Grupo de Economia da Energia

Os impactos da queda do preço do petróleo no mercado de gás natural

In gás natural, GNL on 11/05/2015 at 00:21

Por Marcelo Colomer

marcelo052015Em 2014, o preço do Brent passou de US$ 108 por barril em janeiro para US$ 57 em dezembro. O desaquecimento da demanda mundial, a elevação da produção de óleo não convencional nos EUA, a ausência de rupturas na oferta global e a decisão dos países membros da OPEP em manter elevado os níveis de produção podem ser entendidos como as principais causas para a queda abrupta de 50% no preço do Petróleo.

Figura 1 – Evolução do Preço do Petróleo (Brent)

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Fonte: EIAa, 2015

Ao longo de 2014, as projeções de crescimento da economia mundial para o biênio 2014/15 foram reduzidas de 3,5% para 3,0% ao ano (EIA, 2014). Com a redução das expectativas de crescimento econômico, reduziu-se também as estimativas de crescimento da demanda global por petróleo. Nesse sentido, a redução das taxas de crescimento econômico de países como China, Brasil e Índia durante o segundo e terceiro trimestre de 2014 afetaram não somente o preço futuro da energia como também os preços de todas as commodities.

Outro fator que contribuiu para o movimento de queda do preço do barril foi a redução das rupturas na produção global. Em junho de 2014, o petróleo atingiu o seu pico de preço no ano em função dos temores de redução da produção iraquiana decorrente dos conflitos armados, em especial na região sul do país. No entanto, o que se verificou de fato na segunda metade de 2014 foi um aumento da produção do oriente médio decorrente do aumento da produção iraquiana e de outros países da região.

Ademais, o crescimento da produção de petróleo acima do esperado na Líbia e nos EUA pressionou para baixo o preço do barril a partir da segunda metade de 2014. Nos EUA, a produção de petróleo em outubro daquele ano atingiu o montante de 9 milhões de barris por dia superando as estimativas de crescimento feitas no início de 2014 (EIAa, 2015). Como consequência do aumento da produção norte-americana, as importações de petróleo dos EUA reduziram-se a níveis modestos amortecendo as pressões de demanda sobre o mercado da bacia do atlântico (Brent). Nesse sentido, o spread entre o WTI e o Brent reduziu-se de US$ 14 o barril em janeiro de 2014 para US$ 4 o barril e dezembro do mesmo ano.

O aumento da oferta mundial de petróleo, contudo, não foi acompanhado pela redução da produção da Arábia Saudita que tradicionalmente vinha desempenhando o papel de swing producer no mercado mundial de Petróleo. Isto é, durante eventos anteriores de declínio dos preços do petróleo, a Arábia Saudita tipicamente reduzia seus níveis de produção para permitir a estabilização dos preços e, eventualmente, o aumento. No entanto, no terceiro e quarto trimestres de 2014, a Arábia Saudita não reduziu os níveis de produção frente ao aumento da oferta no mercado mundial. Além disso, na reunião da OPEP de novembro de 2014, nenhuma alteração foi feita nas quotas de produção. A percepção de que a Arábia Saudita, em vez de tentar estabilizar os preços, ia defender a sua quota de mercado levou a novas descidas nos preços do petróleo bruto.

Um dos principais efeitos da redução recente e persistente do preço do petróleo é a queda vertiginosa dos preços do Gás Natural no mercado internacional. Diferente do mercado de petróleo, onde os preços refletem as flutuações de demanda e oferta do mercado internacional, o comércio de gás segue regras específicas em diferentes regiões. Nos EUA, por exemplo, o preço do gás natural é definido a partir da concorrência entre consumidores e supridores de gás natural nos diferentes hubs[1] de comercialização. Na Europa e na Ásia, por sua vez, o preço do gás natural foi historicamente definido a partir de contratos de longo prazo indexados ao preço do petróleo[2].

A partir de 2009, o crescimento da produção norte-americana de gás natural não-convencional elevou o spread entre o preço do gás nos Estados Unidos e nos demais mercados mundiais (Europa e Ásia principalmente). Em setembro de 2009, a diferença entre o preço spot do gás no mercado norte-americano e no mercado europeu foi de 0,07 centavos de dólares. Em novembro de 2013 essa diferença aumentou para US$ 7,71, como pode ser visto na figura 2.

O distanciamento entre o NBP (National Balance Point) na Inglaterra e o Henry Hub nos EUA reflete exatamente o custo de oportunidade de importação. Na Europa, os preços do gás nos mercados de curto prazo sofrem influência direta dos contratos de importação de gás com a Rússia, que historicamente mantêm-se indexados ao petróleo[3]. No caso norte-americano, o aumento da produção de gás não-convencional transformou o país de importador para potencial exportador de GNL. Nesse sentido, o preço do gás natural nos EUA tem sido condicionado pelas condições internas de oferta e demanda.

Figura 2 – Evolução do Preço do Gás Natural no Mercado Norte-Americano e Europeu

marcelo052015b

Fonte: EIA, 2015b

No mercado asiático, em particular no Japão e na Coréia do Sul, os contratos de importação de GNL são em sua predominância contratos de longo prazo indexados ao Petróleo. Nesse sentido, até 2009 o preço do GNL importado pelo Japão manteve-se próximo aos preços praticados nos EUA[4]. A partir daquele ano, contudo, enquanto o preço do gás na América do Norte se afastava do preço do petróleo, o preço do GNL no mercado asiático iniciou um processo de afastamento em relação ao Henry Hub, como pode ser visto na figura 3. Além do aumento da oferta norte-americana, as restrições no transporte de GNL e o aumento da demanda pelo Japão, após o acidente em Fukushima, contribuíram para o aumento do spread de preço a partir de 2011.

Figura 3 – Preço do Gás Natural no Mercado Japonês e Norte-Americanomarcelo052015c Figura 4 – Preço do Gás Natural no Mercado Japonês e o Preço do Brentmarcelo052015d

Fonte: EIA, 2015b

Recentemente, contudo, a queda no preço do barril de petróleo vem mudando a trajetória ascendente dos preços do GNL no mercado mundial. No mercado japonês, por exemplo, o preço da carga de GNL importada passou de US$ 18,3 por MMBtu em março de 2014 para US$ 7,6 por MMBtu em março de 2015 (METI, 2015). Segundo, estimativas da FERC (FERC, 2015), o preço estimado do GNL para 2015 é de US$ 6,74/MMBtu na Europa, US$ 6,80/MMBtu na Ásia e US$ 7,10/MMBtu na América Latina, o que representa uma significativa queda em relação a 2014.

O efeito da queda do preço do barril sobre o mercado de gás natural deve persistir ao longo de 2015. Isso porque a maior parte dos contratos indexados ao petróleo possuem um lag temporal de correção de seis meses o que significa que atualmente os preços dos hubs (preço spot) europeus se encontram acima dos preços dos contratos de longo prazo. Essa diferença de preço entre o mercado spot e o gás contratado tem reduzido o volume de gás importado via gasoduto na Europa, uma vez que os importadores europeus têm reduzido ao máximo sua compras indexadas em detrimento da aquisição de gás no mercado spot.

A partir da segunda metade de 2015, contudo, estima-se que haverá uma reversão do quadro acima descrito. Isso é, uma vez que os contratos indexados tenham absorvido a elevada queda dos preços do petróleo espera-se que os importadores de gás natural irão maximizar suas compras indexadas vendendo qualquer excesso de gás no mercado spot.

Além das pressões causadas pelas cláusulas de indexação dos contratos de importação sobre o mercado spot europeu, o deslocamento das cargas de GNL da Ásia para a Europa tem pressionado para baixo os preços do gás natural nos hubs europeus. A queda do preço do gás natural no mercado asiático tem feito da Europa um mercado mais atrativo para as cargas de GNL flexíveis. Assim, acredita-se que o fluxo de GNL para a Europa irá aumentar até agosto de 2015 em função não somente dos preços mais favoráveis em comparação ao mercado asiático, como também em função da entrada em operação de novas unidades de liquefação na Austrália, Colômbia e Indonésia.

Nesse contexto, a queda do preço do Petróleo vem afetando os preços relativos do gás natural que por sua vez vem mudando a dinâmica do mercado internacional de gás natural. No mercado europeu, após vários anos de relativa estabilidade, o mercado de gás natural entrou em uma fase de transição mais dinâmica. Assim, a combinação dos perfis dos contratos de importação via gasodutos e o aumento do fluxo cargas de GNL excedentes sugerem uma maior volatilidade dos preços do gás natural nos hubs europeus em 2015.

Figura 5 – Fases do Mercado de Gás Natural

marcelo052015e

Fonte: TIMERA, 2015

Bibliografia

EIA, 2014 Short Term Energy Outlook. Disponível em http://www.eia.gov/forecasts/steo/analysis.cfm. Último acesso em 09/05/2015

EIA, 2015a Year in Review: Crude Oil Price 2014. Disponível em http://www.eia.gov/finance/review/annual/. Último acesso em 09/05/2015

EIA, 2015b Natural Gas Spot and Future Price. Disponível em http://www.eia.gov/dnav/ng/ng_pri_fut_s1_d.htm. Último acesso em 09/05/2015

METI, 2015 Spot LNG Price Statistics. Disponível em http://www.meti.go.jp/english/statistics/sho/slng/. Último acesso em 09/05/2015

FERC, 2015 World LNG Estimated April 2015 Landed Prices. Disponível em  http://www.ferc.gov/market-oversight/mkt-gas/overview/ngas-ovr-lng-wld-pr-est.pdf. Último acesso em 09/05/2015

TIMERA, 2015 The next phase of global gas pricing. Disponível em http://www.timera-energy.com/the-next-phase-of-global-gas-pricing/. Último acesso em 09/05/2015

Notas:

[1] Existem mais de 30 hubs de comercialização nos EUA. Os contratos futuros comercializados na NYMEX são os contratos para a entrega física do gás natural no Henry Hub na Louisiana.

[2] A indexação dos contratos ocorre geralmente com referência a uma cesta de óleos que têm seus preços diretamente associados ao preço do petróleo bruto.

[3] A partir de 2009, ocorre um pequeno afastamento entre o NBP e o Brent em função da influência da queda de preço no mercado norte-americano. Contudo, a reduzida capacidade de exportação de gás natural nos EUA vem impedindo que o efeito da expansão da produção norte-americana de gás natural seja intensificado nos mercados europeu e asiático.

[4] É importante lembrar que até 2009 os EUA importavam quantidades significativas de GNL

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  1. […] indexados ao petróleo e de longo prazo com alguma importação complementar do mercado spot (Ver Colomer, 2015). Desde 2011, com o desastre de Fukushima, o comércio spot se intensificou, elevando […]

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