Grupo de Economia da Energia

Segurança energética e mudança climática na China

In energia on 10/02/2014 at 00:15

Por Felipe de Souza *

felipe022014O suprimento de energia na China tem se baseado na utilização do carvão doméstico e, nos anos mais recentes, também do importado. Na última década, mais de 80% do aumento da demanda global por carvão ocorreu em razão da China (Best; Levina, 2012). O carvão é um fator de competitividade para importantes setores da economia chinesa incluindo setor elétrico e industrial.

Devido ao fundamental papel da China na economia global e, pelo fato de ser a maior consumidora de energia e maior emissora de dióxido de carbono, a política energética chinesa terá cada vez mais que lidar com o dilema entre segurança energética e mudança climática no contexto do objetivo mundial estabelecido durante a COP 15: controlar o nível de emissões de gases de efeito estufa no sentido de evitar o aumento da temperatura em mais de 2º Celsius neste século (United Nations Framework Convention on Climate Change (UNFCCC), 2010).

Em 2009, diante da pressão da comunidade internacional, o então presidente Hu Jintao anunciou a meta da China em reduzir as emissões em 40% a 45% por unidade de PIB em relação ao nível de 2005 até o ano de 2020 (Yu, 2009).

No sentido de diversificar a matriz energética chinesa e ainda reduzir o nível de poluição, o governo chinês tem tomado uma série de medidas para reduzir o nível de intensidade energética e ainda o nível de intensidade de carbono até 2020, além de elevar a participação de fontes de energia com menor emissão. O conjunto de políticas adotadas pelo governo chinês como estabelecimento de metas, prática de subsídios, adoção de tarifa especial (Feed-in), faz com que o país tenha a maior capacidade de energia limpa instalada no mundo: 133 GW (eólica 64 GW; PCHs 62 GW; Biomassa & resíduos 4 GW e Solar PV 3 GW) (The Pew Charitable Trusts, 2012).

Ao mesmo tempo, o país tem se destacado pelo fato de ser responsável pelo maior número de reatores nucleares em construção. Do total dos 69 reatores em construção no mundo, os chineses são responsáveis por 29 desde total (WORLD NUCLEAR ASSOCIATION, 2014). Com a maior participação de fontes alternativas na matriz energética chinesa, redução da intensidade energética e maior utilização de usinas nucleares, o país poderá reduzir suas emissões de gases de efeito estufa.

Todavia, deve-se destacar que apesar das metas de redução, pelo menos dois fatores impedem uma maior eficácia nas ações. O primeiro é a grande participação da indústria pesada na economia que demanda muita energia. Este setor resiste aos objetivos do governo em reduzir o consumo (Economist Intelligence Unit, 2013). O segundo fator seria o caráter autoritário do governo da China. Pressionadas pelo Partido Comunista para conseguir grandes desempenhos econômicos, as autoridades provinciais não têm muitas restrições ao aprovar novas indústrias e usinas. Quando a população local se opõe a um projeto por temer danos ao ambiente, o governo reprime estes movimentos sociais (Setti, 2012).

As autoridades chinesas mantêm a posição de que a maior responsabilidade histórica no nível de emissão de gases de efeito estufa seria dos países desenvolvidos. Dessa forma, o governo chinês não possui planos de reduzir drasticamente a utilização do carvão. Este fato é evidenciado pelo estudo do WRI (2012) que identificou, no ano de 2012, 1.199 usinas térmicas a carvão propostas a serem construídas no mundo, com uma capacidade total de 1.401.278 MW. Entre os países, a China tinha 363 térmicas a carvão propostas, o que adicionaria uma capacidade instalada de 557.938 MW.

Esta contradição da política energética chinesa demonstra o difícil processo de transição energética em que a China se encontra neste dilema entre segurança energética e mudança climática. A dependência da China em relação ao uso de combustíveis fósseis marca o atual antagonismo presente nos distintos papéis desempenhados pelos combustíveis fósseis nas questões ambiental e energética que leva ao conflito entre os objetivos – mitigação da mudança climática e garantia da segurança energética – e, assim uma divergência entre a política ambiental e a energética.

Este trade-off está presente na agenda de muitos países, porém o trade-off chinês é o mais evidente em todo mundo. Nas próximas décadas, a China passará a ser o maior consumidor de petróleo no mundo. De 2009 até 2035 a China será responsável por 48 % do consumo mundial de carvão neste período. A demanda crescente por gás também será atendida com aumento da produção interna e da importação. Esta situação de insegurança energética da China com o aumento da dependência externa para o suprimento de energia será acompanhada por um forte aumento das suas emissões (Birol; Olerjarnik, 2012).

No entanto, com as fortes medidas visando a redução das emissões nos próximos anos, a China tem sido o país com mais ações em todo mundo. A importância da China no cenário energético demonstra que a transição para uma economia de baixo carbono não pode acontecer ao menos que os chineses tenham um importante papel no desenvolvimento de tecnologias de baixa emissão e eficiência energética.

A rápida expansão da energia de baixa emissão de carbono na China poderia beneficiar o mundo. O ganho em economia de escala viabilizada através do mercado interno chinês e a aceleração do aprendizado tecnológico poderiam reduzir os custos destas tecnologias no mercado internacional. Esta queda no preço destas tecnologias já é evidenciada no mercado de energia solar. Devido ao aumento massivo da produção dos painéis pelas empresas chinesas, o preço dos painéis solares foi reduzido em 50 % nos últimos três anos (KPGM, 2012).

A China poderia ainda estimular a exportação destas tecnologias, aumentando a capacidade industrial nos países importadores dessas tecnologias, e demonstraria a outros países emergentes a viabilidade econômica a partir de um desenvolvimento baseado na energia limpa (Birol; Olerjarnik, 2012).

Dessa forma, a ascensão da economia chinesa no desenvolvimento de tecnologias limpas servirá como fator fundamental no processo de transição mundial para uma economia de baixo carbono.

Referência Bibliográfica

Best; Levina. Facing China’s Coal Future – Prospects and Challenges

for Carbon Capture and Storage. Working Paper. Paris, France- OECD/IEA, 2012.

BIROL; OLERJARNIK.  Will China Lead the World into a Clean-energy Future? Economics of Energy & Environmental Policy, Vol. 1, No. 1. IAEE. 2012.

ECONOMIST INTELLIGENCE UNIT. Rock steadyA special report on coal demand. The Economist. London. 2013.

KPGM. Taxes and incentives for renewable energy. KPMG International, jun. 2012.

SETTI. Meio ambiente: a China, sozinha, já polui tanto quanto a Europa inteira. Disponível em : http://veja.abril.com.br/blog/ricardo-setti/vasto-mundo/meio-ambiente-a-china-sozinha-ja-polui-tanto-quanto-a-europa-inteira/. Acesso em: 01 dez. 2013.

THE PEW CHARITABLE TRUSTS. Who’s Winning the Clean Energy Race? 2011 Edition- G-20 Investment Powering Forward. Washington D.C.: The Pew Charitable trusts, 2012.

UNITED NATIONS FRAMEWORK CONVENTION ON CLIMATE CHANGE (UNFCCC). Report of the Conference of the Parties on its fifteenth session, held in Copenhagen from 7 to 19 December 2009, 30 mar. 2010.

WORLD NUCLEAR ASSOCIATION. World Nuclear Power Reactors & Uranium Requirements. Disponível em- <http-//www.world-nuclear.org/info/reactors.html>. Acesso em: 20 jan. 2014.

WRI. Global Coal Risk Assessment- Data Analysis and Market Research. World Resources Institute. Working paper. 2012.

YU. COP15- Stances of China and the  EU in the climate change  negotiation. China Europe International Business School. People’s Republic of China . 2009.

*Bacharel em Economia pelo Instituto de Economia da UFRJ; sendo este texto baseado em sua monografia de final de curso: Segurança Energética e Mudança Climática na China.

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