Grupo de Economia da Energia

O futuro dos biocombustíveis XIX – Encerrando a série e continuando o processo de construção da indústria baseada em biomassa

In biocombustíveis on 04/11/2013 at 00:15

Por José Vitor Bomtempo

vitor112013Nas 18 postagens anteriores procuramos discutir a evolução de uma indústria, associando-a a uma ideia de futuro. Na primeira postagem desta série, publicada em março de 2010, terminávamos com algumas perguntas que seriam a base das reflexões dos artigos a seguir:

Como será o amanhã? Que papel o Brasil poderá ter nessa indústria? A posição competitiva em etanol garante uma posição de liderança na indústria de exploração integrada das biomassas do futuro? Como estamos nos preparando para isso nas estratégias empresariais? Além das alianças e joint ventures, que esforços tecnológicos nossas empresas estão empreendendo? Que papel pretendem ter no futuro os atuais produtores de etanol? E a indústria química e petroquímica brasileira? E a PETROBRAS? Que políticas de ciência, tecnologia e inovação estão sendo colocadas em prática pelo MCT? São voltadas para o futuro da indústria e a criação de vantagens competitivas nas novas bases que estão sendo desenvolvidas? Ou são voltadas para a preservação das vantagens competitivas atuais, baseadas na bem sucedida indústria brasileira do etanol?”

Tomávamos como base a premissa de que a indústria de biocombustíveis estava se transformando e se tornando bem diferente da que então conhecíamos. Os produtos não se limitariam a etanol e biodiesel. Novas matérias-primas, novas tecnologias, novos modelos de negócios estavam sendo testados e trazendo em consequência uma transformação importante nas bases estruturais da indústria.

Nos artigos que se seguiram, tentamos observar a evolução da indústria e refletir sobre algumas dessas questões. Nesse período, o processo para o qual procurávamos chamar a atenção a partir do primeiro artigo se desenvolveu com os percalços naturais de um processo de inovação. O processo continua e o que enxergávamos como indústria de combustíveis ganha cada vez os ares de uma indústria baseada em biomassa, não limitada aos biocombustíveis: a chamada biobased economy.

Algumas iniciativas de produção se concretizam e tentam encontrar o seu caminho na biobased economy. Nos EUA (ver aqui) o etanol de segunda geração começa a se tornar realidade depois de superar adiamentos e dificuldades. Ainda nos EUA, outras iniciativas com base em outras tecnologias e produtos têm avançado para a comercialização. Na Itália, a inauguração recente da planta da Beta Renewables (75 milhões de litros de etanol celulósico/ano) foi vista como um marco de uma nova geração de empreendimentos.

No Brasil, algumas iniciativas também marcam as transformações recentes da indústria. Amyris produz farneceno em sua unidade industrial ao lado da Usina Paraíso desde dezembro passado. Solazyme, em associação com a Bunge, está concluindo a construção da sua unidade de óleos especiais e anuncia para dezembro próximo o início da produção. GranBio avança nos seus planos de construção da unidade de etanol celulósico em Alagoas, prevendo um primeiro lote de produtos para fevereiro, e anuncia novo investimento, associado à Rhodia, para uma planta de biobutanol. Raizen concretiza o financiamento para sua primeira planta de etanol celulósico, integrada a uma planta de etanol de primeira geração em Piracicaba. O site Biofuels Digest comentou recentemente as iniciativas no Brasil com o título “Brazil’s big six in advanced biofuels and chemicals: who’s doing what now?

Ao escrever a última postagem de 2013, parece-nos que seria um bom momento para encerrar essa série de artigos.  Não, os temas não se esgotaram; o processo não se completou. Mas a análise da situação atual, no Brasil e no mundo, parece nos indicar que não cabe mais falar de um futuro sempre distante como se fossem problemas e questões com que se preocupar mais tarde; sem relação direta com os problemas de hoje.

Quer dizer então que o futuro anunciado chegou? Não, mas é cada vez mais inadequado contrapor uma indústria de primeira geração a uma indústria nova em gestação nos laboratórios das universidades e centros de pesquisa ou no máximo nas plantas piloto de startups de base tecnológica, como sugeria o quadro no começo de 2010.

Tomemos o caso da indústria brasileira de biocombustíveis e seus problemas atuais. A indústria brasileira de biocombustíveis tem demonstrado problemas de competitividade. Uma consulta à excelente base de informações do MME (Boletim Mensal de Combustíveis Renováveis) é esclarecedora. O preço do etanol evoluiu de forma desfavorável em relação ao petróleo nos últimos anos em particular de 2010 para cá. A produtividade agrícola por sua vez tem ficado abaixo de valores históricos médios a ponto de, num estudo publicado pelo BNDES Setorial 37, abril 2013, os autores terem se perguntado no próprio título do artigo: A evolução das tecnologias agrícolas do setor sucroenergético: estagnação passageira ou crise estrutural? A síntese do artigo indica que:

“…o atual SPIS (Sistema de Produção e Inovação Sucroalcooleiro)  (…)vem enfrentando problemas para manter o ritmo dos resultados alcançados no passado. De fato, o período mais recente pode ser considerado frustrante e, se extrapolado para o futuro, aponta para ganhos de rendimento agrícola cada vez mais reduzidos”.

O biodiesel por sua vez tem mostrado, desde a criação do programa em 2005, uma notável  tendência ao aumento da capacidade produtiva.  Mas essa capacidade produtiva resta (dados dos últimos 2 anos, segundo o Boletim Mensal dos Combustíveis do MME citado acima), 60% ociosa. A competitividade em relação ao diesel ainda está distante, há problemas de rentabilidade e a indústria, segundos muitos analistas, tende a entrar num processo de forte concentração.

Mas, num ambiente dinâmico e em transformação, a agenda da indústria não pode se limitar ao aumento de produtividade dentro do cenário atual (etanol e biodiesel). A indústria deve considerar a sua posição na indústria baseada em biomassa ou biobased economy. Se considerarmos as quatro variáveis chave cuja coevolução está na base da estruturação da indústria baseada em biomassa – matérias-primas, tecnologias de conversão, produtos e modelos de negócios – um renovado conjunto de perguntas se apresenta:

Como desenvolver uma matéria prima viável e organizar uma cadeia de suprimento? Qual o futuro da cana? Ou qual a cana do futuro: a cana açúcar ou a cana energia? Como diversificar as matérias-primas para a indústria? Como as usinas atuais podem modernizar seus processos de primeira geração e ao mesmo tempo desenvolver e  incorporar as novas tecnologias? Como ultrapassar a fase do foco em etanol (ou biodiesel) e encaminhar a diversificação de produtos? O que será mais importante no futuro: o etanol ou a exploração da cana como biomassa de excelência? Como explorar a internacionalização da indústria e o interesse das empresas pelo Brasil? Como as políticas de apoio devem lidar com biocombustíveis e bioprodutos? 

Muitas dessas perguntas já estavam na agenda 3 ou 4 anos atrás. Mas outras são fruto do amadurecimento dos últimos anos e se dirigem de forma mais direta a problemas que se tornaram mais claramente formulados no caso brasileiro. A síntese de todas elas é que o desafio está cada vez mais na capacidade de inovação para  construir  uma posição competitiva  na estrutura industrial que está em construção e certamente cada vez menos na solução apenas dos problemas de curto prazo que parecem prejudicar a competitividade (conjuntural) da indústria. Isto é, não nos parece mais pertinente analisar a indústria do futuro em contraponto à indústria do presente. O curto prazo se superpõe ao longo prazo no ambiente da indústria baseada em biomassa. Políticas industriais e estratégias empresariais precisam compreender o processo de transformação em curso e aprofundar o foco na inovação. Isso nos leva a encerrar a série O futuro dos biocombustíveis com este 19º artigo que, ao mesmo tempo, abre uma nova série. O processo de construção da biobased economy continua.

A série:

O futuro dos biocombustíveis

O futuro dos biocombustíveis II: Por que a indústria de biocombustíveis do futuro será diferente da que conhecemos hoje?

O futuro dos biocombustíveis III: O processo de inovação que está construindo a indústria do futuro

O futuro dos biocombustíveis IV: a posição brasileira

O futuro dos biocombustíveis V: as estratégias de Shell e BP

O futuro dos biocombustiveis VI: a estratégia da Petrobras

O futuro dos biocombustiveis VII – qual o papel do Brasil?

O futuro dos biocombustiveis VIII: Os contrastes das estratégias das grandes empresas de petróleo e o futuro da bioeconomia

O futuro dos biocombustiveis IX: A diversidade de estratégias e o futuro da bioeconomia – comparando Shell, Braskem e Amyris

O futuro dos biocombustiveis X: as duas corridas do açúcar

O futuro dos biocombustíveis XI: 2011 – ano 1 da era pós-etanol?

O futuro dos biocombustíveis XII – As novas empresas da bioindústria e o Brasil: comparando Amyris, Solazyme e LS9 *

O futuro dos biocombustíveis XIII: a matéria-prima como fator estruturante da indústria

O futuro dos biocombustiveis XIV: Qual o sentido das políticas públicas e industriais para o futuro dos biocombustíveis?

O futuro dos biocombustiveis XV: A difícil transição em 2012 e o caso da Metabolix

O futuro dos biocombustiveis XV: A difícil transição em 2012 e o caso da Metabolix

O futuro dos biocombustíveis XVI – Perfis de empresas e as diferentes perspectivas em relação à bioeconomia

O futuro dos biocombustíveis XVII: Competências para inovar e o futuro da indústria do etanol no Brasil

O futuro dos biocombustíveis XVIII: Os dilemas dos produtos na bioeconomia

O futuro dos biocombustíveis XIX – Encerrando a série e continuando o processo de construção da indústria baseada em biomassa

Leia outros textos de José Vitor Bomtempo no Blog Infopetro

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