Grupo de Economia da Energia

A relação entre o mercado de gás natural, o mercado de LGN e o mercado de petróleo nos Estados Unidos

In gás natural on 01/12/2014 at 00:15

Por Marcelo Colomer

marcelo122014Nos últimos anos, o crescimento da produção de petróleo e gás natural localizados em formações geológicas reconhecidas como não-convencionais nos EUA deu origem a importantes mudanças nos mercados internacionais, sendo manchete de muitas revistas e tema de muitos trabalhos acadêmicos. Contudo, o que pouco tem sido analisado é a relação existente entre o mercado de petróleo e a comercialidade dos projetos de exploração de gás não convencional.

A produção de metano, principalmente em formações não convencionais, pode carregar consigo uma elevada produção de Líquidos de Gás Natural (LGN) – da sigla em Inglês (NGL). Incluem-se entre os líquidos de gás natural o etano, propano, butano, isobutano e a gasolina natural. Apesar da pouca atenção despertada por estes produtos, estima-se que eles corresponderão, até 2025, a um quarto da produção de hidrocarbonetos líquidos nos EUA (EBINGER, C e AVASARALA, G, 2013).

A geração de hidrocarbonetos na natureza é um processo lento e complexo, o que explica porque cada formação geológica possui características diferentes umas das outras. Nesse sentido, enquanto alguns reservatórios de gás natural possuem predominantemente metano, outros possuem também outros hidrocarbonetos de cadeia mais longa, o que lhe proporciona um maior teor energético. Nos EUA, por exemplo, 74% da produção de LGN provém de campos de gás natural[1], principalmente daqueles localizados em formações não convencionais como Eagle Ford, Anadarko e Rockies (EBINGER, C e AVASARALA, G, 2013).

Figura 1 – EUA: Produção de LGN a partir do processamento de gás natural

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Fonte: EIAa 2014

A produtividade dos campos de gás natural em termos de LGN é medida em galão por mil pés cúbicos de gás natural (GPM) e vai variar muito entre as diferentes regiões produtoras. A formação de folhelho de Barnett no Texas, por exemplo, pode produzir algo em torno de 2,5 a 3,5 GPM, enquanto a formação Bakken, na Dakota do Norte, produz aproximadamente 12 GPM (EBINGER, C e AVASARALA, G, 2013).

Uma vez processados ou separados, os líquidos de gás natural possuem uma variedade de usos. Quase todo o etano e 1/3 do propano são consumidos pelo setor petroquímico. O restante do propano é utilizado no aquecimento residencial e comercial enquanto o butano, isobutano e a gasolina natural são utilizados nas refinarias para a composição dos seus blends energéticos. Nesse sentido, a expansão recente da produção de LGN nos EUA, com consequente queda nos preços domésticos dos líquidos, conferiu uma imensa vantagem competitiva para a indústria química norte-americana frente a europeia, cuja produção depende dos dispendiosos produtos do petróleo como a nafta e o óleo combustível.

Figura 2 – Curva Típica de Custo na Petroquímica por Região

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Fonte: LyondellBasell Investor Presentation apud EBINGER, C e AVASARALA, G, 2013

No que diz respeito ao mercado de LGN, este apresenta um comportamento cíclico de preços e dependente da demanda petroquímica por etano que representa cerca de 40% da produção de LGN proveniente do gás natural. A diferença entre o preço médio dos líquidos e o preço do gás natural é conhecida no mercado como “spread”. Durante períodos de forte consumo industrial, o spread se eleva justificando e incentivando a comercialização separada dos líquidos. Conforme o processamento de LGN cresce, a oferta de líquidos, principalmente de etano, aumenta reduzindo o spread até o ponto no qual torna-se mais rentável comercializar o etano junto ao gás natural por meio do processo conhecido como “rejeição de etano”. A não separação do etano do metano aumenta o volume físico do gás natural comercializado reduzindo a produção tanto de metano quanto de LGN. Conforme a oferta decresce, aumenta-se a pressão sobre os preços dos líquidos causando um incremento sobre o spread o que estimula novamente o aumento do processamento de LGN.

Nos últimos 2 anos, o elevado preço do LGN desempenhou um importante papel na Indústria de gás natural norte-americana. Com preços do gás natural seco[2] oscilando entre 2 e 4 dólares o milhão de BTU, os produtores norte-americanos começaram a migrar para áreas onde eles pudessem produzir tanto gás natural seco quanto LGN. Estima-se que os líquidos de gás natural possam representar até 50% do valor de alguns reservatórios.

Historicamente, o preço do LGN tem flutuado entre o preço do gás natural (Henry Hub) e o preço da gasolina na Costa do Golfo do México. Durante o período no qual os preços do petróleo (WTI) e os preços do gás natural (Henry Hub) estiveram próximos, os preços dos líquidos de gás natural situaram-se em uma estreita faixa entre o preço do gás natural e o preço da gasolina. A partir de 2009, quando o preço do gás começou a se descolar do WTI, aumentou-se tanto os preços em geral como também a diferença entre estes. Os preços dos LGN mais pesados passaram a se correlacionar mais com o preço do WTI enquanto os preços dos LGN mais leves passaram a estar mais atrelado ao preço do gás natural, conforme podemos ver na figura abaixo.

Figura 3 – EUA: Preços do LGN, Petróleo e Gás Natural

marcelo122014c

Fonte: EIAa 2014

Nesse contexto, o elevado spread do LGN, verificado nos EUA a partir de 2008, auxiliou os produtores de gás natural a manter a produção do energético mesmo em um cenário de preços decrescentes[3]. Contudo, a partir de 2013, a correlação estabelecida entre o preço do LGN e do petróleo começou a se dissolver de forma que, com exceção da gasolina natural, os preços dos líquidos passaram a caminhar em direção ao preço do gás natural reduzindo o spread, como pode ser visto na figura a seguir.

Figura 4 – Spread entre o LGN e o Preço do Gás Natural

marcelo122014d

Fonte: EIAa 2014

A redução recente do spread, explicado muito mais pela queda do preço do LGN do que pelo aumento do preço do gás natural, levanta a dúvida se a produção de gás natural não convencional nos EUA pode ser afetada por um novo cenário internacional de preços reduzidos de petróleo. Como ficou claro na figura 3, os preços dos líquidos de gás natural, principalmente daqueles mais pesados, apresentam uma forte correlação com o preço do petróleo, principalmente no médio e longo prazo. No entanto, no curto prazo, os fatores relacionados às flutuações sazonais da demanda e à infraestrutura de escoamento e exportação parecem exercer uma importante pressão sobre os preços do LGN.

O preço do propano, por exemplo, pode ter uma variação de quase US$ 10 por milhão BTU ao longo de um ano. Isto porque a demanda por propano depende muito da severidade do tempo no inverno, das condições de secagem do milho e dos limites de capacidade de escoamento. Esses fatores combinados com o crescimento da produção e exportação de propano tornam as previsões de preços muito incertas. Segundo a EIAb (2014), as previsões de temperaturas mais elevadas no inverno 2014-2015 devem levar a uma redução de US$ 0,18 por galão de propano em relação ao inverno passado.

No caso do etano, a redução recente do preço pode ser explicada pela falta de infraestrutura de escoamento do produto até o mercado o que “encalhou” a oferta em 2014 forçando o preço para baixo. Contudo, a conclusão das obras de escoamento do etano até as plantas de craqueamento de etileno e aos terminais de exportação deve ser um elemento importante para estabilizar os preços do produto acima do preço do gás natural.

Como ficou claro, o mercado de LGN é afetado por muitos fatores de demanda e de oferta que em alguns momentos agem na mesma direção sobre os preços e em outros contrabalançam os seus efeitos. Nesse contexto, a análise dos impactos da redução do preço do petróleo sobre o mercado de LGN, principalmente no curto prazo, mostra-se envolta em muitas incertezas. O que pode-se inferir é que, no médio e longo prazo, um possível realinhamento dos preços do gás natural com o preço do petróleo poderá reduzir consideravelmente a faixa de variação dos preços dos líquidos espremendo o spread em relação ao gás natural. No entanto esse realinhamento parece depender não somente da queda do preço de petróleo mas também dos efeitos que o aumento das exportações de Gás Natural Liquefeito (GNL) pelos EUA irão causar sobre os preços domésticos de gás natural. Assim, pode-se concluir que a intrincada relação existente entre o mercado de gás natural, LGN e de petróleo traz muitas incertezas sobre os cenários de produção de gás não convencional nos EUA.

Bibliografia

EIA (2014b), This Week in Petroleum, 8 de outubro de 2014, disponível em http://www.eia.gov/petroleum/weekly/archive/2014/141008/includes/analysis_print.cfm

EBINGER, C e AVASARALA, G (2013) Natural Gas Briefing Document: Natural Gas Liquids.

EIA (2014a) Hydrocarbon Gas Liquids (HGL): Recent Market Trends and Issues

[1] Os líquidos de gás natural podem também ser obtidos a partir do processo de refino do petróleo.

[2] Gás natural com reduzidos percentuais de liquido. Basicamente composto por metano puro.

[3] É importante lembrar que diferente da produção de óleo e gás em formações convencionais, os investimentos de E&P em formações de shale gas e tight gas apresentam um rápido período de recuperação. Enquanto o fluxo de produção em áreas convencionais podem manter-se por 15 a 30 anos, a maior parte da produção de um poço em formações não convencionais ocorre nos primeiros 3 anos. Nesse sentido, o crescimento da produção de gás “não convencional” depende de um continuo investimento em E&P sendo, assim, mais sensível aos preços do gás natural e também do preço do LGN.

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