Grupo de Economia da Energia

Impactos potenciais da Operação Lava-Jato sobre a curva de produção da Petrobras

In petróleo on 20/04/2015 at 00:15

Por Yanna Clara(*) e Edmar de Almeida

yanna042015A Operação Lava-Jato teve consequências importantes para a evolução da produção de petróleo da Petrobras. O último Plano de Negócios da empresa apontava para um rápido crescimento da produção de petróleo que atingiria 4,2 milhões de barris em 2020. Ou seja, a Petrobras pretendia dobrar sua capacidade de produção de petróleo num horizonte de cinco anos. Entretanto, os impactos da Operação Lava-Jato foram muito importantes e comprometeram este cenário. A empresa sofreu grande perda de credibilidade nos mercados financeiros e, por consequência, o crédito – tão necessário para os vultuosos investimentos projetados – ficou muito mais difícil.

O Plano da Petrobras para os próximos anos já era bastante ousado para a exploração e desenvolvimento do Pré-sal. Mesmo em um cenário em que não houvesse a investigação da Operação Lava-Jato, a empresa já estaria com grandes dificuldades em alcançar suas metas: o sobreinvestimento e a alta alavancagem já vinham sendo apontados como grandes questões da estatal. Com o elevado grau de endividamento e a queda brusca do preço do petróleo no final de 2014, a empresa teria inevitavelmente que repensar projetos e prioridades, a fim de viabilizar não só o pré-sal como os demais projetos estratégicos.

O plano e os atrasos

O Plano de Negócios da Petrobras prevê 28 novas plataformas para entrarem em operação entre 2015-2020, de um total de 38 previstas para o horizonte 2013-2020. Dessas, 8 são as FPSOs Replicantes (chamadas assim por utilizarem o mesmo projeto várias vezes) e 4 as da Cessão Onerosa, unidades próprias da Petrobras a serem construídas no Brasil e utilizadas no pré-sal da Bacia de Santos. Além disso, a Petrobras tem em seu portfólio o contrato de 28 sondas da Sete Brasil, empresa criada pela estatal e diversos sócios para a construção de sondas de perfuração no país. Na Figura abaixo temos detalhadas as plataformas que entrariam em operação nos próximos anos e a curva de produção esperada para a empresa; que mais que dobra de tamanho até 2020.

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É importante ter em mente que as fontes de atrasos na construção dessas FPSOs são diversas, uma vez que são muitas etapas envolvidas no processo. Em geral, existe uma empresa responsável pela construção ou conversão do casco da plataforma; outras companhias são responsáveis pela construção dos módulos; e uma terceira responsável pela integração do casco e dos módulos, concluindo a construção da FPSO. Qualquer atraso numa das etapas leva a um atraso na entrega final da plataforma, retardando, portanto, o início da produção do campo de destino.

Para a construção ou conversão dos cascos das 12 FPSOS em questão, foram contratadas apenas dois estaleiros, o Ecovix e o Enseada. O primeiro ficou responsável pelos cascos das 8 FPSOs Replicantes e o segundo pelos 4 cascos da Cessão Onerosa. Assumiu-se um risco elevado com essa estratégia, pois a concentração da construção em poucos estaleiros não tem se mostrado eficiente: qualquer atraso gera um efeito cascata sobre a entrega dos demais, uma vez que o estaleiro, em geral, não constrói duas unidades simultaneamente. Além disso, a situação dos dois estaleiros mencionados é delicada. Ambos foram denunciados na Operação Lava-Jato e vêm enfrentando dificuldades financeiras advindas principalmente devido à restrição de crédito, o que traz mais incerteza à capacidade de conclusão dos projetos.

Dos cascos a cargo da Ecovix, apenas o referente à P-66 está concluído e o da P-67 está com a construção bastante adiantada. O casco da P-68 foi enviado à China para ser finalizado – uma forma de não atrasar mais ainda o andamento das construções. A P-69 também está em construção, enquanto as quatro restantes ainda não foram iniciadas. O Enseada ainda não finalizou nenhum dos cascos sob sua responsabilidade, a previsão é que até junho deste ano o casco da P-74 esteja pronto. Os cascos da P-75 e P-77 estão sendo convertidos na China e devem chegar ao Brasil no fim de 2014.

Os módulos estão sob responsabilidade de dez empresas/consórcios, seis das quais também irão fazer a integração das plataformas. Dentre estas empresas, cinco estão envolvidas nas investigações do Lava-Jato e sofrem dificuldades financeiras por restrição ao crédito. Algumas dessas empresas, como a OSX (em consórcio com a Mendes Jr na Integra) e a TKK Engenharia (em consórcio com a DM Construtora na MGT), estão em processo de recuperação judicial. Outro caso grave é o da Tomé (em consórcio com a alemã Ferrostaal) que vem anunciando o encerramento de suas atividades devido problemas de caixa e escassez de crédito. Um caso especial é o da IESA, que anulou o contrato para construir os módulos de compressão para seis FPSOs Replicantes. A Petrobras está organizando uma nova licitação para esses módulos, que deve ser finalizada ainda nesse semestre. As demais empresas construtoras de módulos mantém o contrato, mas algumas estão com atrasos expressivos.

A integração das 12 plataformas será realizada por seis estaleiros de construtoras distintas. Dentre estas, três estão envolvidas nas investigações da Operação Lava-Jato. A QGI é uma dessas empresas, um consórcio entre Queiroz Galvão e Iesa, que está responsável pela integração e construção de módulos da P-75 e P-77. A empresa paralisou a construção para reivindicar mudanças contratuais com a Petrobras. O Jurong, responsável pelas P-68 e P-71, também vem pressionando a Petrobras. Em ambos os casos, mesmo com limite de finalização da negociação até maio, os atrasos serão expressivos.

As demais plataformas previstas para o período 2015-2020 ou já estão sendo construídas sem atrasos registrados, ou ainda nem foram licitadas. Dentre as previstas para estarem operando a partir de 2018, cinco ainda não foram licitadas e duas delas (P-72 e P-73) ainda não tiveram o serviço de integração contratados. As FPSOs de 2019 e 2020 também não passaram pelo processo de licitação.

O atraso das plataformas é bastante grave e compromete o desenvolvimento da exploração da Petrobras. No entanto não é o único fator: as sondas também podem criar um gargalo para a produção da estatal. Uma plataforma é interligada a diversos poços, se um dos poços não é perfurado, a curva de produção do campo não atinge seu pico no período esperado, mas posteriormente. Ou seja, se não tiver a disposição sondas de perfuração suficientes, a curva de produção final da Petrobras está comprometida.

As 28 sondas de perfuração são responsabilidade da Sete Brasil, empresa privada criada para contratar as construtoras das sondas. O investimento total esperado era de US$ 25,7 bi, dividido em três etapas no período de 2015-2020.

A empresa vem sofrendo grandes problemas financeiros devido ao atraso (e possível cancelamento) da liberação do crédito de longo prazo concedido pelo BNDES – um montante de R$ 10 bi aprovado em 2010. No primeiro momento, o atraso se deu por questões burocráticas do banco e, posteriormente, devido ao envolvimento da Sete Brasil na Operação Lava-Jato, que aumentou a exigência de garantias por parte do BNDES. Ademais, a empresa buscou empréstimos-ponte com diversos bancos e adquiriu dívida de R$ 12 bi, a qual já venceu e foi prorrogada por mais 90 dias em inícios de abril.

A primeira etapa prevista para o biênio 2015/2016 prevê a entrega de oito sondas. Desse grupo, pelo menos as duas que seriam construídas pelo Estaleiro Atlântico Sul (EAS) podem não ficar prontas, dado que o estaleiro declarou intenção de romper o contrato com a Sete Brasil por falta de pagamento. As demais, já estão com construção adiantada e podem vir a ser entregues no prazo, se não ocorrer outro caso como o da EAS.

Com a escassez de recursos, a Sete Brasil vem atrasando o pagamento dos estaleiros. Com a falta de pagamentos, os estaleiros tendem a desacelerar a construção das sondas, já que não é possível pagar os fornecedores. Dessa forma, as demais 20 sondas (do 2º e 3º etapas), que têm previsão de entrega entre 2017 e 2020, se encontram em uma posição de maior incerteza, por estarem em fase inicial do projeto e/ou construção.

Resumindo: de 28 sondas para serem entregues entre 2015 e 2020, somente seis têm alta probabilidade de estarem operando no prazo. A Sete Brasil já é pressionada pelos sócios e credores a repensar o projeto em prol da diminuição do portfólio de sondas e, portanto, da necessidade de financiamento. É esperado que o corte seja entre 12 a 16 sondas de perfuração.

E a produção?

O resultado dos atrasos das plataformas e sondas é inevitável. A esta altura os 4,2 milhões de barris diários (mbpd) previstos pela Petrobras para 2020 são inalcançáveis. Por mais que a estatal se esforce para manter os prazos, a situação das empresas envolvidas no processo Lava-Jato é muito complexa e o desfecho da crise deve levar bastante tempo. Se por um lado é claro que a produção de 2020 será menor que 4,2 mbpd, a queda dependerá da capacidade e agilidade da Petrobras para buscar alternativas e mitigar os atrasos na entrega das plataformas e sondas.

Este mês a Agência Internacional da Energia (AIE) fez uma revisão radical na previsão de produção do Brasil. No seu relatório Medium Term Oil Market Report publicado este mês previu uma produção de 3,2 mbpd para o Brasil. Em 2014 a AIE apontava uma produção de cerca de 4 mbpd em 2020. Ou seja, a AIE está prevendo um impacto muito elevado da crise da Petrobras e das empresas fornecedoras sobre a curva de produção da Petrobras.

Na nossa opinião a previsão da AIE não deve ser vista como um veredicto. A avaliação do impacto da crise atual sobre a curva de produção deve ser feita com cuidado. Este impacto vai depender essencialmente da capacidade operacional e financeira da Petrobras para minimizar os atrasos nos projetos em andamento. É importante não subestimar a capacidade operacional da Petrobras. A empresa é a maior operadora offshore do mundo e tem uma enorme experiência em lidar com atrasos de seus fornecedores. Ademais, a Petrobras vem buscando alternativas para o financiamento dos seus investimentos. Os recentes anúncios da Petrobras sobre o acesso a crédito com bancos Chineses e nacionais, mesmo antes de publicar o balanço, demonstra que a empresa não está parada.

De fato, a Petrobras está ciente da necessidade de rever seu planejamento e lançou em março o comunicado de que está elaborando um grande plano de desinvestimentos, que daria fôlego a empresa para focar nos projetos mais rentáveis e estratégicos. O valor total do plano é de US$ 13,7 bilhões, divididos entre as áreas de E&P no Brasil e no exterior (30%), Abastecimento (30%) e Gás & Energia (40%).

A situação em que a Petrobras se encontra não deixa de ser preocupante e complexa. No entanto, após a mudança da diretoria, os ânimos estão renovados. O balanço auditado deverá sair em breve e um novo plano de negócios está sendo elaborado. Para aumentar a credibilidade afetada pelo escândalo de corrupção, medidas estão sendo tomadas internamente com o objetivo de aprimorar a gestão da empresa, trazendo melhor gestão financeira e governança corporativa. Como era de se esperar, uma empresa do porte da Petrobras tem todas as condições para reverter o quadro desfavorável gerado pelo difícil contexto atual.

Dessa forma, apostar contra a grande petroleira brasileira pode não ser ao final das contas um bom negócio.

Fontes:

Revista Brasil Energia Petróleo e Gás – Abril 2015, “O Plano C para o Pré-sal de Santos”.

Agência Internacional da Energia, “Medium Term Oil Market Report 2015”.

(*) Pesquisadora associada  do Grupo de Economia da Energia

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  1. Excelente leitura

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