Grupo de Economia da Energia

Perspectivas de importação de óleo diesel no Brasil

In diesel, petróleo on 04/05/2015 at 00:15

Por Niágara Rodrigues (*) e Luciano Losekann(**)

luciano052015A forte expansão do consumo de combustíveis no segmento de transportes em anos recentes no Brasil (Figura 1) impõe importantes desafios para a política de segurança energética e para as contas externas brasileiras. Como a capacidade de refino não se expandiu no mesmo ritmo, a necessidade de importações é crescente, implicando no aumento da dependência externa por combustíveis. Os investimentos em novas refinarias que serviriam para contrabalançar o crescimento da demanda tardam a se concretizar e são insuficientes para garantir total autonomia no abastecimento de derivados, situação agravada pelo cancelamento dos projetos das refinarias Premium I e II.

Figura 1 – Evolução do consumo de combustíveis no Brasil – 2000 a 2013

luciano052015aFonte: Elaboração com base em ANP

Em 2013, o déficit de atendimento do consumo de derivados de petróleo alcançou 20%, com destaque ao déficit em diesel e nafta, correspondendo em conjunto a 55% do total da necessidade de importações e consumo de estoques. O déficit de diesel que vinha caindo na década de 2000 voltou a crescer a partir de 2010, recuperando o patamar anterior (em torno de 17-19% da demanda), como apresentado no Figura 2.

Figura 2 – Déficit Nacional de Diesel

luciano052015b

*Déficit Nacional = (Produção Nacional – Consumo)/Consumo Nacional

Fonte: Elaboração própria com dados de EPE/MME

Em função da relevância econômica e energética da importação de volumes tão elevados de óleo diesel, o governo brasileiro, através da Petrobras, tem orientado a expansão do parque do refino para ampliar a oferta doméstica do combustível. No entanto, essa estratégia enfrentou percalços, implicando no adiamento da entrada em operação da refinaria Abreu e Lima e do Comperj e no cancelamento das refinarias Premium I e II.

Este estudo realiza projeções do consumo futuro de diesel no Brasil a fim de averiguar impacto da nova trajetória de expansão do parque de refino na dependência externa no suprimento do combustível.

Com esse objetivo, foram analisados os determinantes da demanda por óleo diesel no Brasil do período de 2000 a 2014 através de observações estaduais anuais a partir de uma especificação de painel dinâmico. Uma vez identificadas as elasticidades, a demanda de diesel foi simulada para o período 2015 a 2023.

A equação de demanda por óleo diesel foi especificada como:

luciano052015c

Onde qit é a quantidade demanda de óleo diesel do estado i no período t, qi,t-1 refere-se à quantidade demandada no período t-1 ,  Pit é  o preço do óleo diesel no estado  i no período t, Rit é a renda, Poit é o número de postos de abastecimento no estado i e  Ft a frota veículos a óleo diesel.

O modelo de demanda apresentou resultados satisfatórios, coeficientes com sinais esperados conforme a teoria econômica e significativos estatisticamente. Para análise da sensibilidade da demanda por óleo diesel aos seus determinantes, a tabela 1 apresenta as elasticidades[1].

Elasticidades da demanda por óleo diesel

luciano052015d

Fonte: Resultados da Pesquisa. Nota: Os valores entre parênteses referem-se aos erros-padrão

***  Significativo a 1%, ** Significativo a 5%, * Significativo a 10%

A demanda é pouco sensível em relação ao preço (inelástica). Uma mudança no preço do óleo diesel em 1%, induz a uma redução de 0,2% no consumo de diesel, tudo mais mantido constante. A baixa elasticidade se deve à inexistência de combustíveis substitutos. Os consumidores apresentaram-se pouco menos sensíveis às variações na renda do que no preço, de modo que uma elevação de 1% na renda do consumidor, mantendo os demais fatores constantes, será capaz de proporcionar um aumento do consumo em, aproximadamente, 0,1%.

Por fim, número de postos em cada Estado e frota de veículos impactam positivamente a demanda por diesel.

O cenário adotado de evolução do PIB encontra-se na Tabela 1. Até 2016, as taxas de crescimento correspondem às estimativas do FMI. Para os anos seguintes, adotou-se as taxas consideradas pela EPE no PDE 2023.

Tabela 1. Cenário de Referência do PIB

Variável

% 2014 – 2018

% 2019 – 2023

% 2014 – 2023

PIB

1,64

4,49

3,06

Fonte: Resultados da Pesquisa

Com relação ao número de postos de gasolina considerou-se que esta variável será constante (valor de 2013).

Por fim, no caso da projeção do preço nacional do óleo diesel foram utilizadas as projeções calculadas no PDE 2023. Foi considerado que o percentual de biodiesel no óleo diesel muda de 5% para 6% em 2014 e para 7% em 2015, permanecendo neste nível até 2023.

A Figura 3 apresenta os resultados da previsão de demanda por óleo diesel brasileiro para o cenário estipulado, com base nas premissas adotadas. Pode-se observar no período de previsão (em vermelho) que o consumo por óleo diesel apresenta um aumento moderado entre os anos 2015 e 2017, e a partir de 2018 o aumento no consumo é mais expressivo, refletindo o comportamento previsto da economia brasileira.

Figura 3. Valores observados e projetados da demanda por Óleo Diesel

luciano052015e

Fonte: Resultados da Pesquisa

Para projetar o balanço entre oferta e demanda, consideramos os atrasos previstos das refinarias Abreu e Lima e  Comperj. O segundo trem da Abreu e Lima iniciaria operação em janeiro de 2016 e o Comperj em dezembro de 2016. As refinarias Premium I e Premium II não são consideradas nesta simulação.

Analisando o balanço de óleo diesel, verifica-se que o país mantém-se como importador líquido na maior parte do período, havendo excedente exportável de diesel apenas em 2017 (figura 4).

Figura 4. Exportação e Importação Líquida de Óleo Diesel: 2015 -2023

luciano052015f

Fonte: Resultados da Pesquisa.

Esse estudo aponta que os esforços para reduzir a dependência externa no suprimento de diesel, que marcaram a estratégia de expansão do parque de refino, não serão efetivos no longo prazo. A continuidade do crescimento do consumo de diesel e os atrasos e cancelamentos da expansão do parque de refino fazem com que as importações, apesar de serem evitadas em 2017, voltem a aumentar em prazo mais longo.

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[1] Elasticidades calculadas no ponto médio da amostra

(*) Doutoranda da Universidade Federal Fluminense

(**) A pesquisa que serviu de base para a análise apresentada nessa postagem foi realizada no âmbito do Centro de Excelência em Economia da Energia, parceria do Grupo de Economia da Energia com o Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP). Brevemente, a pesquisa será divulgada em Texto para Discussão de mesmo título dessa postagem.

Leia outros textos de Luciano Losekann no Blog Infopetro

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