Grupo de Economia da Energia

Bioeconomia em construção VI – A importância (e a urgência) de se criar uma agenda de inovação para a bioeconomia no Brasil

In biocombustíveis on 24/08/2015 at 00:15

Por José Vitor Bomtempo

vitor082015O post anterior desta série foi desenvolvido em torno de uma pergunta: Existe uma agenda de inovação para bioeconomia no Brasil? A resposta foi negativa. Existem estudos e diagnósticos interessantes, existem programas originais em execução, mas não existe uma visão integrada e articulada voltada para a bioeconomia como é o caso de outros países e regiões importantes do mundo. Os programas, estudos e diagnósticos brasileiros tendem a se dirigir a um dos aspectos da questão, mas sempre de forma isolada, às vezes compartimentada, e desconsiderando o conjunto dos desafios e oportunidades da bioeconomia: cana de açúcar, mas não recursos florestais, resíduos urbanos e outras culturas e resíduos; biocombustíveis, mas não bioprodutos; químicos renováveis, mas não biocombustíveis. Isso sem falar nas inter-relações com a produção de alimentos, com a questão ambiental e com a economia circular.

A iniciativa mais importante, até agora, em torno do conceito de bioeconomia foi, a nosso conhecimento, a da CNI/MEI (Mobilização Empresarial pela Inovação) que realizou três fóruns importantes em 2012, 2013 e 2014, buscando construir uma proposta para o setor. Como resultado, foi elaborado um documento: Bioeconomia, oportunidades, obstáculos e agenda como sugestão ao debate por ocasião das eleições de 2014. A iniciativa é elogiável e deveria ser ampliada com o envolvimento mais abrangente de interlocutores. A agenda de desenvolvimento da bioeconomia para o Brasil identifica três dimensões básicas: biotecnologia industrial, setor primário e saúde humana. Propõe que o Estado priorize ações que possam se constituir como uma plataforma única. Essa plataforma, conjugada com ações específicas para cada área, poderá gerar, segundo a CNI, importantes resultados científicos, tecnológicos e empresariais, traduzidos em benefícios sociais, econômicos e ambientais para o país. O documento é um excelente ponto de partida e deve ser colocado na perspectiva das discussões e iniciativas que se multiplicam atualmente.

Gostaríamos de reforçar a importância, a atualidade e ainda a urgência dessa reflexão. A discussão é oportuna porque pode contribuir, nesse momento de crise, para construir uma agenda para o futuro do país. A discussão é oportuna e importante porque o país tem vantagens comparativas evidentes que permitiriam posição de destaque na bioeconomia mundial. A discussão é urgente porque o conceito de bioeconomia tem sido cada vez mais debatido e estruturado nos principais centros.

Relatórios e estudos têm surgido destacando o potencial e os desafios da bioeconomia no mundo. Ao lado desses documentos, alguns eventos a serem realizados nos próximos meses permitem identificar as questões que se colocam hoje para a bioeconomia.

Divulgado em abril de 2015, o relatório da Comissão Européia From the sugar platform to biofuels and biochemicals traz uma abordagem que discute a competitividade para a produção de biocombustíveis e bioprodutos na perspectiva do conceito europeu de bioeconomia. O relatório explora 94 produtos obtidos a partir de açúcares, destacando os estágios de desenvolvimento desses produtos. Estudos de caso descrevem as proposições de valor, o panorama do mercado e a posição da União Europeia para dez cadeias selecionadas: ácidos acrílico, adípico e succínico, FDCA, BDO, farneseno, isobutene, PLA, PHAs e PE. Ao abordar a competitividade europeia em relação a esses produtos, o relatório conclui que as atividades de P&D são o ponto forte.  Entretanto, a falta de uma atividade comercial mais forte é notável e coloca a Europa em desvantagem em relação aos EUA, Brasil e China que disporiam de uma situação mais favorável em matérias-primas e condições para investimento. Um avanço nas políticas de desenvolvimento é necessário para que a Europa possa construir uma bioeconomia sugar-based competitiva.

Divulgado recentemente, em junho de 2015, o relatório  An Economic Impact Analysis of the U.S. Biobased Products Industry  – A Report to the Congress of the United States of America, redigido para o USDA por pesquisadores da Duke University e da North Carolina State University,  dimensiona o tamanho da bioeconomia americana e sua importância econômica. A contribuição da bioeconomia para a economia americana é avaliada a partir de sete setores principais: agricultura e floresta, biorrefino, produtos químicos biobased, enzimas, garrafas e embalagens em bioplásticos, produtos florestais e têxteis. O relatório exclui os setores de energia, pecuária, alimentos, rações e produtos farmacêuticos.

A contribuição total da indústria biobased para a economia dos EUA em 2013 foi calculada em US$369 bilhões (em valor adicionado), gerando quatro milhões de empregos, dos quais 1,5 milhões empregos diretos. Além da metodologia para definição do valor gerado pela bioeconomia americana, o relatório desenvolve uma série de estudos de casos abordando o desenvolvimento, a produção e o uso de bioprodutos por algumas empresas que exercem papéis diferentes na cadeia produtiva da bioeconomia, tais como Ford, John Deere, Penford, Novozymes, Coca-Cola, DuPont e Patagonia. 

A agenda atual da bioeconomia pode ser ainda percebida com base nas propostas de congressos e conferências programados para os próximos meses. Destacamos três deles que ocorrerão na Europa e que permitem identificar agendas tanto empresariais quanto governamentais.

O 8th Annual EFIB European Forum for the Industrial Biotechnology, que ocorrerá em Bruxelas em outubro próximo, inclui “and Bioeconomy” como denominação do evento. O evento tem foco nas iniciativas empresariais e reúne cerca de 700 participantes.

A inserção da bioeconomia como tema central aparece destacando uma definição abrangente de bioeconomia: “The ultimate aim of the bioeconomy is to help keep Europe competitive, innovative and prosperous by providing sustainable, smart and inclusive economic growth and jobs, and by meeting the needs of a growing population whilst protecting our environment and resources.” A definição europeia de bioeconomia tem incluído, além de biocombustíveis e químicos, alimentos e rações. Os documentos da União Europeia estimam o valor da bioeconomia na Europa em mais de €2 trilhões anuais, empregando mais de 22 milhões de pessoas. Esses valores se baseiam em critérios diferentes dos estabelecidos pelo relatório americano, incluindo um número muito maior de setores e atividades. Os valores não são, portanto, comparáveis.

Os dois temas das plenárias do EFIB dão uma visão da abrangência do conceito de bioeconomia que esse fórum empresarial pretende colocar em discussão: The business of Industrial Biotechnology – new business models to drive the European bioeconomy forward e Bioeconomy and the circular economy.

Dois outros eventos têm iniciativa no nível de governos mas trazem uma grande proximidade com os temas do EFIB. São eles: a primeira conferência do G7 sobre Innovative Biobased Products: Opportunities for substituting non-renewable resources” , e o Global Bioeconomy Summit.

A conferência a ser promovida pelo G7, em novembro próximo, em Berlim, deriva de uma iniciativa que surgiu no âmbito do grupo para abordar a eficiência no uso dos recursos. A agenda inclui: Opportunities for substituting non-renewable resources with sustainable renewable resources – Strategic approaches in the G7, Biobased value chains for sustainable and innovative products, Resource efficiency opportunities in the building sector, International trading of biomass feedstocks and biobased products: measurement, certification and implementation of sustainability, International cooperation and next steps.

Já o Global Bioeconomy Summit, organizado pelo German Bioeconomy Council, em novembro próximo, também em Berlim, ambiciona ser a primeira reunião de discussão global de políticas envolvendo a bioeconomia. O objetivo é buscar a construção de quadros de referência globais que possibilitem o desenvolvimento de políticas para a construção da bioeconomia no mundo. Na visão desse fórum, a bioeconomia envolve múltiplas e ambiciosas promessas, incluindo a segurança alimentar, o desenvolvimento sustentável, o crescimento econômico e a conservação dos recursos naturais escassos. O evento pretende reunir mais de 500 líderes da política, pesquisa, indústria e sociedade civil envolvidos com a bioeconomia.

Os relatórios e conferências que revisamos brevemente  mostram que a visão atual em torno da bioeconomia é de construção de uma atividade capaz de contribuir de forma expressiva para a economia do século XXI, utilizando recursos renováveis para gerar, de forma integrada e sustentável, diversos produtos e serviços essenciais tais como energia, produtos químicos, materiais, alimentos, rações, produtos relacionados à saúde. As definições e abordagens consideram, em cada caso, um conjunto diferente de produtos e atividades. As ilustrações apresentadas – o documento da CNI, o relatório do USDA e os eventos europeus – evidenciam definições com graus de abrangência muito variados. Constata-se assim, uma diversidade de definições e critérios de avaliação, de certa forma adaptados a cada caso particular. Cabe portanto discutir a adequação dessas definições para o caso brasileiro.

Mas cabe principalmente enfatizar que essa agenda não pode ser esquecida pelo país. As vantagens comparativas na agricultura e na produção de biomassa, a capacidade de inovação comprovada nessa área (soja, cana de açúcar e recursos florestais), a experiência dos programas de biocombustíveis, principalmente do etanol, a existência de uma base de conhecimento e recursos humanos que pode ser aprimorada e avançar nas áreas de ponta requeridas, são pontos que nos dão o direito de sermos ambiciosos quanto ao espaço que o Brasil pode ocupar na bioeconomia.

Reiteramos, portanto o chamado para um esforço de discussão e construção de uma agenda de inovação para a bioeconomia no Brasil. As nossas iniciativas na UFRJ, no Grupo de Economia da Energia do Instituto de Economia e no Grupo de Estudos em Bioeconomia da Escola de Química, pretendem buscar esse caminho.

Leia outros textos de José Vitor Bomtempo no Blog Infopetro

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