Grupo de Economia da Energia

Os novos desafios do mercado internacional de gás natural para a política energética Russa

In gás natural, GNL on 17/06/2013 at 00:15

Por Renato Queiroz e Felipe Imperiano

renato062013O ambiente econômico e energético mundial sofreu grandes transformações a partir do ano de 2008: primeiro, em virtude da crise econômica deflagrada nesse ano; segundo, em razão da expansão da produção de gás natural em formações geológicas não convencionais nos EUA e da crise nuclear japonesa. Devido a isso, a Rússia, como um dos maiores exportadores mundiais de energia, se defronta com novos desafios em função da perspectiva dos EUA se tornarem exportadores de GNL, somado ao decréscimo do consumo de gás na Europa, seu principal mercado consumidor. Em contraposição a esse cenário restritivo no Ocidente, há importantes oportunidades de comércio na região da Ásia-Pacífico com um aumento significativo da demanda energética em países como China, Coréia do Sul, Índia e Japão.

Este artigo busca apresentar questões recentes do mercado internacional de gás natural que trazem desafios à política energética russa. O texto está dividido em três seções. Inicialmente aborda-se o mercado europeu. Em seguida analisa-se o mercado asiático. Essa divisão não só marca um corte espacial desses mercados, como, principalmente, ressalta diferentes dinâmicas econômicas que têm resultados distintos sobre o mercado internacional de gás natural. Por último, na seção conclusiva focam-se as questões que rebatem nas estratégias da política energética da Rússia.

O mercado europeu

O aumento da produção de gás natural nos EUA, através da exploração de reservatórios não convencionais, gerou um diferencial significativo de preços entre o mercado americano e as demais regiões consumidoras no mundo. Conforme o preço do gás produzido internamente caiu e se tornou mais competitivo, o seu consumo aumentou, deslocando outras fontes, como o carvão, os derivados do petróleo e até mesmo a fonte nuclear[i]. O Gráfico 1, abaixo, ilustra a evolução da produção de energia elétrica americana por fonte. Enquanto a geração de energia elétrica por carvão diminuiu 23,1%, entre 2003 e 2012, a geração a gás cresceu 89,4%, no mesmo período. O consumo total de carvão nos EUA, no ano passado, foi 20,5% menor do que em 2008, quando o preço médio do gás natural no Henry Hub atingiu seu pico histórico de US$ 8,85 (BP, 2013).

Gráfico 1: Percentual por fonte de geração líquida de energia elétrica nos EUA entre 2003 e 2012.

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Fonte: Elaboração própria a partir dos dados da EIA

Aliado a um quadro negativo da economia mundial, isso contribuiu para que houvesse um excesso de oferta de carvão no mercado internacional, já que os EUA são o segundo maior produtor de carvão, atrás apenas da China. Com efeito, o seu preço assumiu uma tendência de queda. Concomitantemente, o preço do gás natural comercializado pela Rússia se elevou. Isso permitiu, inclusive, que a receita líquida de vendas da maior exportadora de gás natural do mundo, Gazprom, para a Europa e outros países[ii] crescesse 2,1%, no ano passado, a despeito de uma contração de 4% no volume.

Durante a maior parte de 2012, o índice PEP,que mede os preços de eletricidade em Eur/MWh no mercado spot europeu, manteve-se estável e abaixo do nível de 2011,como mostra a Figura 1.Isso se deve a menores custos de geração provenientes da crescente produção elétrica de renováveis,  à abundante geração hidráulica nos mercados nórdicos e a preços baixos do carvão (EC, 2013).O menor preço da energia, em relação ao ano anterior, e o preço do gás resultaram em não rentabilidade das térmicas a gás, em boa parte do ano de 2012. Nesse mesmo ano, no Reino Unido, a geração elétrica por térmicas a carvão cresceu 40% (EURACOL, 2013) e, na Alemanha, no primeiro semestre do ano, a geração a gás caiu 15%, ao passo que a geração a carvão cresceu 8%, por exemplo (EC, 2013).

Figura 1: Evolução do carvão, gás natural, petróleo e preço médio da energia no mercado atacado europeu.

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Fonte: European Commission (2013)

O alto preço do gás no mercado europeu em relação ao preço do carvão contribuiu, em 2012, para aumento de 23,1% das exportações americanas de carvão para a Europa. Entretanto o preço médio que foi  pago por essas exportações caiu 24,3% (EIA, 2013). Em adição, no curto prazo, as restrições legais, nos EUA, à exportação de GNL, aparentemente, têm impactado de forma indireta o mercado de gás europeu, pois têm liberado a produção norte-americana de carvão para exportação a preços competitivos.  Em um cenário econômico mundial desfavorável, esse  efeito no mercado americano influencia a demanda mundial por carvão, principalmente da China.

A maior parte do gás vendido na Europa está sob contratos com fórmulas que indexam o seu preço ao do petróleo ou de uma cesta de derivados. Estima-se que, em 2011, 58% do gás natural vendido na Europa estava atrelado ao preço do petróleo (BROS, 2012). Esses mecanismos de precificação causam distorções no mercado, uma vez que os preços não oscilam estritamente com respeito às condições de oferta e demanda, gerando, via de regra, preços mais altos dos que nos hubs (pontos) de referência.

A diferença de preços gerada por esses contratos, principalmente quando comparado ao mercado norte-americano, tem se tornado cada vez mais uma questão de conflito, sobretudo em um momento de crise econômica, quando há restrição de gastos e o preço da energia é fundamental para alavancar a competitividade e ajudar na recuperação da economia.

Nesse sentido, os países europeus têm aumentado a pressão para a renegociação de contratos.  Na verdade, ao longo de 2012, e inclusive em 2013, foram anunciados vários acordos da Gazprom com seus principais compradores para a cessão de descontos nos contratos, estimados em alguns bilhões de dólares. Isso mostra que a capacidade russa de impor suas condições foi significativamente afetada. Entretanto pouco progresso foi feito no sentido de haver mudanças estruturais nos mecanismos de precificação.

A Noruega, por sua vez, tem feito sólidas concessões na sua política de precificação. Boa parte dos contratos de exportação do país foi renegociada e os novos contratos da empresa Statoil, que controla 75% das exportações do país, estão sendo negociados somente com indexação ao mercado spot (EC, 2013a). Com efeito, em 2012, as exportações norueguesas para a Europa cresceram 16% (EC, 2013a). Os noruegueses têm sido mais rápidos em se adaptar às condições de mercado, retendo consumidores e, de fato, aumentando o seu marketshare (EC, 2013a). Estima-se que com as recentes renegociações o percentual de gás indexado ao óleo cru e derivados vendido a Europa tenha caído para 55%, em 2012 (BROS, 2012).

O mercado asiático

O comércio mundial de GNL encolheu 1,9%, em 2012, puxado principalmente por uma redução de 27% na importação líquida europeia. A Ásia, por sua vez, expandiu seu consumo em 9,3%[iii], concentrando 70% da demanda global de GNL. Os quatro maiores fornecedores de GNL para o mercado asiático foram Qatar (28,6%), Malásia (14,2%), Austrália (12,4%) e Indonésia (11,2%).

A produção de gás natural nesses países vive um momento diferente. Por um lado, desde 2010, a produção na Indonésia vem caindo, enquanto na Malásia estagnou; por outro lado, a produção do Qatar cresceu fortemente, e a Austrália assumiu a mesma tendência, porém de forma menos acentuada, como indica o Gráfico 2.

Gráfico 2: Produção de gás natural nos principais países fornecedores de GNL para o mercado asiático

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Fonte: Elaboração própria a partir dos dados da BP (2013)

É importante notar que as reservas provadas desse grupo de países são inferiores a 2% das reservas mundiais, excetuando-se o Qatar que tem um share de 13,4% (BP, 2013). Cumpre ressaltar que a Austrália aumentou consideravelmente as suas reservas provadas, que já eram 54% superiores às malaias, no final de 2011 (BP, 2013), além de a sua produção ter experimentado um crescimento excepcional de 8,8%, em 2012 (BP, 2013).

Na Austrália, há três plantas de liquefação em operação, com capacidade total de 24,3 milhões de toneladas por ano (MTPA) e há mais sete projetos em construção, que irão adicionar 61,3 MTPA em capacidade de liquefação (LEDESMA, 2012), ou seja, um acréscimo de 152%. O modesto consumo anual somado à pequena população faz com que seja imperativo o desenvolvimento de projetos voltados para a exportação, a fim de se aproveitar comercialmente as reservas australianas (LEDESMA, 2012). Sua localização é uma vantagem para assegurar a viabilidade econômica dos empreendimentos. O mercado da Ásia-Pacífico tem preços elevados e demanda crescente por gás. Para a Agência Internacional de Energia (IEA), a capacidade de exportação de GNL, na Austrália, pode ultrapassar 70 bcm (milhões de metros cúbicos de gás) após 2015, fazendo com que ela se torne o segundo maior exportador de GNL (IEA, 2012).

Para a IEA, o consumo de gás pode ter um crescimento de 17% até 2017, com o mercado asiático liderando essa expansão, puxada principalmente pela demanda chinesa, que deve se tornar o terceiro maior consumidor mundial de gás, já em 2013 (PAIK, 2012). A China tem planos ambiciosos para o gás. Até 2011, o país tinha cinco terminais de GNL em operação e outros quatro em construção, com capacidade total de cerca de 30 MTPA (PAIK, 2012). No longo prazo, estima-se que a demanda chinesa por GNL traga uma necessidade adicional de 33 bcm, em 2020, e 50 bcm, até 2030, todavia a competitividade de preço do GNL irá ser determinante na sua expansão. Além disso, a forma como se desenvolverá a exploração de shale gas no país irá contrabalançar a demanda por gasodutos e carregamentos de GNL (PAIK, 2012).

A Rússia possui uma planta de liquefação de gás natural[iv], na ilha Sacalina, no Extremo Oriente,cuja capacidade nominal de liquefação é de 9,55 MTPA[v], isto é, 3,4% da capacidade mundial. Quase a totalidade da sua produção está atrelada a contratos de médio e longo prazo, com média de vigência acima de 15 anos e, em sua maior parte, com empresas de gás e geração elétrica japonesas. A exportação de GNL russa aumentou 2,5%[vi], em 2012, e assim sua participação no comércio mundial foi de 4,6%, apenas 0,2% a mais em relação ao ano anterior. De fato, os principais compradores do GNL russo são China, Coréia do Sul e Japão.Em 2012, a Rússia vendeu toda a sua produção para esses países[vii]. O Gráfico 3 mostra a variação entre 2011 e 2012 dos volumes exportados pela Rússia para esses países.

Gráfico 3: Exportação russa de GNL para China, Japão e Coréia do Sul em 2011 e 2012

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Fonte: Elaboração própria a partir dos dados daGIIGNL (2012) e (2013)

Desde 2010, observou-se um descolamento acentuado dos preços dos carregamentos de GNL para a Ásia, em relação ao preço do gás nos mercados europeu, mesmo quando comparados àquele fornecido via gasodutos por contratos de longo prazo com fórmulas de indexação, e, principalmente, ao mercado americano. Esse movimento foi acentuado, em 2011, com a crise nuclear japonesa, em virtude dos efeitos do terremoto de Tohoku, que levou ao fechamento das usinas nucleares do país e, consequentemente, do aumento da demanda por gás natural para a geração elétrica. A Figura 2 mostra a evolução de preços do gás natural nos diferentes mercados, comparado com a evolução do preço do Brent.

Figura 2: Preços do gás natural entre 2007 e maio de 2012

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Fonte: Rogers (2012)

O mercado asiático se tornou mais atrativo para os produtores de gás natural desde então e surgiu uma série de projetos de exportação de GNL, tanto na Rússia, como em outros países. Em maio deste ano, o Departamento de Energia americano (DOE) autorizou a exportação de 1,4 bilhões de pés cúbicos (bcf) por um período de 20 anos para países que não tenham assinados acordos de acordos de livre comércio ,Free Trade Agreement (FTA), com o governo dos EUA, como o Japão.

Internamente, o monopólio das exportações da Gazprom tem sido ameaçado pelo crescente interesse nos mercados asiáticos. A Rosneft, gigante estatal russa produtora de petróleo, e a empresa russa produtora de gás, Novatek, anunciaram, recentemente, o desenvolvimento de estudos de viabilidade de plantas de liquefação, objetivando a exportação para a Ásia. Em fevereiro de 2013, o próprio presidente Putin instruiu autoridades do governo a considerar a gradual liberalização das exportações de GNL (KOYAMA, 2013).

A localização russa, assim como a australiana, representa uma vantagem geográfica importante para o país, além da proximidade que pode gerar relevantes reduções no custo de transporte, evitando-se a passagem de carregamentos pelos estreitos de Ormuz e Malaca, regiões historicamente conflituosas e aumentando a segurança do suprimento.

Cumpre destacar fatos políticos que são sintomas da relevância da Rússia como importante fornecedor de gás natural. Por exemplo, a visita à Rússia do Primeiro Ministro do Japão, Shinzo Abe, no início desse ano (a primeira, em uma década, de um Primeiro Ministro japonês) e a escolha de Moscou como destino da primeira viagem internacional do recém-empossado presidente chinês, Xi Jinping, episódio que contou com importantes anúncios de acordos em projetos de exportação de gás da Rússia para a China.

Historicamente, a Rússia tem divergências políticas com a China e questões territoriais não resolvidas com o Japão desde a Segunda Guerra Mundial, o que impacta sobremaneira os fluxos comerciais entre os países. Os acontecimentos atuais mostram que, em virtude das buscas dos países asiáticos por suprimentos energéticos e da Rússia por novos mercados, há uma sobreposição da política energética em relação a política externa desses países.

Conclusão

Cabe destacar que as estratégias dos russos têm sido manter a situação em que os europeus não possam prescindir de seu gás. Em 2013, por exemplo, entrou em funcionamento a segunda fase do gasoduto Nord Stream, entre a Rússia e a Alemanha, que, através do mar Báltico, vai suprir diversos países da Europa. Nessa mesma estratégia, no final de 2012, foi iniciada a construção da rede de gasodutos denominada South Stream, para levar mais gás russo à Europa, cruzando as águas do Mar Negro, passando por Bulgária, Sérvia, Hungria, Eslovênia e indo até a Itália.

Certamente, em direção oposta, há movimentos buscando menor dependência da União Européia ao gás russo através da  diversificação dos fornecimentos de gás. Nesse contexto, encontram-se os investimentos ucranianos e poloneses na prospecção e extração de gás não convencional; o projeto do gasoduto Nabucco, que visa a trazer o gás da Ásia Central para a Europa e, também, os gasodutos Turquia, Grécia e Itália (TGI) e Trans-Adriático (TAP) que deverão transportar o gás do Azerbaijão até a Itália, através da Grécia.

Nesse jogo de interesses comerciais e geopolíticos, a Rússia busca manter o seu domínio no mercado europeu e tem a consolidação de sua posição estratégica como rota única de transporte do gás da Ásia Central. Pode-se, inclusive, especular que as aproximações políticas de Rússia com a Alemanha e com a China têm como principal motivação essa estratégia comercial, assim como suas ações e parcerias em regiões ricas em gás natural, como o Cazaquistão e o Turquemenistão e até com o próprio Irã.

Como visto anteriormente, a participação russa no mercado asiático é inferior a  países que têm menos reservas provadas. Fica claro, pois, que há uma excepcional oportunidade de expansão do mercado de gás russo na Ásia. Isso não só significa ganhos financeiros com novos negócios, mas também diversificação de mercados, importante para a estabilidade da economia da Rússia, fortemente dependente das exportações para a Europa. Nesse sentido, a emergência de novos players no mercado interno russo, rivalizando no comércio de GNL, pode indicar uma estratégia mais arrojada para desenvolver o mercado asiático, em face do ligeiro progresso da Gazprom (KOYAMA, 2013).

É importante para os países asiáticos observar a relação entre Europa e Rússia, pois, se a sua deterioração pode significar uma atitude mais direcionada ao mercado da Ásia-Pacífico, também pode ter implicações sobre os mecanismos de precificação do gás.

Há que se atentar também para o desenvolvimento da exploração do shale gas no mercado americano, com vista às possibilidades de arbitragem entre mercados. Em suma, o importante para os planejadores energéticos é observar em que nível o boom do shale gas nos EUA pode alterar a equação energética global, influenciando, inclusive, o quadro geopolítico dos países que possuem grandes reservas de gás natural.

Dadas as atuais condições, é razoável imaginar que sejam observadas, nos próximos anos, práticas mais flexíveis por parte dos russos. Há uma clara ameaça ao poder de mercado da Gazprom tanto na Europa, como no seu mercado doméstico, entretanto, por ora, é difícil saber ao certo quais serão os reais impactos futuros na política energética da Rússia.


[i]Quando o preço do gás estava em patamares elevados, cerca de trinta projetos de usinas nucleares estavam sendo planejados nos EUA. Agora estima-se que apenas cinco serão postos em operação até 2020, pois contam com condições favoráveis de financiamento (GOLDMAN, 2012).

[ii]Exceto países da antiga URSS.

[iii] De 153 MT para 167,18 MT

[iv] A Sakhalin Energy InvestCo. tem  participação acionária da Gazprom (50%), Shell (27,5%) e das japonesas Mitsui (12,5%) e Mitsubishi (10%) (GIIGNL, 2012).

[v]Cumpre informar que a produção da planta, em 2012,foi aproximadamente 14% superior a sua capacidade nominal, isto é, 10,86 MT.

[vi]De 10,6 MT para 10,86 MT

[vii] Em 2011, também houve vendas para a Taiwan e Tailândia.

Bibliografia

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