Grupo de Economia da Energia

A transição elétrica: muito além da falta de chuvas

In energia elétrica on 10/03/2014 at 00:15

Por Ronaldo Bicalho

(Atualizado em 8 de Abril de 2014)

bicalho032014Por trás da crise elétrica se desenvolve outro enredo que apresenta consequências que vão muito mais além do que aquelas causadas pela eventual falta de chuvas. Mudanças profundas estão ocorrendo nas bases do setor elétrico brasileiro. São essas mudanças que irão ocupar a agenda do setor nos próximos anos, colocando no centro das discussões os problemas associados à transição elétrica. Do entendimento da natureza e do alcance dessa transição irá depender não só o futuro do setor, mas, o futuro do país.

O setor elétrico brasileiro foi construído a partir da exploração intensiva do potencial hidráulico do país.

De Marmelos a Belo Monte, de Henry Borden a Itaipu, passando por Paulo Afonso, Furnas, Tucuruí, Xingó e tantas outras, as grandes hidrelétricas são os pilares que sustentaram historicamente o sistema elétrico brasileiro.

Se o aproveitamento do generoso potencial hidráulico se desenhou rapidamente como o caminho natural do desenvolvimento elétrico brasileiro, com as primeiras grandes barragens sendo construídas pela Light no início do século passado – Parnaíba, Fontes e Henry Borden –, seguida pelas nascentes estatais federais CHESF – Paulo Afonso – e Furnas – Usina de Furnas -, a gestão dos grandes reservatórios foi a pedra angular que alavancou esse aproveitamento, dando consistência e amplitude incomuns à exploração dos nossos recursos hídricos.

Em primeiro lugar, tratou-se de construir reservatórios pra fazer face à intermitência das chuvas, de tal forma a regularizar os fluxos de geração hidrelétrica; em segundo lugar, cuidou-se de coordenar a gestão dos reservatórios presentes em um mesmo rio ou bacia, de tal forma a aproveitar ao máximo o seu potencial; e, em terceiro lugar, aproveitou-se da diversidade hidrológica existente entre as diversas bacias e regiões para explorar ao máximo a capacidade dos reservatórios, regularizando em uma escala quase continental o estocástico regime pluviométrico.

Essa sofisticada gestão dos reservatórios constitui o coração do sistema elétrico brasileiro. A partir dela se articula toda a base técnica, organizacional e institucional do nosso setor elétrico. As regras de despacho, o papel das térmicas, a utilização dos modelos, a tarifação, o custo marginal, o próprio PLD, entre outros, são manifestações da natureza essencial desse setor: um setor basicamente hidráulico no qual a otimização dos reservatórios joga um papel decisivo na garantia do suprimento e na modicidade tarifária.

No entanto, transformações profundas estão em curso justamente na base de sustentação do nosso modelo histórico de operação e expansão do setor elétrico. Aqui, não se trata de eventos conjunturais e superficiais, simples problemas de gestão, mas de fenômenos profundos que atingem a fundação do modelo e sua estruturação. Aqui, trata-se de reconhecer que existem mudanças que estão ocorrendo no coração do sistema. Portanto, estamos falando de problemas estruturais que nada têm de conjunturais, superficiais ou passageiros. São problemas que vieram para ficar e que provavelmente tomarão muito do nosso tempo e de nossa capacidade para resolvê-los.

No centro dessas mudanças encontram-se justamento os nossos reservatórios. Em particular, a sua capacidade de regularização, por conseguinte, a sua capacidade de fazer a ponte entre o potencial hidráulico e a garantia do suprimento e a modicidade tarifária.

O sistema elétrico brasileiro é, em princípio, um sistema hidrotérmico. Um sistema no qual, quando há escassez de chuvas, as centrais térmicas entram cobrindo as hidrelétricas de maneira a regularizar o fluxo elétrico. Nesse caso, as térmicas são o nosso seguro, o nosso hedge, o recurso final a garantir a eletricidade que precisamos na quantidade, no momento e no local que precisamos.

Contudo, cabe salientar que essa “hidrotermicidade” tem se alterado profundamente ao longo do tempo.

Inicialmente, os grandes reservatórios eram plurianuais. Ou seja, armazenavam água por anos. A energia armazenada nesses reservatórios excedia em muito a demanda anual de eletricidade. Nesse contexto, o recurso às térmicas era esporádico e praticamente irrelevante.

Na verdade, o seguro para a variabilidade do regime pluviométrico não estava nas térmicas, mas na água que se encontrava nos reservatórios; para ser exato, na água que se encontrava no conjunto dos reservatórios, cada vez mais integrados na medida em que a interconexão do sistema avançava. Água cobrindo água. A água dos reservatórios cobrindo a água das chuvas.

Nesse quadro, o papel das térmicas era modesto e limitado. É como a casa de praia que tem uma caixa d’água de 100 litros que quando não entra água da rua o máximo que pode acontecer é ter que recorrer ao bar da esquina pra comprar dois ou três litros de água. Na verdade, quem segura não é o bar, mas a capacidade de estocagem da caixa d’água.

Dizem que em 1994, a defesa da seleção brasileira era tão forte que a bola nunca chegava ao goleiro. Dessa maneira, Taffarel tinha o melhor emprego do mundo, pois nunca era exigido. Assim, eram as nossas térmicas, nunca eram exigidas durante esse período no qual a nossa “hidrotermicidade” tinha muito mais de “hidrocidade” do que de “termocidade”.

Com o passar do tempo, o crescimento forte da demanda e as crescentes restrições – técnicas, econômicas, institucionais e políticas – à construção de grandes reservatórios foram alterando a natureza da nossa “hidrotermicidade”.

A drástica redução da capacidade de regularização dos nossos reservatórios foi mudando a natureza do nosso problema. Note-se que não se trata simplesmente de se equacionar a operação e a expansão de um sistema hidrotérmico. Em tese, esse equacionamento já estava presente nos modelos de gestão e expansão do sistema. Contudo, como já vimos, era uma “hidrotermicidade” que, de fato, não existia; ou, no mínimo, bastante limitada em suas consequências. O problema agora é enfrentar uma “hidrotermicidade” real e efetiva em todas as suas consequências. Com todos os seus riscos técnicos, econômicos e políticos.

Assim, a ida ao bar, para fazer face à água que não entrou da rua, envolve a compra de 20, 30, 40 litros de água; não mais os singelos 2 ou 3 litros de outrora. A caixa d’água continua lá, com os seus 100 litros. O problema é que ela não dá mais conta da demanda e o bar passa a ter relevância. Da mesma maneira que o goleiro passa a ser fundamental na medida em que a defesa não segura mais o rojão.

Enfim, o jogo mudou, e a armação do time também vai ter que mudar. No coração da mudança: o papel dos reservatórios; e de tabela, o papel das térmicas.

A manutenção de uma gestão do sistema que coloca as hidrelétricas e seus reservatórios como a grande linha de sustentação da garantia do suprimento e da modicidade tarifária para toda a demanda, com as térmicas entrando simplesmente para cobrir a falta esporádica de chuvas, não é mais sustentável.

A perda de capacidade de regularização dos reservatórios fez com que as térmicas passassem a atuar de forma cada vez menos esporádica. A maior continuidade operacional passou a ser um problema para o sistema, na medida em que essas térmicas não foram desenhadas para essa função.

Se antes, as térmicas desempenhavam o papel do líbero que cobre eventualmente as raras falhas da linha de zagueiros formada pelas hidrelétricas, agora, essas falhas são constantes, fazendo com que o líbero jogue durante uma grande parte do tempo praticamente na linha de zagueiros, não só perdendo sua capacidade de cobertura, mas desempenhando uma função para o qual ele não está preparado.

Enfim, a estratégia inadequada ao novo contexto gera uma serie de inconsistências que vão desestruturando o setor tanto em termos técnicos quanto econômicos.

A questão fundamental é que a água dos reservatórios não segura mais a demanda. Este não é um dado conjuntural. Este é um dado estrutural. Portanto, é evidente que parte da demanda terá que ser atendida diretamente pelas térmicas. Estas térmicas não podem ser as mesmas de antes. Não podem ser aquelas concebidas para operarem esporadicamente, na chamada ponta; têm que ser térmicas projetadas para operarem continuamente; ou seja, na base.

Com a entrada das térmicas na base é possível recuperar a capacidade de regularização dos reservatórios, não só para cobrir a volatilidade hidráulica, mas também para cobrir a variabilidade eólica. Assim, por um lado, a água volta a cobrir a água e, mais do que isso, passa a cobrir também o vento. Por outro lado, parte das térmicas passa a operar direto e outra parte continuará a cobrir, esporadicamente, as águas.

Dessa maneira, a composição de uma grande linha de suprimento, composta de hidroelétricas e térmicas operando na base, recompõe o sistema elétrico brasileiro de uma forma mais coerente com a realidade atual dos nossos recursos. E, mais do que isso, cria condições de exploração de fontes renováveis, naturalmente intermitentes – como eólica e solar -, extremamente favoráveis. Graças a nossa enorme capacidade de estocagem representada pelo nosso grande sistema de reservatórios, temos uma baita vantagem competitiva em relação a outros sistemas elétricos, em tempos de introdução de renováveis para fazer face à mudança climática.

Enfim, sobre os grandes reservatórios construímos o nosso setor elétrico. As transformações profundas que estão ocorrendo mudarão o papel desempenhado até agora por eles. Contudo, essa mudança não diminui o papel desses reservatórios na garantia do suprimento e da modicidade tarifária, apenas muda a sua natureza.

Na verdade, a solução dos nossos problemas continua nas águas que estão nos nossos reservatórios. A diferença é que elas podem valer muito mais do que nós as valorizamos correntemente. E não pelas razões costumeiras de serem as mais baratas fontes de energia elétrica, mas por serem estratégicas no contexto da transição energética em marcha no mudo.

O grande desafio do Estado brasileiro no âmbito do setor elétrico é reinventar esse setor. É, em primeiro lugar, reconhecer a necessidade da transição elétrica; em segundo lugar, inovar de tal forma a reduzir os custos dessa transição e a abrir novos espaços de geração de vantagens competitivas para o país; e, em terceiro lugar, gerenciar os custos e os benefícios dessa difícil transição, repartindo os bônus e os ônus dessas mudanças entre os agentes econômicos e os atores sociais.

Nesse sentido, o papel do Estado é fundamental. Só ele tem a capacidade de mobilizar os recursos técnicos, econômicos e institucionais envolvidos nessa transformação radical.

Como o sapo, o setor elétrico não pula por gosto, mas pula por necessidade, por precisão.

Pois bem, está na hora desse sapo pular outra vez. E não é um pulo qualquer. É o pulo decisivo para o futuro do país.

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Entrevista exclusiva do Canal GEE sobre a Mesa de Debate: “Setor Elétrico Brasileiro: A Transição Necessária” do Seminário GEE 2013.

 

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  3. A falta de chuvas é um agravante que sempre prejudica a distribuição de água e diretamente afeta a energia do país. Pensar em outras opções como a “energia eólica” deve ser o foco par o futuro.

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  6. […] No caso brasileiro, face às características do nosso parque de geração, essencialmente hidroelétrico e, mais importante, baseado na operação articulada de um conjunto de grandes reservatórios de acumulação, a coordenação desempenhou uma função vital na viabilização do aproveitamento do nosso grande potencial hidráulico e, mais do que isso, na colocação desse aproveitamento como a base de toda a construção técnica, econômica e institucional do nosso sistema elétrico, tal qual o conhecemos. A exaustão desse potencial, somada à introdução das novas renováveis, aponta na direção de uma maior demanda de coordenação, e não ao contrário (Bicalho, 2014b). […]

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