Grupo de Economia da Energia

O futuro dos biocombustíveis XVI – Perfis de empresas e as diferentes perspectivas em relação à bioeconomia

In biocombustíveis on 08/04/2013 at 00:15

Por José Vitor Bomtempo

vitor042013Na nossa série sobre o futuro dos biocombustíveis esteve sempre presente uma premissa de base: a indústria baseada em biomassa  é  um setor ainda não estruturado, com características de indústria emergente.  Nos artigos anteriores abordamos em diversas oportunidades as estratégias de diferentes empresas em biocombustíveis ou em bioprodutos, como Shell, BP, Petrobras, Braskem e Amyris.

Nesta postagem retomamos esse universo diversificado de empresas que têm se envolvido na bioeconomia e discutimos como os diferentes perfis de empresas apresentam diferentes perspectivas em relação ao desenvolvimento e estruturação da indústria. A caracterização desses diferentes perfis, das competências que cada um detém e das competências que  faltam a cada um pode ajudar a entender a dinâmica da indústria e do processo de estruturação em curso. Qual o papel dos diferentes atores na estruturação da indústria?

A estruturação da oferta da indústria biobased depende da evolução, ainda em curso, de um conjunto de variáveis. Esse processo evolutivo busca encontrar respostas aos múltiplos problemas a serem superados para viabilizar e consolidar comercialmente as oportunidades identificadas. Podemos considerar que essas soluções dependem de quatro espaços de estruturação que são, com efeito, espaços de inovações interdependentes. A estruturação da oferta do setor depende da dinâmica de inovação em:

  1. Matérias-primas;
  2. Tecnologias de conversão da biomassa;
  3. Produtos;
  4. Modelos de negócio e estratégias.

Neste artigo vamos discutir a diversidade de empresas envolvidas que se dedicam à construção dos modelos de negócios e das estratégias que vão moldar a indústria do futuro.

Atuando nos espaços de estruturação estudados – matérias-primas, tecnologias de conversão e produtos – pode ser identificado um conjunto variado de empresas de portes, origens e bases de conhecimento diferentes. A variedade do perfil das empresas envolvidas é notável. Destacam-se as empresas que justificam a sua presença no setor biobased com o conhecimento tecnológico de base: empresas de biotecnologia, com experiência anterior em outras indústrias, como a farmacêutica, ou criadas diretamente para atuar na bioeconomia, ao lado de startups com bases de conhecimento em química e engenharia química. Alguns exemplos notáveis: Genomatica, Solazyme, LanzaTech, Gevo, Amyris, Renmatix, Kior,  entre muitas outras

Um grupo expressivo é formado pelas empresas da indústria química. Identificam-se empresas cujo processo de transformação da base produtiva já incorpora em boa medida a biotecnologia e as matérias-primas renováveis como foco estratégico (DuPont e DSM) ao lado de empresas identificadas com a indústria química/petroquímica (Braskem, Dow, BASF, Solvay, Lanxess). É notável que uma empresa como a Dow Química, líder em diversos mercados da química e petroquímica, seja hoje plantadora de cana e produtora de etanol no Brasil.

O setor de produtos químicos renováveis tem atraído ainda empresas identificadas com ingredientes para a indústria de alimentos (Purac, Roquette, Tate & Lyle) e empresas do agronegócio (ADM, Bunge, Cargill). Devem ser destacadas ainda as empresas de petróleo e gás que, voltadas principalmente para os biocombustíveis, têm construído negócios importantes no processamento industrial de biomassa, muitas vezes em associação com startups ou com empresas químicas. É o caso notadamente de Shell, BP, Total, Neste Oil e Petrobras.

Para discutir as formas de participação desses diferentes perfis de competidores é importante distinguir as diferentes perspectivas que têm em relação ao setor, as competências que aportam ao setor e as competências que buscam em outros atores para viabilizarem seus negócios. O quadro abaixo compara os principais perfis de empresas envolvidas no setor em relação às suas competências chave, competências complementares, fontes de recursos, importância do setor para a empresa e reciprocamente importância das iniciativas da empresa para o desenvolvimento do setor.

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As competências chave dos diferentes perfis de competidores e as correspondentes competências complementares, não detidas pelos players, mas indispensáveis para o desenvolvimento, produção e comercialização dos produtos inovadores, reforçam a dimensão ainda não estruturada da indústria. Assim, se as tecnologias mais inovadoras têm surgido a partir das startups de base tecnológica, o acesso e a estruturação da cadeia de suprimento de matérias-primas, o scale up dessas tecnologias, a produção em escala e a comercialização dos produtos depende na maioria dos casos de competências detidas por empresas estabelecidas. Algumas dessas empresas – por exemplo, as empresas químicas e as empresas de petróleo e gás – detém competências e ativos complementares específicos necessários para desenvolver a produção comercial em escala, estabelecer relações com as indústrias utilizadoras (end users), desenvolver aplicações comerciais dos novos produtos e canais de distribuição para ter acesso aos consumidores. Outras empresas, como as do agronegócio, trazem como competência chave o acesso à matéria prima e a logística de estruturação da cadeia de suprimento de biomassa. Os movimentos da Dow, BP e Shell (via Raízen) ao se aproximarem da atividade canavieira ilustram a busca de uma competência complementar às capacitações que trazem de suas indústrias de origem.

As empresas diferem ainda na natureza dos recursos a que têm acesso e que utilizam em geral para financiar os seus desenvolvimentos na bioeconomia. As startups têm como recurso inicial o acesso a financiamentos públicos, em geral na forma de grants. Nessa fase inicial, podem ser apoiados por investidores de risco. A oferta pública de ações (IPO) tem sido usada por algumas empresas ainda na fase de escalonamento das tecnologias para tentar ampliar seus recursos. A busca de financiamentos específicos para produção comercial (formas convencionais de financiamento à indústria) passa a ser foco das empresas na etapa de comercialização. Outra fonte de recursos pode ser a associação com empresas estabelecidas, em geral detentoras também de competências complementares. As empresas das indústrias estabelecidas – química, petroquímica, alimentos, agronegócio, petróleo e gás – tendem a utilizar recursos próprios nas etapas de exploração inicial das oportunidades, sem exclusão das fontes públicas. Possuem, como empresas estabelecidas em suas respectivas indústrias, formas estruturadas e bem desenvolvidas de acesso a recursos e financimentos.

Uma dimensão ainda abordada no quadro acima e pouco considerada nos estudos sobre indústrias emergentes com grande variedade de perfis de empresas é a da importância relativa do novo setor para as empresas envolvidas. Para as start ups, a única oportunidade de sobrevivência e crescimento é quase sempre a nova indústria emergente. Assim, o desenvolvimento da indústria é crítico para o desenvolvimento de cada nova empresa criada. Em contrapartida, a quase inevitável morte de algumas dessas start ups pouco afeta o sucesso da indústria como um todo. Constitui até mesmo um processo natural de seleção e definição dos conceitos dominantes.

As grandes empresas de petróleo e gás têm orçamento de investimentos em seus negócios centrais extraordinariamente mais elevados do que os recursos que aplicam em biocombustíveis. Entretanto, para o volume de investimentos e necessidades de desenvolvimento dessa indústria, as iniciativas das empresas de petróleo têm peso significativo tanto no aporte de recursos quanto nas competências para difusão dos conceitos inovadores. Situação semelhante pode ser identificada no papel dos grandes grupos do agronegócio.

No caso das indústrias química, petroquímica e de alimentos, a importância da bioeconomia para as empresas é bastante variável e depende fortemente do planejamento estratégico de cada uma. DuPont é um exemplo de empresa química que estabeleceu há mais de 10 anos metas claras e explícitas de adotar a biotecnologia e as matérias-primas renováveis como base do seu crescimento no século XXI. Outras empresas químicas têm desenvolvido linhas crescentes de atuação em química renovável mas sem tirar o foco principal das linhas convencionais de produtos.

O problema da pequena importância dos novos negócios para o portfólio das grandes empresas pode ser o da inconstância. Os esforços e recursos alocados na nova indústria podem ser interrompidos ou descontinuados sem grandes dificuldades, se as perspectivas do negócio assim sugerirem. Em outras palavras, esses recursos podem ser relativamente impacientes e as decisões serem revertidas.

No ambiente competitivo do setor, essas relações de complementaridade identificadas no quadro acima têm levado a numerosas associações entre empresas. A gestão de espaços de estruturação complexos como matérias-primas, tecnologias de conversão e produtos, torna quase impossível a navegação isolada no ambiente em construção da indústria da biomassa. As associações são naturais e possivelmente crescentes à medida que a estruturação da cadeia produtiva da indústria biobased evolui e adquire contornos mais estáveis.

Essas são as duas consequências mais importantes dessa diversidade de perfis de empresas envolvidas na construção da bioindústria do futuro: a natural associação de empresas com perfis complementares e a inevitável tensão gerada pelo envolvimento em graus diferentes de cada uma delas. As políticas e estratégias deveriam refletir sobre esses pontos em suas escolhas.

Leia outros textos de José Vitor Bomtempo no Blog Infopetro

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