% do tempo, até o ano de 2030.

    E tudo isto a custos comparáveis aos gastos atuais com eletricidade.

    A conclusão é de Cory Budischak e Willett Kempton, da Universidade de Delaware, nos Estados Unidos.

    Segundo eles, as críticas sobre a inconstância das fontes de energia solar e eólica não se fundamentam se o assunto for abordado da perspectiva correta – do ponto de vista dos custos.

    Custos das energias renováveis

    Os pesquisadores desenvolveram um modelo focado na minimização dos custos de geração da eletricidade, em lugar da abordagem tradicional que busca equilibrar a geração e o consumo de eletricidade.

    A conclusão é que gerar mais eletricidade do que o necessário durante os “horários médios” – os horários que não são de pico -, a fim de atender as necessidades dos horários de pico de demanda, sai mais barato do que armazenar energia para usar nos momentos de demanda mais alta.

    Isto permitiu reduzir muito a necessidade de sistemas de armazenamento, como baterias e tanques de hidrogênio, que são muito caros.

    “Esses resultados quebram o saber convencional de que a energia renovável não é confiável e é cara,” comentou Kempton. “A chave é obter a combinação correta de fontes de eletricidade e armazenamento e calcular os custos corretamente.

    Uma combinação correta que não foi nada fácil de encontrar.

    Bilhões de combinações

    O modelo computadorizado que os pesquisadores elaboraram testou nada menos do que 28 bilhões de combinações de fontes de energias renováveis e sistemas de armazenamento, cada uma delas avaliadas para um período de quatro anos de dados históricos de oferta e demanda de energia.

    Os pesquisadores afirmam que uma combinação adequada de energia eólica, energia solar e armazenamento em baterias e células a combustível é capaz de atender à demanda de eletricidade na quase totalidade do tempo, sem qualquer aumento significativo nos custos da energia.

    “Por exemplo, usando hidrogênio para armazenamento, nós podemos fazer funcionar um sistema elétrico que hoje atende uma demanda de 72 GW, durante 99,9% do tempo, usando 17 GW de energia solar, 68 GW de energia eólica com turbinas no mar e 115 GW de energia eólica com turbinas em terra,” disse Budischak.

    Um outro modelo, um pouco mais arrojado, concluiu recentemente que apenas a energia eólica seria suficiente para atender a todas as demandas de eletricidade do mundo em 2030.
    Bibliografia:

    Cost-minimized combinations of wind power, solar power and electrochemical storage, powering the grid up to 99.9% of the time
    Cory Budischak, DeAnna Sewell, Heather Thomson, Leon Mach, Dana E. Veron, Willett Kempton
    Journal of Power Sources
    Vol.: 225, 1 March 2013, Pages 60-74
    DOI: 10.1016/j.jpowsour.2012.09.054

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