Grupo de Economia da Energia

A produção iraquiana de hidrocarbonetos e as suas perspectivas de expansão

In gás natural, petróleo on 13/05/2013 at 00:15

Por Felipe Imperiano

imperiano052013O Iraque, historicamente, é um player importante na indústria mundial de petróleo. Ele foi membro fundador da OPEP e um dos primeiros a nacionalizar suas reservas, em 1961. Adicionalmente, a sua política de exportação de petróleo foi, por mais de 30 anos, elemento chave na formação do preço e oferta mundiais.

O país tem a quinta maior reserva provada de petróleo e a décima terceira de gás natural e bom potencial para novas descobertas (IEA, 2012). Especialistas estimam que, com a retomada dos investimentos, as reservas provadas iraquianas poderiam rapidamente atingir cerca de 200 bilhões de barris[i]. Só em 2011, as reservas provadas de petróleo e gás cresceram respectivamente 24,4% e 13,1% (BP, 2012). Isso marca um contraponto com as décadas de 1990 e 2000, como pode ser visto no Gráfico 1, quando as reservas provadas de petróleo e gás se mantiveram relativamente estáveis em virtude de baixos investimentos, conflitos armados e sanções econômicas. 

Gráfico 1: Reservas provadas de petróleo e gás iraquianas entre 1980 e 2011

imperiano052013a

Fonte: Elaboração própria a partir dos dados da (BP, 2012)

Todas as reservas iraquianas são onshore. Comparado com outras regiões produtoras mundiais, a geologia iraquiana é relativamente simples e seus custos são bem inferiores, o que traz grandes economias de escala para a produção no país (IEA, 2012). O CAPEX de um projeto de desenvolvimento de um novo super campo no Iraque é entre 81% e 86% menor do que o de um campo no Pré-Sal, enquanto o OPEX pode ser até 100% inferior, por exemplo (IEA, 2012).

Cerca de 75% das reservas provadas de gás estão em reservatórios associados, sendo concentrados na região sul do país (IAE, 2012).  Em decorrência dos ganhos mais altos com petróleo e da falta de infraestrutura adequada, em 2008, mais de 40% da produção foi queimada, entretanto a Shell estima que essa queima tenha sido ainda maior, sendo desperdiçado mais de 1 bcf/dia (EIA, 2012). Em 2011, esse percentual subiu para 60% (IEA, 2012). Dada a elevada participação do petróleo na matriz energética iraquiana, o gás tem ganhado maior importância para a geração elétrica à medida que a demanda interna por energia tem crescido (IEA, 2012), assim o governo tem feito esforços para diminuir a queima do gás, como se juntar ao Global Gas Flaring Partnership do Banco Mundial (IEA, 2012) e tem trabalhado em um acordo com a Shell, a fim de implementar um projeto de redução da queima de gás e ofertá-lo internamente (EIA, 2012).

No momento atual, o país ainda se encontra bastante dividido em termos políticos e étnicos, o que acentua a sua instabilidade. Os conflitos entre as três etnias que compõe a população do país – a saber, Xiita, Sunita e Curda – geram não apenas riscos econômicos, como também contratuais. Legalmente, a exploração de recursos energéticos é feita por contratos de serviços técnicos[ii], nos quais a remuneração paga ao prestador de serviço é uma taxa por barril de óleo produzido. Nessa modalidade, a parcela de 25% do consórcio cabe a uma das estatais iraquianas. Ao mesmo tempo, o governo da região semi autônoma do Curdistão utiliza contratos de partilha da produção, onde o retorno depende do valor do óleo ou do gás produzido (IEA, 2012). Esses contratos são contestados pelo governo central.

A produção de petróleo, ao longo das últimas três décadas, sofreu quedas abruptas em decorrência das guerras que o país enfrentou: primeiro, com o Irã e, posteriormente, com os Estados Unidos. A partir de 2006, a produção de petróleo aumentou constantemente. Em 2011, houve um crescimento de 12,8%, ou seja, 2,8 milhões de barris por dia (mb/d), atingindo o máximo desde o início da guerra, contudo ainda não se alcançou o seu pico histórico de 3,5 mb/d, ocorrido em 1979 (BP, 2012), como se observa no Gráfico 2 abaixo. Isso mostra que há um potencial substancial para expansão da produção. Em setembro de 2012, a produção média foi de 3,235 mb/d, (PLATTS, 2013a), mas, já em Outubro, a produção caiu 200 mil b/d (kb/d) (PLATTS, 2013). A Platts estimou que a produção, em Dezembro, sofreu uma forte queda para 2,89 mb/d, isto é, aproximadamente 11% menor do que Setembro. Entretanto, a produção dá sinais de recuperação. Em Fevereiro de 2013, foi registrado 2,96 mb/d (PLATTS, 2013a). Assim, pode-se constatar uma oscilação significativa na produção iraquiana.

 Gráfico 2: Produção iraquiana de petróleo entre 1965 e 2011

imperiano052013b

Fonte: Elaboração própria a partir dos dados da (BP, 2012)

O downstream iraquiano também sofre com a falta de investimentos, o que acarreta na inadequação do perfil de produção das refinarias em relação ao consumo do país. O óleo combustível representa 45% dos derivados de petróleo produzidos internamente, mais do que suficiente para abastecer o mercado nacional, gerando um excesso do produto que não tem uso domestico, nem possibilidade de exportação. Desse modo, em 2011, foram adicionados 150 kb/d de óleo combustível ao petróleo exportado, baixando tanto o seu preço, quanto a sua qualidade. Do total de derivados, menos de 15% é de gasolina, assim gerando uma necessidade de importação de 8,5 milhões de litros de gasolina por dia. Igualmente, outros 2,6 milhões de litros de diesel foram importados (IEA, 2012).

A maior parte das exportações ocorre por navios, através da região sul do país, entretanto a sua extensão costeira é de apenas 58 km e só há dois canais de acesso suficientemente profundos para a navegação de grandes navios, sendo que um deles é o estuário de Khor Abdullah, que dá acesso ao porto de Umm Qasr e é fronteiriço com o Kuwait, fazendo dele um ponto de conflito histórico entre os dois países. Uma parcela menor é exportada por um oleoduto ao Norte, através do território curdo, para a Turquia.

 Figura 1: Campos de óleo e gás e infraestrutura do sul do Iraque

imperiano052013c

 Fonte: (IEA, 2012)

A infraestrutura do setor energético está em más condições de uso e é inadequada quanto à capacidade. A fim de evitar a limitação do potencial de produção de novos campos, há que se ter um planejamento integrado dos projetos (IEA, 2012).

Em termos de volume, o país é o terceiro maior exportador de petróleo, atrás somente de Arábia Saudita e Rússia. As exportações de fevereiro desse ano se recuperaram da queda que sofreram em novembro do ano passado, atingindo 2,54 mb/d, isto é, 177 kb/d a mais que em janeiro e apenas 78 kb/d a menos do que a média entre setembro e novembro de 2012, que foi de 2,62 mb/d, a maior desde o início de 1990, antes da invasão iraquiana ao Kuwait (PLATTS, 2013a). Cabe ressaltar que as exportações da região curda por oleoduto foi interrompida em meados de dezembro devido a desentendimentos com o governo central sobre pagamentos de petróleo, ou seja, não houve contribuição da região para o aumento das exportações. Em novembro de 2012, a província curda foi responsável por 152 kb/d em exportações, o maior volume exportado pela região até hoje (PLATTS, 2013a).

O aumento da demanda energética na Ásia tem feito com que cada vez mais a produção seja direcionada para essa região, especialmente para China, Índia e Coréia do Sul (EIA, 2012). A parcela do óleo destinada para o mercado asiático cresceu de 32%, em 2008, para 52%, em 2011, e a América do Norte e a Europa perderam participação nas exportações no mesmo período, caindo para 26% e 22%, respectivamente, como mostra a Figura 2. 

Figura 2: Exportações iraquianas por região

imperiano052013d

Fonte: (IEA, 2012)

Perspectivas de Retomada da Produção e Possíveis Impactos sobre os Preços Internacionais

No curto prazo, a IEA espera que a ampliação da oferta nos países que não fazem parte a OPEP seja suficiente para fazer frente aos incrementos da demanda global, entretanto a produção nesses países deve começar a cair em meados do decênio de 2020, exigindo crescimento substancial na produção dos países da OPEP para os anos seguintes, como se vê na Figura 3.

Figura 3: Crescimento da produção de petróleo nos países da OPEP e não-OPEP

imperiano052013e

Fonte: (IEA, 2012)

Para a IEA, o Iraque será o principal provedor de oferta adicional de óleo para as próximas décadas, ultrapassando a Rússia e se tornando o segundo maior exportador de petróleo por volta de 2030. Nessa condição, não só o contexto interno como também o do mercado internacional são fundamentais para avaliar as perspectivas de produção iraquianas, assim as exportações futuras iraquianas devem continuar a se voltar para o mercado asiático, onde a agência projeta que se dará a maior expansão da demanda, ao passo que a demanda europeia por óleo importado cairia a uma taxa de 1% ao ano e na América do Norte ainda mais rapidamente, em virtude do aumento da produção interna.

No Cenário Central[iii] projetado pela agência, a produção iraquiana continuará crescendo consistentemente e de maneira mais forte a partir de 2015 até o início dos anos 2020, para, então, aumentar de modo mais gradual. Até 2015, grande parte da produção adicional seria absorvida pelo mercado interno, principalmente para a geração de energia elétrica, todavia isso mudaria na media em que maiores volumes de gás natural fossem ofertados. É esperado que as exportações cresçam 43,2%, entre 2020 e 2035, como mostra a Tabela 1 abaixo. Desse modo, as exportações resultariam, até 2035, em US$ 5 trilhões em receitas para o Iraque.

Tabela 1: Projeção das exportações iraquianas no Cenário Central da IEA (em mb/d)

2020

2025

2035

4,4

5,2

6,3

Fonte: (IEA, 2012)

No cenário mais favorável, High Case, a produção, em 2020, seria superior a 9 mb/d, e as exportações maiores que 7 mb/d, ficando acima de 4 mb/d já em 2015; portanto, o preço internacional do petróleo seria em torno de US$ 115, em 2020, e ficando próximo a esse nível, em 2035. Em face de preços menores, o consumo internacional aumentaria ligeiramente para 101 mb/d.

No Delayed Case, com um crescimento mais lento do que o esperado, a produção iraquiana atingirá 5,3mb/d apenas, em 2035, ou seja, 36,1% inferior ao Cenário Central, acarretando em consideráveis restrições no mercado de petróleo e, conseqüentemente, no aumento de preços e na sua maior volatilidade. Isso significaria um aumento percentual nos preços do óleo de 3%, em 2020, e de 11%, em 2035, quando comparado com o Cenário Central, assim o barril valeria US$ 140 em termos reais, ou US$ 240 em termos nominais, em 2035. Com preços mais altos, a demanda internacional, no mesmo ano, seria 97 mb/d, ou seja, 2,4 menor do que no Cenário Central.

Segundo a IEA, o Iraque teria o quinto maior crescimento da produção de gás natural no período analisado, assim haveria um aumento de 800% na produção entre 2011 e 2035, atingindo nesse ano 90 bilhões de metros cúbicos (bcm). No que tange as exportações, em 2020, elas se estabilizariam em torno de 10 a 15 bcm, antes de chegar a 17 bcm, em 2035, como pode ser visto na Figura 4. Porém, os campos associados só conseguiriam fornecer 70% da demanda de gás até 2035, assim as exportações exigiriam que houvesse desenvolvimento de poços não-associados, ou seja, a produção de gás tem que ser, ela mesma, um negócio atrativo.

Figura 4: Balanço do gás iraquiano no Cenário Central

imperiano052013g

Fonte: (IEA, 2012)

No High Case, as exportações de gás natural atingiriam 25 bcm, em meados dos anos 2020, e 37 bcm, em 2035.  Uma menor produção de petróleo aliada a prolongadas incertezas sobre as condições de investimento e exportação fariam com que, no Delayed Case, as exportações somassem 7 bcm somente, em 2035, portanto 81% inferior ao projetado no Cenário Central, como se vê na Figura 5.

Figura 5: Produção e exportação de gás natural no High Case e Delayed Case

imperiano052015f

Fonte: (IEA, 2012)


[ii] Technical Service Contracts

[iii] A IEA construiu três cenários de expansão da produção iraquiana, a saber: i) Central Scenario, que reflete a trajetória mais razoável, baseado em avaliações atuais e políticas e projetos anunciados; ii) High Case, o melhor cenário, com a produção aumentando rapidamente até ultrapassar 9 mb/d em 2020 e crescendo ainda mais, ficando 25% maior do que no Central Scenario no final do período de análise (2035); e iii) Delayed Case, que seria o pior cenário, onde a investimento iraquiano seria equivalente a apenas 60% do utilizado no Central Scenario, desse modo restringindo fortemente a produção.

REFERÊNCIAS

BP. Statistical Review of World Energy 2012. Disponível em: <http://www.bp.com/assets/bp_internet/globalbp/globalbp_uk_english/reports_and_publications/statistical_energy_review_2011/STAGING/local_assets/spreadsheets/statistical_review_of_world_energy_full_report_2012.xlsx> Acesso em: 10 dez. 2012.

ENERGY INFORMATION ADMINISTRATION (EIA). Iraq – Country Analysis Briefs. EIA, Set. 2010. Diponível em: <http://www.eia.gov/EMEU/cabs/Iraq/pdf.pdf&gt; Acessado em: 2 abr. 2013.

INTERNATIONAL ENERGY AGENCY (IEA). Iraq Energy Outlook – World Energy Outlook Special Report. OECD/IEA, Paris, 2012.

PLATTS. Iraq December crude oil exports fell 272,000 b/d from November: SOMO. Amman, 7 Jan. 2013. Disponível em: <www.platts.com/RSSFeedDetailedNews/RSSFeed/Oil/8266759?goback=%2Egde_4195875_member_226927212>. Acessado em: 2 abr. 2013.

____. Iraq’s February Oil Outputs Rises Marginally to 2,963 Million b/d. Platts, Amman, 27 Mar. 2013a. Disponível em: <www.platts.com/RSSFeedDetailedNews/RSSFeed/Oil/8266759?goback=%2Egde_4195875_member_226927212>. Acessado em: 2 abr. 2013.

STRATFOR. Iraq Ten Years After the U.S. Invasion. 11 Mar. 2013.

THE ECONOMIST. The Slow Road Back. Mar. 2013.

THE NEW YORK TIMES (NYT). Ten Years After. Diponível em: <http://www.nytimes.com/2013/03/20/opinion/ten-years-after-the-iraq-war-began.html?_r=0&gt;. Acessado em: 2 abr. 2013.

Leia outros textos de Felipe Imperiano no Blog Infopetro

Para ver/fazer comentários sobre esta postagem, clique no retângulo vermelho abaixo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s