Grupo de Economia da Energia

Preços internacionais do petróleo: principais impactos da recente queda de preços

In petróleo on 15/02/2016 at 00:15

Por Helder Queiroz

helder022016Desde o início do século XXI, o mercado internacional do petróleo tem confirmado uma de suas principais características: a dificuldade de antecipação do comportamento dos preços. Historicamente, períodos de estabilidade são raros e constituem a exceção; a volatilidade é a regra desse mercado. Várias flutuações de preços, com altas e quedas expressivas, podem ser aqui lembradas.

A virada do século foi marcada, após um longo período de baixos preços do petróleo entre 1986 e 1999, por uma trajetória ascendente, atingindo recordes históricos, em termos nominais, em 2008, ultrapassando a barreira dos US$ 140 por barril e retornando a patamares inferiores a US$ 30 por barril no início de 2016.

Não obstante a queda recente de preços ter sido muito expressiva e rápida, saindo de US$ 100 para cerca de US$ 30 em dezoito meses, este episódio é apenas um a mais a ser registrado e interpretado. De fato, a história do petróleo permanece sendo escrita pelo jogo dos fundamentos técnicos, geológicos, geopolíticos e econômicos que contribuem para explicar tais flutuações.

Entretanto, cabe sublinhar que o movimento recente de forte redução já apresentava sinais estruturais há alguns anos. É importante lembrar que as condições de oferta e de demanda do mercado internacional do petróleo obedecem à evolução das decisões das empresas em matéria de investimentos tanto no que tange o petróleo bruto, mas também à capacidade de refino. Ou seja, ciclos de ampliação de investimentos, e de consequente sobrecapacidade anos depois, são absolutamente naturais nesta indústria.

No que concerne especificamente ao mercado de petróleo bruto, o analista cuidadoso deve observar não apenas as taxas de crescimento do consumo, mas também a taxa de crescimento do aumento das importações. Esta última variável é igualmente importante para explicar as flutuações dos preços, pois retrata de forma mais precisa a situação do comércio internacional.

Neste sentido, vale igualmente destacar, para entendermos o episódio recente, o comportamento dos Estados Unidos neste mercado e a expressiva mudança da estrutura da produção, consumo e importações observada neste país desde o início dos anos 2000.

Cabe recordar que, entre 1995 e 2005, a redução da produção norte-americana foi de cerca de 1,5 milhão de barris/dia. Em compensação, as importações americanas cresceram 3,5 milhões de barris/dia (3,8% ao ano). Além disso, até 2008, os estoques eram considerados baixos, variando entre 1,3 e 1,8 milhão de barris/dia, sendo dois terços deste total concentrados na Arábia Saudita, dificultando os aumentos da produção no curto prazo. O crescimento do consumo mundial, entre 2000 e 2005, conduzido pelo aumento das demandas chinesa e americana e pela recuperação econômica mundial, ensejou o medo da falta de abastecimento e contribuiu para explicar a manutenção de patamares elevados do preço do petróleo e, em especial, o pico dos preços, em 2008, quando superou o patamar de US$ 140 por barril.

Porém, é notável a ampliação da produção norte-americana. Em 2005, a produção foi igual a 6,9 milhões de barris/dia; em 2014, ela alcançou 11,6 milhões de barris/dia. Tal variação (4,7 milhões de barris/dia), no espaço de menos de uma década, é equivalente a praticamente duas vezes a produção brasileira de petróleo. Foi igualmente notável o comportamento das importações nos EUA, as quais foram equivalentes a 13,4 milhões de barris/dia, em 2004, e uma década depois foi reduzida para 7,3 milhões de barris/dia em 2014.

Quais os fatores que explicam este movimento? Destaca-se, de pronto, que o aspecto central desta mudança estrutural diz respeito ao aproveitamento econômico das chamadas jazidas não-convencionais. Elas foram fundamentais para o abastecimento de gás natural nos EUA, com as jazidas de shale gas, mas também para o mercado de petróleo, em particular tight oil, transformando o mercado doméstico e influenciando o mercado internacional.

Tal movimento alterou sobremaneira as estruturas de consumo e o comércio internacional de petróleo, pois o ritmo de crescimento das importações mundiais de petróleo sofre forte desaceleração. Em 2014, com relação ao ano anterior, as importações mundiais aumentaram 0,9%, ao passo que o consumo e a produção cresceram respectivamente 0,8% e 2,3%.

Nestas condições, não é difícil entender que o excedente de produção contribui para explicar a forte queda dos preços iniciada no segundo semestre de 2014. Esta queda, para níveis inferiores a US$ 30, observados este ano, ocorreu após quase seis anos de preços no patamar acima de US$ 100 por barril. Os países produtores não OPEP e as principais empresas de petróleo aproveitaram igualmente a década de alta de preços (2003-2013) para investir.

Essa observação mostra que, independentemente dos problemas geopolíticos, o comportamento dos preços também reflete, como em outros mercados, os incentivos econômicos para se iniciar um novo ciclo de investimentos na capacidade de produção. Tal patamar estimulou, portanto, as novas fronteiras de exploração de hidrocarbonetos em jazidas de acesso difícil e, portanto, de custos mais elevados, como o petróleo e gás não convencional. E também favoreceu as decisões de investimento em jazidas convencionais de custos de exploração e produção mais elevados, como no caso do pré-sal brasileiro.

Nestas novas condições de contorno, vale refletir sobre os principais impactos da queda de preços no plano internacional.

Três aspectos merecem ser examinados: i) o enfraquecimento do papel da OPEP; ii) impactos sobre os fluxos financeiros e uma provável onda de fusões e aquisições e iii) o papel do petróleo como preço diretor da matriz energética mundial.

Com relação ao primeiro ponto, vale destacar que este novo episódio marca, provavelmente, um ponto de inflexão na trajetória de atuação da OPEP. Apesar de sempre existirem problemas de coordenação, ficou claro que os países da OPEP passam a ter cada vez mais dificuldade de atuar como cartel. A estratégia de cortes de produção visando a manutenção de patamares mais elevados de preços não encontra mais um consenso entre os países membros. E talvez isto não volte jamais a acontecer, pelo menos da forma de atuação historicamente adotada pela organização dos países produtores.

Isto decorre da acirrada disputa pela manutenção do market share (fatias de mercado) de cada um dos países produtores. Num contexto com um número crescente de produtores e com o retorno ao mercado de países como Iraque e Irã (que retomam suas produções após períodos de guerra e sanções econômicas), uma eventual redução de produção saudita poderia engendrar uma perda de mercado. A Arábia Saudita, por exemplo, sofreu uma redução de exportações de petróleo bruto de 6% e 10% respectivamente para os mercados norte-americano e chinês. Ora, nestas circunstâncias, a Arábia Saudita tem que estabelecer novas relações comerciais para a venda de petróleo. Esta é uma ilustração exemplar do contexto do mercado internacional do petróleo no início de 2016.

Em segundo lugar, importa destacar assim que a mudança estrutural dos fluxos de comércio de petróleo é decorrente, além da redução das importações de petróleo pelos EUA, da estratégia de segurança energética dos países asiáticos. A construção de refinarias de maior complexidade (capazes de processar diferentes tipos de óleo) e a celebração de contratos de fornecimento de óleo de longo prazo foram fatores fundamentais para aumentar as importações asiáticas de óleos mais pesados como os provenientes da América Latina e África. Ademais, estamos num contexto de oferta excedente e diversificada e demanda estabilizada. A oferta é hoje mais diversificada do que no passado, com novos produtores atuando no mercado internacional como exportadores (incluindo Brasil); e com produtores tradicionais, como Iraque e mais recentemente Irã, regressando ao mercado internacional.

Se por um lado, a guerra de preços iniciada em 2014 poderia ser eventualmente efetiva para deslocar produtores de alto custo de produção (como o tight oil nos EUA, do óleo betuminoso do Canadá e mesmo novas jazidas do pré-sal), o mesmo não ocorre necessariamente com os demais competidores de baixo custo, cuja perspectiva é de aumento da produção nos próximos anos, como no caso de Irã e Iraque.

Como se sabe a indústria mundial de petróleo movimenta fluxos financeiros muito expressivos. Com a redução de preços, o valor da produção do óleo bruto foi fortemente afetado, causando perdas bilionárias aos países produtores e beneficiando, em contrapartida, os países importadores.

A produção mundial é hoje da ordem de 96 milhões de barris/dia, dos quais cerca de 37 milhões de barris/dia são negociados no mercado internacional. Com preços passando de US$ 100 para US$ 30 este mercado encolheu em praticamente 1 trilhão de dólares/ano, gerando perdas expressivas, postergação de investimentos e revisão das estratégias e portfólios de ativos de todas as empresas petrolíferas. É de se esperar, portanto, que uma nova onda de fusões e aquisições comece a ocorrer modificando a configuração patrimonial e a estrutura da indústria mundial do petróleo.

Para os produtores e exportadores, além de adiar novos investimentos, a questão crítica diz respeito a qual nível de preços implicaria na redução ou mesmo interrupção da produção dos campos de maior custo já em produção. Neste grupo estão incluídas as novas fronteiras de produção de hidrocarbonetos, como os óleos não convencionais e a produção offshore ultra-profunda, como no pré-sal.

O terceiro aspecto a ser examinado e acompanhado com atenção doravante diz respeito ao comportamento esperado com relação às decisões de investimento em energias renováveis. O resultado promissor da COP 21 permite imaginar que novos instrumentos de política energética deverão ser introduzidos visando acelerar a substituição de combustíveis fósseis. Historicamente, o preço do petróleo é considerado como preço diretor da matriz energética. Quando este preço se elevava, ele estimulava investimento nas denominadas Backstop Technologies. O conceito de  Backstop technology , aplicado às indústrias de energia, indica um limite ao preço de mercado de um recurso exaurível, como se este fosse um preço teto máximo determinado pelo próprio avanço tecnológico; ou, neste caso, uma fonte de energia, que possa ser utilizada, a um determinado nível de preços, em substituição ao petróleo. Tal fenômeno explicaria, por exemplo, os investimentos em fontes alternativas e eficiência energética logo após os choques de petróleo dos anos 1970; e explicaria igualmente a redução destes investimentos após o contra-choque de preços de 1986.

A questão que se apresenta agora, no plano internacional, é crucial para o sucesso das iniciativas a serem implementadas a partir da COP 21. Isto porque os preços baixos podem desestimular investimentos no desenvolvimento de energias limpas, especialmente no segmento de transportes, onde o binômio motor a combustão-gasolina/diesel segue largamente predominante. Evidentemente, mudanças que implicam substituição energética são estruturais e de longo prazo dada a inelasticidade-preço de curto prazo da demanda. Porém, se uma parcela significativa dos compromissos assumidos em Paris vier a ser honrada, pode ser que a condição do petróleo de determinar o chamado preço diretor da matriz energética mundial possa estar em vias de ser alterada. Isto pode acontecer se instrumentos de política energética venham ser introduzidos na direção de mudar preços relativos entre fontes concorrentes, favorecendo as fontes renováveis.

A análise destes aspectos não permite, no entanto, avançar nenhuma conclusão no que diz respeito ao comportamento futuro dos preços. É certo que para que ocorra um aumento que leve os preços a outro patamar, digamos US$ 60 por barril, a oferta excedente tem que ser absorvida e/ou a demanda passe a ser mais vigorosa. Este patamar hipotético, pouco factível de ser alcançado no curto prazo, não excluiria do mercado nenhum produtor marginal, o que reforça a possibilidade de ocorrência de disputas comerciais para conquista ou manutenção de fatias de mercado cada vez mais acirradas. Em contrapartida, por se tratar de recurso esgotável, é natural que jazidas em operação entrem em declínio de produção, o que exigirá em algum momento um novo ciclo de investimentos.

Leia outros textos de Helder Queiroz no Blog Infopetro

  1. É muito bom orientarmo-nos pela lucidez de suas análises, Helder. Gostaria de oferecer algumas contribuições ao texto, e espero que isso inicie uma discussão sobre o assunto no blog.

    Sobre comportamento da OPEP, não vejo muita diferença na dinâmica interna da Organização: os caronas são os de sempre; aqueles que incorrem no ônus da gestão do mercado, também. O que mudou foi sua atuação de seu núcleo: ao passo em que foi incapaz de conter a alta de preços ao longo da década anterior, a recente e abrupta queda parece-me ter sido, senão engenhada, pelo menos permitida pela Arábia Saudita.

    Observe-se que a queda de 2008 foi revertida rapidamente pela ação do Cartel em condições muito mais complexas que a atual, creio. Complexas pela dificuldade de mensuração da necessidade de re-balancemanto no meio de uma crise econômica e de enormes incertezas estatísticas do que deveria ser o “call” da OPEP. Hoje a necessidade de re-balanceamento é muito mais facilmente mensurável: simplesmente oferta x oferta. Porque esta inflexão na atuação da OPEP?

    Sinais de uma guerra de preços, tal qual em 1986, eram já percebidos nos momentos iniciais da queda recente: a revisão dos diferenciais pela Saudi Aramco deixava evidente que sua postura seria de defesa de participação de mercado, não de defesa de preços. Corrobora justamente o conceito explicado em seu texto, o da ciclicidade desta indústria, que parece mais claro nas mentes dos decisores sauditas do que no resto do mercado.

    Se as sementes de um novo ciclo já estão sendo plantadas, resta saber até onde resistirá a produção no curto prazo. Neste sentido, a estratégia da Arábia Saudita pode estar no limite da linearidade dos efeitos desejados. Como exposto no texto, a destruição de valores e, adicionalmente, a desarticulação de cadeias produtivas e a exposição de organismos financeiros e o resultante risco de contágio para o resto da economia mostram que correlação entre preços de petróleo e economia (nesta direção de causalidade) é negativa até certo ponto. Como se diz, “bad is good, but only so far”. O risco de uma crise econômica imporia um custo que creio ser insuportável pela OPEP em meio a uma situação de sobre-oferta: seria um mercado de petróleo inadministrável no curto prazo. Em algum momento, pois, talvez brevemente, acredito que será dado um fim à política de defesa de mercado e alguma defesa de preço será implementada. Não na medida de recompor o balanço de antes da queda, mas para evitar o risco econômico de preços excessivamente baixos.

    Para quem se esqueceu de que esta é uma indústria cíclica, contudo, não poderia haver lições mais contuntendes…

  2. É bom encontrar textos assim, claros e indutores de novos percursos sobre temas tão interessantes e denso. Obrigado Helder e Pertusier.

  3. […] Preços internacionais do petróleo: principais impactos da recente queda de preços […]

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