Grupo de Economia da Energia

Oferta apertada de etanol e perspectivas de importação de gasolina

In etanol, gasolina on 10/12/2012 at 01:31

Por Luciano Losekann

luciano122012Nos últimos dez anos, a balança comercial brasileira de gasolina sofreu uma inversão (figura 1).  Com a introdução do carro flex e quando os preços do etanol eram competitivos, o país produziu excedentes significativos de gasolina para colocação no mercado internacional até 2009. Em 2007, as exportações líquidas de gasolina alcançaram 3,7 bilhões de litros. Valor que não era observado desde o final da década de 1980, quando os automóveis a etanol eram dominantes no Brasil.

Nos últimos três anos, a situação se transformou radicalmente. O etanol pouco competitivo fez o consumo de gasolina disparar. Em 2011, foram importados 1,9 bilhões de litros de gasolina e, em 2012, as importações líquidas atingiram 2,8 bilhões de litros até o mês de outubro.  Segundo nossas estimativas, 11% da gasolina consumida será importada. O Brasil não importava montantes tão significativos de gasolina desde a década de 1970.

Figura 1 – Exportações Líquidas de Gasolina A – Bilhões de litros (2003-2012)

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* O dado de 2012 corresponde ao acumulado até outubro.

Fonte: ANP

Para entender essa inversão é fundamental analisar a dinâmica recente do mercado de combustíveis automotivos e a competição entre etanol e gasolina. O consumo de combustíveis automotivos no Brasil cresceu de forma continuada na última década a uma taxa média de 6% ao ano (figura 2). Essa trajetória foi determinada em larga medida pelo crescimento explosivo da venda de automóveis, com correspondente crescimento da frota. Os automóveis flexíveis, que representam 90% das vendas totais já correspondem à metade da frota total. Assim, o consumo de combustíveis é atualmente bastante sensível a variações de preço.

As restrições de oferta de etanol desde 2010 implicaram em preços elevados do combustível. Durante esse período, o preço médio do etanol hidratado no Brasil foi superior a 0,7 vezes o preço da gasolina, que é o patamar de competitividade, na maior parte dos meses (figura 3). O consumo de gasolina C cresceu em média 16% ao ano, enquanto que o consumo de etanol hidratado decresceu na mesma taxa.

Figura 2 – Consumo de Gasolina C e Etanol Hidratado (em bilhões de litros equivalentes de gasolina)

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Fonte: ANP

Figura 3 – Preço relativo do etanol hidratado (razão preço etanol/preço gasolina C)

 luciano122012c

Fonte: ANP

Nessa postagem, é analisada a necessidade futura de importação de gasolina se a situação de abastecimento de etanol permanece apertada, sendo pouco competitivo em relação à gasolina. Para tanto, foi utilizado o modelo de projeção do consumo de combustíveis desenvolvido pelo GEE e que foi tema de três postagens do blog Infopetro (Automóveis flex fuel: entendendo a escolha de combustível, Estimação da frota brasileira de automóveis flex e a nova dinâmica do consumo de etanol no Brasil a partir de 2003 e Frota brasileira de veículos leves: difusão dos flexíveis e do GNV). Foram consideradas as seguintes hipóteses para o mercado de etanol: (i) os preços relativos observados no ano de 2012 irão se repetir nos próximos cinco anos e (ii) porcentagem de mistura de etanol anidro na gasolina também foi mantida no nível atual (20%).

Ainda que essas hipóteses possam ser consideradas irreais, o exercício proposto é a analisar o mercado de combustíveis, caso o panorama atual do etanol permaneça inalterado.

Consideramos um crescimento médio do PIB de 4,5% ao ano, que implicará em um crescimento médio do consumo de combustíveis automotivos de 4,2% a.a. A necessidade de importação foi calculada a partir da diferença entre o consumo de gasolina C (descontado, portanto, o etanol anidro) e a produção doméstica. A produção doméstica de gasolina foi estimada a partir da capacidade de refino, considerando o perfil de produção de derivados atual. Assim, a capacidade atual de produção de gasolina foi estimada em 2,3 bilhões de litros ao mês. Foram consideradas as expansões do parque do refino, ainda que seu efeito sobre a capacidade de produção de gasolina seja limitado, pois as expansões em curso são orientadas para a produção de diesel.

Segundo as projeções, o consumo de gasolina A no Brasil totalizará 35,4 bilhões de litros em 2017.  Desse total, 6,9 bilhões de litros serão importados (figura 4). Ou seja, o Brasil importaria quase 20% da gasolina consumida no país. Além de gerar dificuldades logísticas, esse volume de importações teria um impacto negativo na balança comercial brasileira de US$ 5,4 bilhões, o que representa um quarto do superávit comercial brasileiro previsto para 2012.

Figura 4 – Projeção do Consumo e das Importações Líquidas de Gasolina A

 luciano122012d

Fonte: Elaboração própria

Essas projeções são bastante distintas daquelas constantes no Plano Decenal de Energia 2021 da EPE. No plano, o consumo de gasolina A se reduziria nos próximos cinco anos e o Brasil retornaria a exportar excedentes do combustível.

A diferença substancial entre as projeções da EPE e as que são apresentadas aqui é o comportamento da oferta de etanol. A proposta dessa postagem não é analisar a perspectiva de oferta de etanol e sim verificar o impacto da continuidade da situação de restrição enfrentada atualmente. Os resultados indicam que para evitar depender da recuperação da oferta de etanol para equilibrar o mercado de combustíveis automotivos, é premente a atuação das autoridades para a ampliação da capacidade de produção doméstica de gasolina.

Leia outros textos de Luciano Losekann no Blog Infopetro

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