Grupo de Economia da Energia

Bioeconomia em construção VIII – O potencial inovador das trajetórias baseadas em recursos naturais: a vida fora do high tech

In biocombustíveis on 11/04/2016 at 00:15

Por José Vitor Bomtempo

vitor042016

A bioeconomia envolve o uso de recursos biológicos renováveis que são convertidos em energia, produtos e materiais. O uso de matérias-primas renováveis, de biomassa de diversas origens, tem para a construção dos diversos setores da bioeconomia uma importância fundamental. É o caso, por exemplo, dos segmentos de bioenergia, produtos químicos e materiais derivados da biomassa, a chamada biobased industry.

A posição brasileira na produção desses recursos – cana de açúcar, culturas agrícolas, florestas para papel e celulose – gera uma oportunidade de aproveitamento desses insumos para a construção de uma forte indústria biobased. Mas qual o potencial inovador dessa trajetória baseada em recursos renováveis? O discurso da capacitação tecnológica e inovadora é frequentemente reticente em relação às trajetórias baseadas em recursos naturais. A capacitação inovadora dos países emergentes costuma ser vista como um esforço de alcance do nível de capacitação dos países desenvolvidos nos segmentos dinâmicos da indústria. É o famoso processo catching-up que nas últimas décadas tem o exemplo coreano como o case exemplar. Trajetórias baseadas em recursos naturais seriam então a princípio limitadas para a geração de capacitação inovadora de ponta para o país.

Alguns trabalhos recentes têm se dedicado a questionar essa percepção, Talvez esteja se abrindo uma linha interessante de pesquisa que pode contribuir muito para o país entender o potencial da indústria biobased não só como geração de exportações competitivas – em geral de mérito reduzido na visão de alguns porque “não passam de commodities” como a soja – mas como fonte privilegiada de capacitação inovadora de ponta em escala mundial.

A especificidade dos recursos naturais e dos problemas que a indústria neles baseada enfrenta tornaria sem sentido a noção de catching-up pela inexistência de referências a alcançar. Em vez disso, o desafio é um path-creating para a solução de problemas novos e sem referência nos países desenvolvidos que, pela especificidade das trajetórias, têm pouco ou nenhum desenvolvimento já realizado.

O primeiro dos trabalhos é o de Wellington Pereira, na tese defendida na UFPR em 2015, A PARTICIPAÇÃO DO ESTADO NO FOMENTO AO ETANOL COMO UMA OPORTUNIDADE  ESTRATÉGICA DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO: AS POLÍTICAS FEDERAIS DE ESTÍMULO AO ETANOL NO BRASIL E NOS EUA. O foco da pesquisa é a discussão do uso dos recursos naturais como uma forma de estimular o desenvolvimento tecnológico e econômico. O autor destaca o debate sobre os resultados obtidos pelos países onde os recursos naturais são mais abundantes, comparativamente aos países mais industrializados.

Na tese, busca-se recuperar essa discussão com o intuito de reinterpretar as trajetórias baseadas em recursos naturais, “tradicionalmente associadas a um viés negativo do ponto de vista do desenvolvimento econômico.” Estabelecida a discussão sobre o potencial caráter virtuoso das trajetórias baseadas em recursos naturais, o trabalho dedica-se ao caso do etanol e das políticas públicas voltadas para o seu  desenvolvimento tecnológico, em particular visando ao etanol de segunda geração. O papel dessas políticas é destacado e faz-se uma detalhada comparação dos programas e mecanismos de apoio nos casos do Brasil e dos EUA. Chega-se à conclusão de que o potencial inovador do etanol não parece ser efetivamente reconhecido pelas políticas públicas no Brasil na mesma medida que nos EUA.

O segundo trabalho, o artigo de Paulo Figueiredo Discontinuous innovation capability accumulation in latecomer natural resource-processing firms, publicado na revista Technological Forecasting and Social Change, em 2010, adota uma abordagem diferente. A pesquisa se dedica a caracterizar detalhadamente como a indústria florestal, de papel e celulose no Brasil desenvolveu caminhos de construção de capacitações que se afastam da lógica do catching-up  e que poderiam ser próprios das indústrias de processamento de recursos naturais. O trabalho extrai suas conclusões do estudo de 13 empresas dos segmentos florestal, papel e celulose. As trajetórias de desenvolvimento tecnológico e inovador dessa s empresas foram estudados no período 1950 a 2007. Vale a pena reproduzir a amplitude dos resultados obtidos na forma que nos apresenta Paulo Figueiredo:

(1) in contrast with the majority of case studies reported in the literature, the pathways followed by firms in their accumulation of innovation capability involved a qualitative departure from the established technological trajectory at an early stage in the development of their capability;

(2) the pathways of firms along the new technological trajectories were nevertheless characterised by a high degree of variability (from intermediate to world leading innovators) in terms of the levels and speeds of the accumulation of innovation capability;

(3) firms that have attained progressively higher levels of innovative performance have more rapidly developed a combination of internal and external research-based arrangements in order to undertake increasingly complex, but firm-centred innovation efforts.”

Além da contribuição metodológica para uma linha de pesquisa que estude o processo de construção de capacitações inovadoras nas indústrias baseadas em recursos naturais, o trabalho identifica que algumas empresas foram capazes de criar uma posição de liderança mundial. Essa liderança se deu a partir do desenvolvimento de capacitações que seguiram caminhos próprios e inovadores para resolver problemas que não tinham referência em outros países. O cultivo do eucalipto, por exemplo, tornou-se mais produtivo no Brasil do que no seu país de origem, a Austrália.

Para ilustrar o potencial do segmento de papel e celulose analisado na pesquisa de Paulo Figueiredo do ponto de vista da construção de capacitação inovadora de nível mundial, é interessante citar o artigo recente publicado na revista Economist Pulp producers in Brazil: Money that grows on trees. Nesse artigo, a competitividade das empresas brasileiras na produção e exploração de recursos florestais é destacada e elogiada de forma entusiasmada. Mais interessante para a perspectiva da construção da bioeconomia é a conclusão do artigo que aponta a busca de novas oportunidades para o uso do eucalipto na produção de biocombustíveis, bioprodutos e bioplásticos. Citam-se iniciativas de algumas empresas nessa direção e o dirigente de uma delas afirma entusiasmado: “Money can grow on trees. It just takes time.”

Um terceiro trabalho que merece ser destacado é a tese de doutorado de Rafael Gonzalez, sob orientação do prof Paulo Figueiredo, defendida recentemente na EBAPE/FGV:  PROCESSO ALTERNATIVO DE CATCH-UP EM INDÚSTRIAS INTENSIVAS EM RECURSOS NATURAIS: UMA ANÁLISE EMPÍRICA DA TRAJETÓRIA TECNOLÓGICA DA INDÚSTRIA DE BIOETANOL DE CANA-DE-AÇÚCAR NO BRASIL. A tese continua a exploração do processo de desenvolvimento tecnológico e inovação em indústrias intensivas em recursos naturais no contexto de economias emergentes que Paulo Figueiredo tinha iniciado. A tese explora como a acumulação de capacidades tecnológicas e os mecanismos de aprendizagem influenciaram a trajetória tecnológica na indústria de bioetanol de cana-de-açúcar no Brasil, no período de meados da década de 1970 a 2014.

O ponto de partida novamente é a tendência dos estudos de capacitação tecnológica e inovadora de tomarem o catching-up como um processo tendo em vista as atividades industriais normalmente reconhecidas como de elevado conteúdo tecnológico.  Os estudos não costumam reconhecer que o desenvolvimento de capacitações inovadoras de primeiro nível poderia ocorrer em indústrias intensivas em recursos naturais. Essas indústrias intensivas em recursos naturais são geralmente identificadas como commodities e low-tech, caracterizadas por uma limitada oportunidade de aprendizagem e acumulação de capacidades tecnológicas.

Baseando-se em evidências da indústria de bioetanol do Brasil, Rafael Gonzalez faz um riquíssimo levantamento do processo de aprendizagem tecnológica e acumulação de capacidades tecnológicas no bioetanol brasileiro, incluindo as trajetórias agrícola e industrial. Foram exploradas 20 organizações envolvidas com o etanol junto às quais foram colhidas evidências empíricas do processo de capacitação inovadora em longo prazo.

As principais conclusões apontam que: (1) a evolução da trajetória tecnológica da indústria de bioetanol no Brasil caracterizou-se pela abertura de uma direção distinta daquela mapeada por líderes tecnológicos existentes. Esse processo de desvio qualitativo da trajetória tecnológica dominante iniciou-se durante os primeiros estágios de desenvolvimento tecnológico. A indústria percorreu uma trajetória que seria melhor designada como path-creating e não como o tradicional catching-up; (2) a evolução dessa trajetória tecnológica não foi  homogênea. Identificaram-se três padrões relativamente distintos de acumulação de capacidades em áreas tecnológicas específicas: feedstock, processos agrícolas e processos industriais. Em feedstock  (produtividade da cana de açúcar) e processos industriais, houve acumulação de capacidades tecnológicas de liderança mundial, enquanto na função processos agrícolas a acumulação de capacidades tecnológicas ficou apenas em nível intermediário; (3) essas capacidades foram acumuladas de forma dispersa entre os atores da indústria (empresas produtoras, institutos de pesquisa, universidades, fornecedores, empresas de biotecnologia etc.) e possibilitaram a abertura de oportunidades de exploração de novos negócios, ainda que modestamente aproveitadas; e (4) a sutil heterogeneidade encontrada nos padrões de acumulação de capacidades tecnológicas foi influenciada pela combinação de mecanismos de aprendizagem tecnológica utilizados pela indústria ao longo do tempo.

Uma conclusão importante do trabalho é que, a exemplo do caso das empresas da indústria florestal, papel e celulose, posições tecnológicas relevantes, especialmente por indústrias de economias emergentes, podem ser alcançadas por meio de trajetórias tecnológicas que não se baseiam, necessariamente, em tecnologias dominantes, já exploradas por líderes mundiais, de economias avançadas. Estabelece-se assim um processo alternativo de catching-up que, pela sua originalidade e ponto de partida, parece ser melhor designado como um processo de path-creating.

Reunindo de certa forma as contribuições dos três trabalhos, forma-se  uma visão de que no debate sobre desenvolvimento industrial e econômico, as trajetórias tecnológicas alternativas, como aquelas  das indústrias intensivas em recursos naturais, deveriam receber uma atenção especial  das políticas públicas e das estratégias empresariais.

Os trabalhos sugerem portanto que as trajetórias baseadas em recursos naturais teriam características próprias de construção de capacitação inovadora com nível de liderança mundial porque se estabelecem numa perspectiva de path creating e não do clássico cathching-up. A busca de uma trajetória competitiva que pudesse rivalizar com o domínio chinês nos diversos ramos industriais foi um tema que  esteve presente nos últimos artigos e entrevistas do saudoso professor Antônio de Barros Castro. Uma interessante coletânea desses trabalhos está na publicação O inconformista: homenagem do IPEA ao mestre. Castro chega a identificar o etanol como base de uma possível trajetória. As oportunidades e a evolução da bioeconomia, e em particular do segmento da biobased industry, utilizando os recursos da biomassa brasileira para a produção de bioenergia, produtos químicos  e materiais seriam hoje certamente um tema que iria sensibilizar e mobilizar a inteligência do professor Castro. O blog gostaria muito de conversar com ele sobre essas ideias. Por isso, modestamente, me atrevo a deixar essa postagem como uma pequena homenagem ao mestre.

Leia outros textos de José Vitor Bomtempo no Blog Infopetro

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s