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Desafios para o Brasil no novo cenário do mercado internacional de petróleo

In petróleo on 02/11/2015 at 00:15

Por Edmar de Almeida

edmar112015O Brasil foi pego no contrapé pela mudança inesperada do contexto do mercado mundial de petróleo. O país se lançou no desafio de desenvolver uma nova fronteira petrolífera, de custo elevado, num contexto de preços altos. Entretanto, a forte queda dos preços a partir do final de 2014 passou a desafiar a sustentabilidade econômica do projeto de expansão da produção de petróleo brasileira. Desta forma, o contexto do mercado mundial de petróleo impõe uma agenda de reflexões e discussões sobre as melhores estratégias para garantir a sustentabilidade econômica do projeto do Pré-sal.

A mudança do cenário do mercado mundial de petróleo

A produção mundial de petróleo aumentou mais do que a demanda a partir do início de 2014. O excesso de oferta de petróleo no mundo ultrapassa os 3 milhões de barris por dia atualmente. Diante do excesso de oferta, trava-se uma batalha econômica para se decidir quem será o swing producer que pagará o preço do ajuste. A recusa dos países da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), em particular da Arábia Saudita, de reduzir seu teto de produção e jogar seu papel histórico de swing producer, exacerbou o nível de incerteza do mercado. Desde então, as especulações sobre o que pode acontecer com a oferta e demanda vêm ditando o ritmo do mercado. Trata-se de uma grande disputa econômica em que os principais atores são os Estados Unidos, a China, a Rússia, a Arábia Saudita e o restante da OPEP.

Os Estados Unidos foram responsáveis pela queda do preço do petróleo no mercado internacional ao aumentarem a produção de petróleo e líquidos de gás natural em aproximadamente 5 milhões de barris por dia (mb/d) entre 2010 e 2014. Ao mesmo tempo, o consumo de petróleo do país manteve-se estável em torno dos 19 mb/d no mesmo período.  O resultado foi a redução drástica das importações de óleo de fora da América do Norte colocando enorme pressão sobre a OPEP para buscar mercados alternativos.

Após a queda dos preços do petróleo, a produção de americana mostrou grande resiliência; no entanto, começou a cair de forma moderada a partir de abril de 2015. A produção caiu de um patamar de 9,6 mb/d para 9,3 mb/d em junho de 2015. Esta queda é modesta e se depender dos Estados Unidos, o ajuste no mercado mundial pode demorar muito.

A OPEP não apenas se recusou a jogar o papel de swing producer, mas encontra-se, neste momento, totalmente desarticulada para buscar um acordo para a divisão dos custos do ajuste no mercado internacional de petróleo. Na ausência total de uma convergência política e econômica entre a Arábia Saudita e seus aliados (Kuwait e Emirados), o Irã (que tem governo) e o Iraque e Líbia (que não têm governo) impedem um acordo para estabilizar o mercado de petróleo. A OPEP não apenas não reduziu as cotas de produção de 30 mb/d, mas está produzindo acima dela. A Arábia Saudita produziu 10,56 milhões de barris por dia em junho, o maior valor já registrado para o país.

O acordo nuclear do ocidente com o Irã esteve por trás do colapso e da mínima dos preços no mês de agosto. Certamente, o potencial de oferta de óleo adicional do Irã a partir de 2016 deverá ser um tema a ser equacionado pela OPEP antes que a organização possa atingir um novo equilíbrio político.

Diante da falta de perspectiva de uma convergência política na OPEP, qualquer sinal de fato novo na oferta ou demanda é motivo para correria nos mercados. A recente crise bursátil da China e uma possível queda da demanda naquele país foi motivo para alimentar pressões baixistas. Os possíveis impactos econômicos e políticos da queda das receitas do petróleo em países petroleiros economicamente fragilizados como Rússia, Venezuela e Nigéria também alimentam especulações.

Neste contexto, a volatilidade tende a dominar o mercado internacional. O processo de ajuste via mercado tende a levar tempo e, enquanto isto, os aspectos geopolíticos alimentarão a especulação. Às empresas petrolíferas resta apenas o caminho da prudência e da busca da eficiência operacional.

Desafios do Novo Cenário do Mercado Mundial para o Brasil

A queda do preço do petróleo coloca um enorme desafio para o Brasil. Basicamente, dois grandes problemas surgiram no horizonte. O primeiro é como garantir o equilíbrio econômico e financeiro da Petrobras, com um nível razoável de investimentos da empresa. O segundo é como reduzir o atual patamar de custos de produção de petróleo na área do Pré-sal para um patamar seguro. Obviamente, os dois problemas estão relacionados.

Quanto ao primeiro problema, é importante ressaltar que o setor petrolífero nacional depende da Petrobras. Cerca de 70% dos investimentos atuais são realizados pela empresa. Este patamar de participação nos investimentos pode ser eventualmente reduzido através da venda de ativos pela Petrobras, porém, certamente, a Petrobras ainda capitaneará a maioria dos investimentos no setor petrolífero nacional. Desta forma, um problema de fluxo de caixa da Petrobras pode ocasionar uma desorganização de todo o setor de petróleo e gás no país.

O segundo desafio é o custo. O preço de viabilidade (break-even) atual dos projetos da área do cluster do Pré-sal encontra-se no patamar entre 50 a 55 dólares por barril. Este não é um patamar seguro para os custos do Pré-sal no atual contexto do mercado mundial de petróleo. Apesar da maioria das consultorias sobre preço de petróleo indicar uma tendência de elevação do preço do Pré-sal para o médio e longo prazos, existem grandes incertezas no horizonte.

O setor energético mundial passa por uma transição. Pelo lado da demanda, existe uma tendência baixista em função da forte penetração de fontes renováveis de energia e possíveis restrições ao consumo de combustíveis fósseis para combater o aquecimento global. Pelo lado da oferta, observa-se a revolução tecnológica dos não convencionais com uma redução do custo marginal de longo prazo da produção de petróleo em bacias terrestres. Estas duas tendências de longo prazo podem resultar em preços de petróleo menores do que o esperado atualmente.

Diante do exposto, se o Brasil quiser garantir seu espaço como um novo grande exportador de petróleo, a melhor estratégia é buscar um patamar de custos de produção seguro. Ou seja, significativamente abaixo de outras áreas produtoras de petróleo com custo elevado (areias betuminosas do Canadá e Petróleo não convencional na América do Norte). Atualmente, este patamar seguro seria algo em torno dos 30 dólares por barril.

Uma Agenda para a Política Petroleira Nacional

Diante dos novos desafios colocados pelas mudanças no cenário do mercado mundial de petróleo é urgente uma discussão sobre os rumos da política petroleira nacional. A deterioração econômica do setor tem sido muito rápida e exige respostas à altura. É importante ressaltar que a política petroleira atual (materializada nas leis setoriais aprovadas em 2010) foi discutida e implantada em um contexto de preços elevados. Naquele momento, a viabilidade econômica da expansão da produção de petróleo no Brasil era uma questão dada.

No contexto de preços elevados, o valor de mercado da Petrobras atingiu níveis recordes em 2007 superando a Shell. Em 2010, a empresa fez a maior capitalização da história moderna levantando um total de R$ 120,2 bilhões, sendo R$ 45,2 bilhões de recursos novos para serem investidos pela empresa. Com a queda de preços do petróleo, somado o escândalo de corrupção, a situação da empresa deteriorou-se rapidamente. A Petrobras tornou-se uma grande fonte de preocupações da sociedade brasileira. A situação da empresa lança uma nuvem de incertezas no antes promissor horizonte de expansão do setor de petróleo.

Muitas razões foram apontadas para justificar o desempenho pior que o esperado da Petrobras: baixa eficiência operacional; custos excessivos em função das restrições colocadas pela política de conteúdo local; excesso de intervencionismo do governo na empresa, em particular no que tange ao controle de preços; dentre outras. Entretanto, o debate tem dificuldade de hierarquizar os fatores que determinam o atual contexto econômico do setor petrolífero nacional.

É importante clarear o horizonte do setor petróleo e afastar as incertezas em torno da sustentabilidade econômica da Petrobras. Para isto, será importante uma política setorial que deixe claro que a prioridade para o país é o cumprimento das metas de produção de petróleo e gás já estabelecidas e contratadas pelas empresas. Mesmo com as sucessivas revisões para baixo, a manutenção dos investimentos da Petrobras no patamar de 20 bilhões de dólares representa um enorme desafio.

Caminhos para a Sustentabilidade dos Investimentos da Petrobras

É necessário um posicionamento firme do governo de que a política de preços dos combustíveis estará alinhada com o objetivo da expansão. A falta de uma política clara para a precificação dos derivados e a manutenção dos preços abaixo do nível internacional não apenas sacrifica o caixa da Petrobras. O risco do desalinhamento dos preços doméstico afugenta investidores privados da área de refino de petróleo. Neste contexto, a Petrobras passa a ser a única empresa com a responsabilidade de investir no downstream e garantir o abastecimento nacional de combustíveis. Portanto, é fundamental buscar caminhos para que outras empresas possam investir no downstream, inclusive em parceria com a Petrobras. Isto dará mais fôlego à empresa para seus investimentos na área do Pré-sal.

Com o forte crescimento da demanda de derivados no Brasil, a Petrobras foi obrigada a se lançar em uma dupla frente de investimentos, no refino e no aumento da produção de petróleo. O principal motivo para o desempenho econômico preocupante da Petrobras está no ritmo e prioridades dos investimentos da empresa. As elevadas necessidades de investimento do segmento downstream ameaçaram a sustentabilidade econômica da Petrobras e, por consequência, sua capacidade de aproveitar as oportunidades no upstream.

Num contexto de crise financeira da Petrobras, as empresas parceiras também serão forçadas a reduzir seus esforços de investimento, a não ser que a Petrobras opte por reduzir fortemente suas participações no upstream, o que não seria desejável do ponto de vista estratégico e econômico para a empresa. Neste sentido, é fundamental uma revisão da atual política de preços de derivados de petróleo no Brasil de forma a garantir um alinhamento com o mercado internacional, permitindo-se uma redução de riscos para uma participação privada no segmento de refino e importação de derivados.

Além de uma política que contribua para reduzir as restrições financeiras da Petrobras, é importante reconhecer que o tamanho e a complexidade do programa de investimentos da Petrobras exigem um nível de gestão operacional, financeira e tecnológica de excelência. É fundamental melhorar a qualidade da relação entre a União e a Petrobras. Se, por um lado, a Petrobras representa um importante instrumento para a implementação de políticas públicas de interesse nacional, por outro lado, é fundamental que a empresa possa mobilizar livremente seus excelentes recursos humanos, tecnológicos e empresariais.

Uma Agenda para Redução dos Custos de Produção

Para viabilizar reduções significativas de custo e aumento dos investimentos no Pré-sal será fundamental que as empresas busquem novas estratégias tecnológicas e econômicas, além de um ambiente regulatório que facilite a implantação das estratégias para redução de custos. Para isto, vários desafios econômicos e regulatórios deverão ser enfrentados. Dentre muitos problemas, três são mais importantes para uma agenda de sustentabilidade dos investimentos: i) eliminação das restrições para que empresas privadas operem campos no Pré-sal; ii) redução dos custos regulatórios associados à diversidade de contratos e regimes fiscais existentes na área do Pré-sal; iii) aprimoramentos da política de conteúdo local.

A regra de operadora única contribui para reduzir a competição no mercado de exploração e produção brasileiro, tornando o mercado fornecedor de apenas um comprador. Desta forma, esta regra implica ausência do principal ingrediente para a redução de custos em qualquer mercado, a concorrência. Com uma operadora única, não existe a confrontação entre diferentes estratégias tecnológicas e comerciais. Além disto, esta regra reduz o nível de investimentos ao restringir o ritmo de investimento à capacidade econômica da Petrobras.

A diversidade de regimes fiscais também representa um desafio importante. Atualmente, existem vários campos em desenvolvimento na área do Pré-sal sob o regime de concessão, cujo reservatório ultrapassa o ring fencing do campo. Nestes casos, a parcela do petróleo que está na área não concedida da União deve ser desenvolvida através com um contrato de Partilha de Produção. Assim, o processo de unitização das parcelas do campo sob o regime de concessão com as parcelas sob o regime de partilha demanda negociações intermináveis entre as empresas e os órgãos estatais (ANP e PPSA); o que contribui para encarecer os projetos. Ao alongar o tempo de desenvolvimento dos projetos, o custo final aumenta de forma significativa. Assim, é fundamental se buscar alternativas regulatórias para diminuir a complexidade contratual na área do Pré-sal.

A política de Conteúdo Local representa outro desafio no contexto atual. A política de conteúdo local adotada nos últimos 10 anos cumpriu um papel importante para estruturar uma indústria parapetrolífera no Brasil. Entretanto, a política foi estruturada subestimando os trade-offs entre conteúdo local e investimento em cenários adversos. Num contexto de preços elevados, a premissa era que o custo do conteúdo local era suportável. Assim, era justo que parte da renda petroleira fosse canalizada para desenvolver a indústria nacional.  Entretanto, no contexto atual de preços baixos, o eventual custo mais elevado do conteúdo local representa uma barreira importante para a retomada dos investimentos no Brasil. Desta forma, é importante revisitar a política de conteúdo local buscando identificar o que é possível e viável de ser feito no país no presente contexto.

Além do problema de competitividade dos bens e serviços nacionais, a política de conteúdo local apresenta um custo regulatório muito elevado para as empresas e o governo. Desta forma, é fundamental se buscar novas diretrizes e instrumentos para a política de conteúdo local. Este aprimoramento significa uma sofisticação da política no sentido de viabilizar o desenvolvimento de um setor de bens e serviços competitivo e inovador.

Leia outros textos de Edmar de Almeida no Blog Infopetro

  1. “O segundo desafio é o custo. O preço de viabilidade (break-even) atual dos projetos da área do cluster do Pré-sal encontra-se no patamar entre 50 a 55 dólares por barril. Este não é um patamar seguro para os custos do Pré-sal no atual contexto do mercado mundial de petróleo. Apesar da maioria das consultorias sobre preço de petróleo indicar uma tendência de elevação do preço do Pré-sal para o médio e longo prazos, existem grandes incertezas no horizonte.”

    O preço de viabilidade do pré sal utilizado como premissa básica deste texto está incorreto de acordo com diretora da Petrobras:

    “Nós podemos garantir que o pré-sal é viável com um custo de produção de nove dólares por barril. Se considerarmos que duas FPSOs [plataformas de petróleo] ainda não estão produzindo com sua capacidade total, o custo de produção será menor ainda. A eficiência operacional em torno de 92% contribuiu significativamente para atingirmos estes custos baixos”, afirmou.

    http://jornalggn.com.br/noticia/em-cerimonia-de-premiacao-diretora-fala-

  2. Além de utilizar como premissa informação que , no mínimo, é contraditória. O texto utiliza também outros 2 argumentos completamente fora da racionalidade econômica.

    Um deles é defender que a Petrobras se concentre totalmente no upstream e relegue o downstream, inclusive procurando sócios e permitindo novos concorrentes. Ora num cenário d ebaixa nos preços do petróleo, o que tem garantido os lucros da empresa é justamente o downstream. é a vantagem de ser uma empresa “integrada”, quando a matéria prima cai de valor é possível manter ou aumentar ganhos em produtos de valor agregado, como combustiveis, polimeros, fertilizantes, etc. Ou seja o raciocínio do texto é completamente anti-econômico e ilógico em sua defesa da abertura do mercado nacional.

    O segundo é afirmar que a Petrobras como operadora única, de alguma forma restrinja a concorrência por parte de seus fornecedores. Ora, é uma premissa econômica básica , a de “Oligopsônio”. o contrário de Oligopólio. Um cenário onde há muitos fornecedores e poucos compradores, o preço é altamente influenciado para baixo pelo comprador principal. E o texto quer nos convencer do contrário de maneira esdruxula…. Ideologicamente defendendo outros operadores….

    Os neoliberais gostam de taxar outros pensamentos como “ideologicos”, mas constantemente fogem da racionalidade ao defender teses sem pé nem cabeça em prol do Deus Mercado…

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