Grupo de Economia da Energia

Shale gas: perspectivas da exploração fora da América do Norte

In gás natural on 29/09/2014 at 00:15

Por Edmar de Almeida

edmar092014A grande questão em aberto para o futuro do mercado energético internacional é a possibilidade e a extensão da replicação da revolução americana do shale gas em outras regiões do mundo, para além da América do Norte. Atualmente, já não existe dúvida quanto à disponibilidade abundante de recursos não convencionais de gás natural fora da América do Norte. Vários estudos realizados pelos governos e por instituições como a Agência Internacional de Energia apontam a disponibilidade abundante de recursos de shale gas em países como China, Argentina, México, África do Sul, Brasil, Austrália dentre outros.

Apesar das dúvidas que pairam sobre a possibilidade de se repetir a revolução do shale gas americano, a Agência Internacional de Energia acredita que metade do crescimento da produção de gás até 2035 virá dos recursos não convencionais, principalmente do shale gas e do gás de carvão (coalbed methane). Segundo a AIE, a difusão do shale gas para fora da América do Norte acontece principalmente após 2020, principalmente na China, na Argentina e na Índia (Gráfico 1).

Gráfico 1 – Crescimento da produção de gás-não convencional até 2035

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Fonte: IEA – Word Energy Outlook 201

A difusão do shale gas para fora da América do Norte representa um enorme desafio para a indústria de petróleo e gás. Isto ocorre porque grande parte dos fatores de sucesso do gás não convencional nos EUA não está presentes fora da América do Norte. Podemos citar sete principais fatores de sucesso para o caso Norte Americano:

  • Grande conhecimento geológico nos EUA e Canadá, resultante de uma indústria de petróleo e gás centenária que já perfurou mais de 5 milhões de poços de petróleo.
  • Regulação leve do segmento do upstream. O processo de licenciamento é célere o bastante para se perfurar e fraturar milhares de poços por ano. Em 2011, por exemplo, o órgão regulador do Texas autorizou a perfuração de 22.480 poços.
  • O acesso dos investidores a áreas de exploração é facilitado pelo fato da propriedade dos recursos do subsolo pertencer ao proprietário do solo. Desta forma, as operadoras negociam diretamente com os proprietários dos recursos que são pessoas físicas ou empresas privadas. Mesmo no caso das terras públicas o processo de licitação de áreas é relativamente simples e desburocratizado.
  • A indústria de petróleo e gás Norte Americana é composta de cerca de 10.000 empresas operadoras. Este grande número de empresas se deve à tradição de menor interferência do Estado no setor de petróleo.
  • Existe uma elevada aceitação social com relação à atividade de exploração de petróleo e gás não convencional em vários estados americanos com tradição em óleo e gás, em particular no Sul e Meio Oeste americano.
  • O escoamento e comercialização da produção de gás são facilitados pela existência de uma extensa rede de gasodutos e distribuição e transporte (aproximadamente dois milhões de quilômetros de dutos), com regras de livre-acesso e um mercado liberalizado.
  • Finalmente, vale ressaltar a robustez e sofisticação do mercado financeiro americano que facilitou o financiamento do esforço exploratório de pequenas empresas independentes que se especializaram no negócio do gás não convencional.

Figura 1 – Os fatores do sucesso do gás não convencional nos EUA

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Fonte: Elaboração Própria

Os fatores de sucesso acima mencionados viabilizaram a exploração do shale gas numa velocidade e escala difícil de replicar fora da América do Norte. O play de Eagle Ford no sul do estado do Texas é um exemplo impactante sobre a capacidade de desenvolvimento do shale gas nos EUA. As atividades exploratórias neste play eram praticamente inexistentes 5 anos atrás. Como se pode observar no gráfico 2, em 2013 foram perfurados 3477 poços em Eagle Ford, permitindo uma produção 713 mil barris de petróleo por dia (mbd) e cerca de 104 milhões de metros cúbicos diários (Mm³/dia). No mesmo ano, cerca de 25 bilhões de dólares foram investidos em Eagle Ford. Os números para apenas este play superam, em muito, aqueles da indústria de petróleo e gás da maioria dos países da América Latina.

Gráfico 2 – Evolução do Capex e Número de Poços por Empresa em Eagle Ford (Texas)

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 Mesmo considerando que seria muito difícil replicar tal dinâmica de investimentos, é importante avaliar quais seriam as condições necessárias para que a revolução do shale gas aconteça fora da América do Norte.  O nível de conhecimento geológico das principais áreas com recursos de gás não convencional fora da América do Norte é muito inferior ao caso americano. Nos EUA, o esforço exploratório centenário para petróleo e gás convencional e o histórico de décadas explorando fontes de gás não convencional como o tight gas (arenitos compactos) possibilitou acelerar a exploração do shale gas. A aquisição do conhecimento geológico fora da América do Norte exige um esforço exploratório vai levar tempo, custa muito caro e vai requerer incentivos para atrair as empresas operadoras para esta empreitada.

Existem outras barreiras que podem ser ressaltadas: a aceitação social da exploração do gás não convencional é baixa em vários países e regiões do mundo. Na Europa, por exemplo, o receio com relação a possíveis impactos ambientais da exploração do gás não convencional, em parte motivado pela desinformação e falta de contato do público geral com a indústria de petróleo e gás em terra, levou vários países e regiões a adotar moratórias em relação ao fraturamento hidráulico (ex: França, Holanda, Luxemburgo, Bulgária e República Checa).

Para tentar melhorar o nível da aceitação social com relação ao gás não convencional, a Agência Internacional da Energia criou o Unconventional Gas Forum. Este fórum foi criado em 2013 para ajudar os governos, indústria e outros stakeholders a compartilharem visões sobre melhores práticas nas operações, regulações e métodos para promover o desenvolvimento sustentável do gás não convencional. A AIE produziu vários estudos sobre não convencionais e em 2013 realizou o primeiro encontro do fórum com 130 representantes de vários países.

Outra barreira que merece destaque é a inadequação da regulação do upstream para o caso do não convencional. Na maioria dos países os processos regulatórios são complexos, burocratizados e orientados para campos de óleo e gás convencionais. O processo para obtenção das concessões exploratórias e para autorizações de perfuração e fraturamento são lentos e não permitem um ritmo exploratório como o caso americano. Por fim, vale ressaltar a falta de disponibilidade de bens e serviços especializados para o gás não convencional. Em particular a tecnologia de fraturamento hidráulico não está disponível na escala necessária na maioria dos países.

Tendo em vista os obstáculos mencionados acima, muitos são aqueles que duvidam da viabilidade da exploração do shale gas em larga escala fora da América do Norte. Uma análise do esforço exploratório em alguns países pode ajudar a compreender esta questão.

A Experiência da China

Segundo a AIE, a China é o país com o maior volume de recursos de shale gas no mundo. Além disto, o país é hoje um grande importador de gás natural, inclusive GNL. Visando reduzir a dependência externa de gás natural e, ao mesmo tempo, reduzir o consumo de carvão, o governo Chinês lançou a um programa ambicioso para exploração do gás no 12º Plano Quinquenal do país até 2015. Este programa tem a meta de dobrar a participação do gás natural na matriz energética do país. Para isto, será necessário produzir cerca de 260 bilhões de metros cúbicos (bmc). Deste total, o plano prevê a produção de 6,5 bmc de shale gas. Não seria um exagero afirmar que a China é o país com o mais ambicioso projeto de exploração de shale gas fora da América do Norte.

Figura 2 – Áreas com Recursos Não-Convencionais na China

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Fonte: AIE

Além do elevado potencial geológico, vale ressaltar que a China já produz tight gas e gás de carvão (coalbed methane). Por esta razão, o país conta com uma indústria onshore importante e com fornecedores capacitados para exploração do shale gas. Em 2009, a China assinou um acordo com os EUA para encorajar cooperação técnica para promoção de investimentos no shale da China. A partir deste acordo as principais empresas de petróleo Chinesas realizaram investimentos nos EUA adquirindo participações em empresas operadoras e fornecedoras Norte Americanas visando acelerar o aprendizado tecnológico.

Em 2011, o governo Chinês realizou as primeiras licitações de áreas para exploração do shale gas. A Petrochina e a Sinopec adquiriram grande parte das áreas. Desde então estas empresas perfuraram cerca de 130 poços com investimentos de US$1,6 bilhões de dólares. Entretanto, apenas alguns poços produziram o suficiente para justificar o custo de investimento entre US$13 e 16 milhões por poço. Em 2012, o governo realizou uma segunda rodada de licitações e 16 empresas compraram blocos. Mas até agora estas empresas não perfuraram e estão reticentes com relação aos prospectos adquiridos. Estima-se que seria necessário investir cerca de US$ 20 bilhões para se atingir a meta estabelecida para 2015, o que não parece ser factível no contexto atual.

Podemos apontar como os principais desafios apontados pelas empresas para investir no shale gas da China: i) o baixo conhecimento geológico das áreas de shale, o que implica num grande risco para os investimentos exploratórios; ii) o pouco desenvolvimento da  infraestrutura de escoamento e transporte de gás que é uma barreira para a comercialização da produção; iii) e a regulação inadequada da indústria no país, em particular o controle dos preços domésticos controlados pelo governo. A falta de liberalização do mercado representa um risco econômico e regulatório muito elevado para operadoras independentes.

A experiência da Argentina

Após a China a Argentina é o país que detém o segundo maior volume de recursos de shale gas.  A Argentina também é um país que recentemente se tornou um importador de gás por via de gasodutos e GNL. A dependência externa no suprimento de gás representa um grande desafio macroeconômico para o país. Por esta razão, existe o interesse político de se promover a exploração dos recursos de shale gas existentes no país.

A Argentina apresenta uma vantagem em relação à China que é o fato de existirem abundantes recursos de shale gas em regiões tradicionalmente produtoras de gás natural e petróleo. Em particular, a bacia de Neuquém apresenta um grande potencial de produção numa área conhecida com Vaca Muerta. Além de ser uma região com tradição em óleo e gás, existem importantes infraestruturas de transporte de gás entre esta região e os principais centros consumidores de gás do país.

A Argentina vem se tornando o foco das atenções em relação ao shale gas na América Latina. A estatal YPF vem empreendendo um grande esforço para desenvolver o shale gas e óleo no país, através de parcerias com grandes empresas petrolíferas. Neste contexto, destaca-se um acordo entre a YPF e a Chevron, que abre perspectiva de até US$15 bilhões em investimentos num horizonte de 5 anos. Destaca-se ainda a presença de majors (Shell, Exxon, BP, Total), empresas estatais como Petrobras e várias independentes (Apache, Gran Tierra, EOG, Pluspetrol, Wintershall e outras).

Figura 3 – Áreas com Recursos Não-Convencionais na Argentina

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Fonte: EIA – DOE

A exploração do shale gas na Argentina apresenta avanços importantes até o momento. Cerca de 140 poços perfurados em 2013. A YPF anunciou um plano ambicioso de perfurar 2450 poços para não convencionais até 2017, sendo 950 voltados para gás. A empresa tinha 23 sondas ativas em Neuquém em 2013 e pretende aumentar para 70 até 2017. A capacidade de bombeamento para fraturamento hidráulico disponível na Argentina já é a mais elevada da região da América Latina.

Apesar dos avanços e do enorme potencial do país, existem enormes desafios para viabilizar os investimentos bilionários necessários para desenvolver uma produção significativa de gás em Vaca Muerta. Os principais desafios são: i) a crise cambial do país e o consequente controle cambial e de capital que dificulta os investimentos externos e as importações de bens e serviços; ii) o controle dos preços do gás pelo governo, que tem fixado os preços em patamares inferiores aos custos de produção do shale gas; iii) o mercado de trabalho do país vem sendo afetado pelo excesso de regulação e greves. O elevado nível da inflação local tem resultado num elevado nível de conflito laboral.

Considerações finais

Pelo colocado acima, existe um grande potencial para que a revolução energética associada ao shale gas se alastre para fora da América do Norte. Entretanto, este processo não será automático. Grande parte dos fatores do sucesso do gás não convencional na América do Norte não está presentes em outras regiões do globo. Portanto, existe um longo caminho a ser percorrido pelos outros países para criar condições de atratividade para os investimentos no shale gas, na escala e velocidade que acontece nos EUA e Canadá.

O modelo regulatório e de negócios para exploração do shale gas fora da América do Norte será provavelmente diferente. A disponibilidade de recursos é uma condição necessária mas não suficiente para deslanchar a produção de shale gas. A produção deverá aumentar mais rapidamente nos países que conseguirem inovar no arcabouço regulatório e de negócios. Em particular, naqueles que conseguirem aliar agilidade no processo de licenciamento e boas condições de monetização da produção.

Por fim, é importante ressaltar que os recursos humanos, tecnológicos e financeiros da indústria do gás não convencional são limitados. Os países que saltarem na frente na revolução do shale gas terão uma enorme vantagem na mobilização destes recursos. Os países que forem mais lentos poderão trilhar um caminho mais longo pela falta de disponibilidade de recursos.

Referências

AGÊNCIA INTERNACIONAL DE ENERGIA (2013). World Energy Outlook. Paris.

ECONOMIST INTELLIGENCE UNIT (2011). Breaking new ground: a special report on global shale gas developments. www.eiu.com

ENERGY INFORMATION ADMINISTRATION – DOE (2014).  China: Country Profile. http://www.eia.gov/countries/cab.cfm?fips=ch

PAPA, M. (2013). Vaca Muerta Shale Key to Efficient Development. EOG Resources.

THE ECONOMIST (2013). Unconventional gas in Europe: Frack to the future. http://www.economist.com/news/business/21571171-extracting-europes-shale-gas-and-oil-will-be-slow-and-difficult-business-frack-future

WOOD-MACKEZIE (2013).  A revolução dos não convencionais: panorama global. XI Seminário Internacional Britcham de Energia – Tema: Não Convencionais, Rio de Janeiro.

Leia outros textos de Edmar de Almeida no Blog Infopetro

Vídeos relacionados:

GEE Webinar 01 – Shale Gas – Panorama da Exploração fora da América do Norte

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