Grupo de Economia da Energia

Impactos macroeconômicos da crise na indústria de petróleo no Brasil

In petróleo on 26/10/2015 at 00:15

Por Marcelo Colomer e Niágara Rodrigues (*)

marcelo102015Sessenta bilhões de reais de investimento, 5,7 por cento da formação bruta de capital e 60 mil empregos gerados; esses são dados referentes às atividades de exploração e produção (E&P) de petróleo e gás natural no ano de 2013 no Brasil (COLOMER, M e RODRIGUES, N 2015). Até aquele ano, os investimentos nas atividades de exploração, produção e no segmento de downstream influenciaram positivamente as variáveis macroeconômicas no país, como emprego e geração de renda. A partir de 2014, no entanto, a reversão do cenário internacional, os problemas de caixa enfrentados pela Petrobras e as mudanças ocorridas no ambiente de negócio da indústria petrolífera nacional alteraram a direção de seus impactos sobre a economia brasileira. Nesse sentido, a partir do anúncio de cortes significativos nos investimentos projetados para os próximos cinco anos pela Petrobras, surge a preocupação de qual será a consequência da redução dos níveis de atividade de exploração e produção de petróleo e gás natural sobre o emprego e renda.

Em 2013, a expansão dos investimentos verificada na indústria petrolífera no Brasil aumentou, significativamente, a participação do setor no emprego nacional. Em outros termos, o efeito direto, indireto e induzido dos investimentos na indústria petrolífera tem se mostrado muito importante na trajetória de redução dos índices de desemprego e informalidade da economia brasileira. Entre 2007 e 2013, por exemplo, o emprego total na indústria de petróleo e gás natural cresceu 22% com destaque para o emprego no segmento de E&P que expandiu, no mesmo período, 42% (CAGED, 2015).

A partir de 2014, contudo, a redução do ritmo de investimento na indústria petrolífera nacional, em especial no segmento de E&P, vem reduzindo o nível de emprego no setor. Segundo dados da CAGED (2015), desde 2014 vem se verificando não somente uma redução no total de postos de trabalhos como também uma queda na participação do E&P no total de mão-de-obra empregada no setor de petróleo e gás natural. Em 2012, por exemplo, o segmento de E&P ocupou 62 mil trabalhadores celetista o que representou 12% do total de emprego da indústria de petróleo e gás nacional. Em agosto de 2015, o volume de trabalho empregado no E&P caiu para 55 mil e sua participação no total da indústria petrolífera reduziu-se para 10%. O gráfico abaixo mostra a evolução do emprego no segmento de E&P no Brasil.

Figura 1 – Evolução do Emprego Formal no Segmento de Exploração e Produção de Petróleo e Gás Natural

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Fonte: Elaboração com base em Caged

Nota: Estoque Base para Recuperação: 01/01/2015

Entre as regiões do país, a região Sudeste tem sido aquela que mais vem sofrendo com a queda no nível de investimento na indústria de petróleo e gás natural tendo sido responsável por 54% da redução do nível de emprego no setor petrolífero no mês de agosto (CAGED, 2015). A redução do nível de emprego na região Sudeste reflete a importância do Rio de Janeiro na atividade de E&P no Brasil.

Em 2014, segundo dados da CAGED (2015), o estado do Rio de Janeiro foi responsável por 64% dos postos de trabalho da atividade de E&P no Brasil. Em 2008 e 2009, essa participação ultrapassou 80% o que evidencia a importância da indústria fluminense de petróleo. Nesse sentido, com a redução do nível de investimento no setor petrolífero, o contingente ocupado no setor de E&P do estado passou de 41 mil em 2013 para 35 mil em agosto de 2015, o que representou uma redução de 15% no emprego do setor.

O aumento do desemprego verificado no setor de petróleo e gás natural no Brasil, embora reflita em parte as especificidades conjunturais da economia brasileira, segue a tendência verificada na indústria global de óleo e gás. Nos EUA, por exemplo, a indústria extrativa, onde está classificada as atividades associadas a extração de petróleo e gás natural, perdeu, em 2015, 30 mil postos de trabalho (Bureau of Labor Statistics, 2015). Na indústria como um todo, estima-se que 51 mil empregos tenham sido eliminados em função da revisão dos investimentos na indústria petrolífera decorrente da manutenção dos preços reduzidos do petróleo.

As empresas de serviços como Schlumberger, Baker Hughes e Halliburton tem sido as mais afetadas com a redução do preço do barril no mercado internacional. No primeiro trimestre de 2015, a Shlumberger anunciou a demissão de 9 mil empregados enquanto a Baker Hughes reduziu 7 mil postos de trabalhos em suas operações nos EUA. O gráfico abaixo mostra as empresas prestadoras de serviço que mais demitiram em 2015 nos EUA.

Figura 2 – Maiores Demissões na Indústria de Petróleo Norte-Americana em 2015

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Fonte: Challenger, Gray & Christimas, 2015

A preocupação atual é que se o preço do petróleo não mostrar uma tendência de recuperação, as empresas operadoras como Chevron, ConocoPhillips e ExxonMobil, que ainda não reduziram significativamente seus efetivos, deverão rever seus planos de investimento para baixo o que levará, inevitavelmente, a redução do emprego. Isso porque muitos projetos de exploração já iniciados estão chegando em suas fases finais e, a não ser que novas campanhas exploratórias se iniciem, as equipes deverão ser desmobilizadas.

A redução do emprego no setor de petróleo traz grandes preocupações para a economia Norte-Americana em função da importância que o setor passou a desempenhar a partir de 2011. Isso porque desde o “boom do Shale Gas” o emprego no setor de petróleo e gás nos EUA vem crescendo o dobro do resto da economia norte-americana. Nesse contexto, a redução do dinamismo da indústria de petróleo e gás natural possui um grande impacto no nível de emprego nos EUA.

No outro lado do Atlântico, a Noruega presenciou, em 2015, um nível de desemprego de 4,1% da força de trabalho, o maior valor em anos. Isso se deve basicamente as demissões ocorridas na indústria de petróleo. Esse cenário, tende a piorar uma vez que a petrolífera estatal norueguesa, Statoil, registrou o seu pior resultado dos últimos anos. Nesse contexto, acredita-se que a empresa deverá iniciar um processo de reestruturação e redução de custos que, provavelmente, envolverá mais demissões.

Nesse contexto, fica evidente que parte dos problemas verificados atualmente na indústria de petróleo brasileira reflete as mudanças ocorridas no cenário internacional a partir do segundo semestre de 2014. A indústria de energia mundial vem passando por profundas transformações. A expansão das fontes de energia renováveis, o aumento das pressões ambientais e o surgimento de novos players na indústria de petróleo e gás natural vêm suscitando importantes mudanças estruturais nos setores energéticos o que intensifica o cenário de incerteza e volatilidade de preços.

Contudo, a queda do preço do barril no mercado internacional não consegue explicar completamente os problemas da indústria petrolífera brasileira. O investimento acumulado da Petrobras no segmento de E&P entre 2006 e 2014 foi de R$ 319 bilhões sendo que este passou de um montante anual de R$ 15 bilhões, em 2006, para R$ 56 bilhões, em 2014. Em 2013, o investimento realizado pela empresa somente no segmento de E&P correspondeu a 5,7 % da formação bruta de capital fixo no Brasil (IBGE, 2015).

Esse acelerado aumento das inversões nas atividades de E&P, no entanto, foi acompanhado por uma elevação dos níveis de endividamento da Petrobras. Em 2010, o nível de alavancagem da empresa foi de 17% enquanto a relação dívida líquida/EBITDA ficou em 1,0. No segundo trimestre de 2015, o nível de alavancagem da empresa havia subido para 51% e a relação dívida líquida/EBITDA para 4,6 (PETROBRAS, 2015). Esse aumento do nível de investimento reflete não somente a expansão acelerada dos investimentos associados a exploração do cluster do pré-sal como também os problemas de caixa associados a política de administração de preços praticadas pelo governo brasileiro nos últimos anos (OLIVEIRA, P e ALMEIDA, E, 2015). Nesse contexto, no início de 2015 a Petrobras anunciou uma redução dos investimentos até 2019 de 76 bilhões de dólares que equivale a uma diminuição de 37% em relação ao anunciado no Plano de Negócios 2014-18.

A queda de 37% dos investimentos associada à elevada importância da indústria de Petróleo na economia brasileira traz importantes indagações. Primeiramente, qual será o impacto da queda do investimento no setor de petróleo brasileiro sobre a renda nacional? Segundo, qual será a consequência da redução do esforço exploratório sobre o nível de emprego? Terceiro, qual são as ações de política pública que podem e devem ser elaboradas para reativar os investimentos no setor petrolífero nacional?

A complexidade do cenário internacional e as dificuldades políticas e econômicas enfrentadas pelo governo brasileiro tornam extremamente difícil qualquer prospecção de possíveis respostas para as questões acima. A única certeza que se tem é que o reestabelecimento de um ambiente favorável de investimento na indústria de petróleo no Brasil é de extrema importância para a recuperação da economia brasileira e estabilização das variáveis macroeconômicas.

Bibliografia

Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Dados Estatísticos Mensais < http://www.anp.gov.br/>

Caged. Ministério do Trabalho e emprego < http:// http://bi.mte.gov.br/bgcaged >

IBGE, 2015; Séries Históricas e Estatísticas. Diretoria de Pesquisa. Coordenação de Contas Nacionais. Rio de Janeiro.

Banco Central do Brasil, 2015. Séries temporais. http://www.bcb.gov.br

PETROBRAS, 2015 Disponível em h ttp://www.investidorpetrobras.com.br/pt/resultados-financeiros#topo

OLIVEIRA, P e ALMEIDA, 2015 E Impactos da política de preços dos combustíveis sobre a Petrobras Disponível em https://infopetro.wordpress.com/2015/05/18/impactos-da-politica-de-precos-dos-combustiveis-sobre-a-petrobras/

Bureau of Labor Statistics, 2015. Disponível em http://www.bls.gov/iag/tgs/iag21.htm

: Challenger, Gray & Christimas, 2015 Disponível em  https://www.challengergray.com/press/press-releases

(*) Doutoranda da Universidade Federal Fluminense

Leia outros textos de Marcelo Colomer no Blog Infopetro

  1. Qual a sua opinião sobre o impacto da interrupção das licitações para concessão de blocos exploratórios? A 10a rodada foi em 2008, enquanto a 11a rodada aconteceu só em 2013. O que esses cinco anos fizeram para a manutenção de investimentos em E&P por empresas privadas? Em que situação estaríamos se se houvesse liberados novos blocos para exploração entre 2009-2013?

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