Grupo de Economia da Energia

Perspectivas da demanda de GNL mundial e no Japão frente à evolução da energia nuclear

In energia nuclear, GNL on 29/02/2016 at 00:15

Por Niágara Rodrigues (*) e Renato Queiroz

O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) adverte que se, em 2050, 80%[1] da eletricidade no mundo não for de baixo carbono a meta de um aumento máximo de 1,5°C na média da temperatura do planeta não será alcançada. E as consequências apontadas pelos especialistas em mudanças climáticas trazem preocupações. Nesse contexto, determinadas fontes consideradas de “transição” para uma economia de baixo carbono vão cumprir o papel de gerarem energia para movimentar o desenvolvimento econômico mundial.

Em um cenário global há duas fontes que são apontadas como fortes participantes da geração de eletricidade nesse período de transição juntamente com as fontes renováveis: o GNL (Gás Natural Liquefeito) e a geração nuclear. Certamente há diferentes realidades entre os diversos países, mas nas análises globais essas são as fontes que disputarão maiores fatias de investimentos, juntamente com as fontes renováveis.

A energia nuclear é uma alternativa aos combustíveis fósseis na produção de eletricidade e vem experimentando uma expansão importante nos últimos anos. Em 2014, a energia nuclear foi a quarta fonte mundial geradora de eletricidade, a qual contribuiu com cerca de 11% do fornecimento de eletricidade no mundo de acordo com a Agência Internacional de Energia (IEA).

Nos últimos anos a indústria nuclear expandiu a demanda por reatores. Atualmente existem 65 reatores em construção em 15 países. O maior destaque vai para a China com 21 reatores em construção.

Cumpre destacar que  em um cenário no qual todos os reatores nucleares em construção no mundo  entrem em operação e sejam conectados à rede,e ainda, se o Japão religar  todos os seus reatores que foram  desligados após o desastre de Fukushima I em 2011, tem-se um acréscimo de cerca de  17% de potência instalada de energia nuclear. A capacidade instalada passaria dos 381,6 GW em 2014 para 445,8 GW em 2030.

O Japão depende de fontes externas de energia primária em 96%. O desligamento dos reatores após Fukushima levou a um aumento, principalmente,  das importações de gás natural e petróleo para alimentar suas usinas termelétricas, o que provocou um déficit comercial (WNI, 2015).

Dentro desse contexto, os japoneses passaram a ser o maior importador de GNL no mundo, sendo o destinatário de 36% do GNL comercializado internacionalmente (BP, 2014). Entretanto, os reatores nucleares japoneses estão sendo gradualmente reativados, assim que o governo terminar de realizar a retomada da geração de termeletricidade nuclear. A demanda de GNL asiática deve ser afetada no longo prazo.

Segundo IGU (2014), a ausência de clareza sobre a política energética japonesa entre 2011 e 2014, principalmente quanto à possibilidade de retomada da produção de termeletricidade a partir de seus reatores nucleares, intensificou o grau de incerteza no mercado global de GNL.

Por outro lado, as energias renováveis vêm sendo favorecidas pelo avanço tecnológico acelerado nos últimos anos, bem como pelas políticas energéticas de subsídios de alguns países. Após dois anos em declínio, o investimento global em energia renovável aumentou para US$ 270 bilhões em 2014. Somente a China gastou mais de US$ 83 bilhões em 2014 (31% do total mundial) entre eólica e solar (WNI, 2015). A tendência é de que essas fontes ganhem cada vez mais competitividade. Em 1995 a participação das fontes renováveis, excluindo hidroeletricidade, representava pouco mais de 1% na produção mundial de energia elétrica. Já em 2014 essa participação alcançou 6%. A perspectiva é de aumento dessa participação, atingindo 15% em 2030, com maior produção das novas renováveis – eólica e solar (IEA, 2015).

Há analistas que avaliam que o atual preço baixo do petróleo pode retardar investimentos nas fontes renováveis. Outros, ao contrário, entendem que há mais oportunidades para renováveis nesse ambiente de petróleo abaixo de U$ 40 o barril. Afinal, as reservas com custos maiores de extração,como as do pré-sal no Brasil, as areias betuminosas no Canadá e os próprios campos americanos de óleo e gás não convencionais podem ter um cronograma de desenvolvimento retardado. Em síntese, as renováveis estarão participando desse jogo de negócios no período de transição juntamente com o GNL e a nuclear.

Em relação ao mercado mundial de GNL observou-se um crescimento acelerado nos últimos anos, estimulado pelo aumento dos preços do petróleo, no passado recente, e por pressões de demanda advindas das preocupações com a segurança de abastecimento. Tal crescimento introduziu uma flexibilidade no comércio internacional, integrando o mercado desse combustível. Essa conjuntura fez com que os eventos regionais – como na Ásia, por exemplo – passassem a ter uma capacidade cada vez maior de impactar o mercado global.

Deste modo, a dinâmica do mercado de GNL nos últimos anos foi influenciada pela diminuição da demanda europeia e da demanda dos principais consumidores asiáticos. Soma-se a isso a queda dos preços do petróleo que levou à redução dos preços do GNL. Esse cenário criou um ambiente de incerteza quanto à demanda futura desse energético. Pelo lado da oferta, as projeções da Internacional Gás Union (IGU, 2015) indicam que no médio prazo haverá permanência de um período de sobre oferta de GNL.

À luz dessa análise, quais são as perspectivas da demanda no mundo e no Japão de GNL, frente à evolução da geração nuclear? Quais são as possíveis inter-relações entre os mercados de GNL, energia nuclear e renovável?

Nesse sentido, com o objetivo de conhecer o comportamento da demanda por GNL e captar as possíveis inter-relações com energia nuclear e renovável, buscou-se uma metodologia que pudesse estimar a demanda por GNL no mundo e no Japão. Para tanto, fez-se uso do modelo de série temporal denominado Vetor de Correção de Erros (VEC, sigla em inglês) para o período de 1977 e 2013.

Os parâmetros da função de demanda por GNL foram estimados a partir da seguinte relação:

renato022016Em que  Cenel é o consumo de energia elétrica no período t,  Nucl é produção de energia elétrica a partir da energia nuclear no ano t,  Renov a produção de energia elétrica a partir das fontes renováveis (excluindo hidroeletricidade) no ano t, e  u é o termo de erro.

Um dos fatores essenciais para a análise da evolução da demanda mundial por GNL é o consumo de energia elétrica de longo prazo. Elevar a demanda de energia elétrica significa uma elevação da procura das suas fontes geradoras, tais como GNL, nuclear e renovável. Esse aumento da participação das fontes renováveis no despacho elétrico provocará o deslocamento das plantas de gás, e, por conseguinte, reduzirá a necessidade de importação do GNL para a geração de energia elétrica.

O vetor de co-integração estimado que descreve a relação de equilíbrio de longo prazo da demanda de GNL e seus determinantes [2]está apresentado na Tabela 1.

Tabela 1 – Resultados da Estimação da Demanda por GNL mundial e do Japão (1977 – 2013)renato022016aFonte: Resultados da pesquisa. Nota: * Significativo a 1%, ** Significativo a 5%

A evolução da demanda por GNL mundial e japonesa tem uma forte relação com o consumo de energia elétrica de longo prazo.A magnitude dessa evolução é que demandará um portfólio de fontes de geração de energia elétrica tais como GNL, nuclear e energia renovável.

Verificou-se que a demanda de GNL mundial apresentou-se mais sensível às variações no consumo de energia elétrica no longo prazo do que às variações na produção de energia nuclear. A elasticidade-eletricidade média de longo prazo, no período analisado, é elástica (-2,92). Já a elasticidade-nuclear de longo prazo é menos sensível (0,15).

Ao realizar o mesmo exercício para a demanda por GNL no Japão, encontrou-se uma maior relação entre a demanda de GNL e  a produção de energia nuclear, com uma elasticidade de 1,69. Por outro lado, a variável  𝑅𝑒𝑛𝑜𝑣  não é significativa. Assim sendo, o acréscimo da geração de energia elétrica por fontes renováveis não representou um impacto significativo na variação da demanda por GNL japonesa no período analisado.

Conclusão

Inferiu-se pelo exercício que há uma inter-relação pequena entre os mercados de energia nuclear e GNL no contexto mundial [3].

No entanto, no Japão, constata-se uma forte relação entre demanda por GNL e produção nuclear [4].

Em adição, observou-se que a demanda por GNL mundial também é afetada pela variação na produção de energia elétrica via energia renovável. Entretanto, não é possível captar essa influência no Japão, explicado pela pequena participação das fontes renováveis na matriz elétrica japonesa, em torno de 2% em 2013.

Referências:

Agência Internacional de Energia (AIE). World Energy Outlook 2015.

British Petroleum (BP). BP Statistical Review of World Energy. June 2014. London, UK, 2014.

International Atomic Energy Agency (IAEA). Nuclear Power Reactors in the World.IAEA-RDS-2/35.Vienna, 2015.

International Gas Union (IGU). World LNG Report. 2015.

International Gas Union (IGU). World LNG report: 2014 edition. Fornebu, Norway, 2014.

Queiroz,R; Rodrigues,N ( 2016) – “O complexo jogo das fontes de geração de energia elétrica na transição para uma economia de baixo carbono”. Revista Brasil Energia, fevereiro 2016 .

World Nuclear Industry (WNI). The World Nuclear Industry Status Report 2015. A Mycle Schneider Consulting Project. Paris, London, july 2015.

Notas:

(*) Doutoranda da Universidade Federal Fluminense

[1] Atualmente este percentual está um pouco acima de 30%.

[2] Todas as variáveis estão logaritmizadas. Assim, obtêm-se diretamente as elasticidades dos parâmetros , B1, B2  e B3.

[3] Baixa sensibilidade constatada no modelo, 0,35.

[4] Demanda elástica de 1,69.

Leia outros textos de Renato Queiroz no Blog Infopetro

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