Grupo de Economia da Energia

Futuros desafios para o setor elétrico: a distribuição

In energia elétrica, energia solar on 24/06/2013 at 00:40

Por Clarice Ferraz

clarice062013O relatório Síntese do Balanço Energético Nacional (BEN, 2013), disponibilizado recentemente pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) revela que o Brasil, assim com a maioria dos países desenvolvidos, tem caminhado para uma maior eletrificação de sua matriz energética. O gráfico abaixo, extraído do Relatório, ilustra a evolução.

Gráfico 1: Evolução do consumo de eletricidade no Brasil em 2012

clarice062013a

Fonte: EPE (2013:30)

Tal “eletrificação” é liderada pelo consumo dos setores industrial e residencial, ambos através da adoção de mais processos automatizados e de novos aparelhos e processos movidos à eletricidade. Ao se modernizarem, essa tendência tende a se acelerar como veremos adiante. Assim, o modo como iremos produzir e consumir eletricidade no futuro irá influenciar fortemente o grau de competitividade de nossa economia, e os impactos ambientais associados ao setor energético. As características de nossa matriz elétrica se tornam cada vez mais relevantes na formulação do planejamento energético do País.

Nos países mais desenvolvidos o tema tem recebido ainda mais destaque e o impacto sobre as empresas distribuidoras de eletricidade começa a ser visto como um possível vetor de ruptura da tradicional estrutura do setor elétrico, tal como o conhecemos atualmente. O World Energy Outlook 2012, também chama atenção para tal fenômeno, entre 2000 e 2012, o consumo de eletricidade aumentou 40% , apesar da desaceleração sentida à partir da crise econômica de 2009 (IEA, 2012:180).

Nos países em que esse fenômeno já havia recebido destaque, como a Alemanha, o governo adotou uma política energética elaborada para reduzir os impactos ambientais associados à geração de eletricidade, que é uma das principais fontes de emissões poluentes associadas às mudanças climáticas e às desastrosas consequências que lhe são atribuídas. Com essa finalidade, dois principais eixos foram estimulados: a adoção de medidas de economia de energia e eficiência energética e a geração de eletricidade a partir de novas fontes renováveis de energia, recebendo importantes subsídios. No setor de transportes, em ausência de combustível alternativo à gasolina satisfatório, foi estimulada à adoção do carro elétrico.

O generoso pacote de subsídios, já discutidos em postagem anterior, estimulou fortemente a microgeração de eletricidade distribuída, sobretudo de origem fotovoltaica. Diversos outros programas se basearam no exemplo alemão e promoveram subsídios para a instalação dos painéis fotovoltaicos residenciais.

A microgeração distribuída foi estimulada por ser vetor de maior eficiência energética e facilitadora da inserção de da geração de eletricidade a partir de novas fontes renováveis. Com efeito, ao se produzir eletricidade no próprio local de consumo, se evitam todas as perdas que ocorrem nas linhas de transporte e de distribuição. Essas perdas não devem ser negligenciadas, sobretudo no Brasil onde foram estimadas em 15.9 % em 2012 no (EPE 2013: 30). Além disso, há diversos outros benefícios para o setor elétrico, como exposto na Nota Técnica nº 0025/2011 da ANEEL:

  • A postergação de investimentos em expansão nos sistemas de distribuição e transmissão;
  • O baixo impacto ambiental;
  • O menor tempo de implantação;
  • A redução no carregamento das redes;
  • A redução das perdas;
  • A melhoria do nível de tensão da rede no período de carga pesada;
  • O provimento de serviços auxiliares, como a geração de energia reativa;
  • Diversificação da matriz energética.

O princípio da revolução? 

Um olhar menos atento pode enxergar apenas mudanças tecnológicas positivas para o setor elétrico. Afinal, falamos apenas de maior eficiência energética e maior capacidade de geração de origem renovável, mesmo que caracterizada por forte intermitência. Sua disseminação foi possível graças à modernização das redes, sobretudo à introdução de medidores e redes “inteligentes”. Ambas promovem uma melhor gestão da energia pelo usuários e permitem que o até então consumidor possa igualmente fornecer à rede a eletricidade que for gerada e não consumida em seu local de geração. A rede de distribuição deixa de ser unidirecional e passa a ser bidirecional, devendo portanto possuir medidores e capacidade suficiente para gerir a carga que passa em ambos os sentidos. Temos portanto um sistema mais complexo, e caro, em que a rede se torna ainda mais essencial ao ser o elemento chave que faz o balanço e garante a segurança energética de milhares de pequenas unidades consumidoras/produtoras.

O problema portanto se encontra do lado das distribuidoras. Essas mudanças afetam profundamente seu negócio: reduzem sua venda de eletricidade.

Além de ter sua base de remuneração encolhida, a empresa de distribuição precisa zelar pela integridade da rede e pelo equilíbrio de seu mercado. Quanto mais disseminada for a adoção da microgeração distribuída, menor se torna a base de remuneração dos custos de manutenção da rede e, consequentemente, mais cara a eletricidade fornecida por ela. Quanto mais cara for a eletricidade fornecida pela distribuidora mais competitivas serão as fontes de geração distribuída, sobretudo em presença de subsídios. Desse modo, se instaura uma dinâmica em que a distribuidora se encontra em situação cada vez mais difícil, assim como os consumidores que dependerem exclusivamente dela.

Nos Estados Unidos, a soma desses fatores já é apontada como uma fonte de ruptura para o setor. Relatório publicado pelo Edison Electric Institute, chama atenção para o problema pois além dos problemas gerados agora, a redução do fluxo de caixa das distribuidoras as tornará menos atrativas para receber investimentos: “the industry and its stakeholders must proactively assess the impacts and alternatives available to address disruptive challenges in a timely manner” (EEI, 2013:1). O relatório compara a atual situação das empresas de distribuição de eletricidade às empresas de telefonia fixa que faliram com a chegada da telefonia móvel e desconexão do cabo. O esquema abaixo ilustra a dinâmica que as distribuidoras tem que enfrentar.

Figura 1: Impactos da evolução do setor elétrico sobre as empresas de distribuição

clarice062013b

Nota: DER significa fonte de geração distribuída

Fonte: Edison Electric Institute, 2013:12

Ao depender mais da rede, o setor elétrico se aproxima do setor de serviços  e precisa adaptar seu modelo de negócios para se compatibilizar com as recentes evoluções tecnológicas e não ser subjugado por elas. A distribuidora é um agente essencial nesse processo, pois é ela quem possui a expertise da gestão da rede. Enquanto ela não for associada a esse processo, é quase natural que ela não o facilite  (vide atrasos referentes à questão no Brasil).

A evolução em curso é inexorável e é positiva pois promove um uso mais eficiente da eletricidade e a redução das emissões poluentes associadas à sua geração. Entretanto, é preciso que as adaptações regulatórias e a as bases de remuneração da rede sejam rediscutidas para que o setor elétrico continue a cumprir sua função de base: a segurança de abastecimento a preços acessíveis.

Referências

Agência Nacional de Energia Elétrica, 2011, Nota Técnica nº 0025/2011. Disponível em http://www.aneel.gov.br/aplicacoes/audiencia/arquivo/2011/042/documento/nota_tecnica_0025_gd.pdf

Edison Electric Institute, 2013, “Disruptive Challenges: Financial Implications and Strategic Responses to a Changing Retail Electric Business”. Disponível em http://www.eei.org/ourissues/finance/Documents/disruptivechallenges.pdf

Empresa de Pesquisa Energética, 2013, Balanço Energético Nacional 2013 – Ano base 2012: Relatório Síntese. Disponível em https://ben.epe.gov.br/downloads/S%C3%ADntese%20do%20Relat%C3%B3rio%20Final_2013_Web.pdf

Ferraz, Clarice,  “Integração de energia solar fotovoltaica em larga escala: a experiência alemã”, Infopetro. Disponível em https://infopetro.wordpress.com/2012/07/23/integracao-de-energia-solar-fotovoltaica-em-larga-escala-a-experiencia-alema/

International Energy Agency (2012), World Energy Outlook 2012.

Leia outros textos de Clarice Ferraz no Blog Infopetro

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  1. Gostei do artigo! E bem interessante essa comparaçao com Telecom que faz o EEI.
    Uma questao que se coloca também para as distribuidoras (que é objeto de estudo do MIT [2011] “The Future of the Electric Grid”) é o subsidio implicito à geraçao distribuida, pois ao se conectarem à rede pagariam pouco ou mesmo nada pelo uso dela.
    Outra questao é a da possessao dos medidores, se estes devem ser do consumidores ou das distribuidoras… o que pode alterar totalmente a forma de aquisiçao do equipamento.
    Mas como ja colocado, tudo depende da regulaçao!

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