Grupo de Economia da Energia

O forte ajuste da indústria de petróleo e gás

In petróleo on 30/05/2016 at 12:35

Por Renato Queiroz

renato 052016A Situação

Em uma conjuntura de queda do preço do petróleo com excesso de oferta, arrefecimento da economia chinesa – sendo a China o primeiro consumidor de petróleo – e retorno do petróleo iraniano ao mercado, aumenta fortemente a insegurança dos investidores na indústria de óleo e gás. Os inúmeros fóruns de debates com a presença de executivos de empresas petroleiras, prestadoras de serviços, consultores especializados vêm avaliando quais as consequências, as sequelas e as perspectivas dessa indústria.

Há, hoje, uma movimentação intensa de contratação de consultores especializados para mapear a situação em detalhes e apontar soluções que tragam melhores resultados para as companhias de petróleo e gás, prestadoras de serviços e fornecedoras de equipamentos. É uma nova crise para entrar na lista das grandes crises da indústria do petróleo com fortes resultados negativos: falências, desemprego, prejuízos.  Segundo o professor do GEE Edmar de Almeida: “as empresas operadoras estão tentando se ajustar à nova realidade de preços através do corte dos investimentos. Isto terá um impacto devastador para a cadeia de fornecedores que terá que realizar um ajuste ainda maior. Basicamente, ainda vamos ver muito desemprego e um número importante de empresas quebrando”. (Edmar, 2016)

A tônica é: como ajustar as contas? Os executivos da indústria de óleo e gás e também seus credores já entenderam que uma recuperação satisfatória, para estancar os prejuízos com essa queda dos preços do petróleo, não deve ocorrer no curtíssimo prazo, talvez um ano ou um pouco mais.  A situação não é animadora para grandes aumentos do preço do petróleo, dizem os analistas.  Acontece que esse tempo pode ser longo. Muitas empresas podem não suportar um jogo de perdas acumuladas.

E como as majors vão mudar seus rumos de negócios?  O fato é que a queda dos lucros das empresas e dos fundos públicos dos países produtores de petróleo é alta.  A diminuição de arrecadação tributária vem abalando as finanças dos países produtores.

No entanto, anos antes da crise, uma luz vermelha deveria ter sido acesa no planejamento financeiro das petroleiras.  Afinal, embora os preços do petróleo estivessem altos e a demanda aquecida, as margens não acompanhavam o percentual de aumento dos investimentos. Talvez os cenários alternativos de preços mais baixos de petróleo não tivessem sido suficientes para que as empresas assumissem mudanças de rumos ou fossem capazes de indicar movimentos mais cautelosos nas estratégias de suas empresas. Ou, quem sabe, não foram feitos esses cenários. Assim, vale ressaltar que a Petrobras não foi a única empresa que trabalhou em seus Planos de Negócios considerando o preço do óleo cru super avaliado.

Mas é difícil comparar as causas dos resultados negativos financeiros entre empresas; pois há movimentos individuais que podem agravar os resultados ainda mais.  No caso da Petrobras houve outros fatores que influenciaram no nível de perdas, aprofundando ainda mais os prejuízos.

As contas das companhias petrolíferas têm duas parcelas significativas: as descobertas economicamente atrativas e o preço internacional do petróleo. Os cenários estratégicos devem trabalhar mexendo com essas duas parcelas, além do monitoramento dos meandros geopolíticos dos grandes produtores de petróleo. 

Cenários desfocados

Mas por que o planejamento de cenários que nos foi ensinado por Pierre Wack e sua equipe na Shell não atuou na crise atual?  Na década de 70, a equipe da Shell ficou conhecida ao utilizar essa técnica na busca de eventos que pudessem afetar o preço do petróleo auxiliando, assim, a tomada de decisões organizacionais.  Para Wack, o fator importante era a oferta: as decisões estratégicas na indústria de petróleo mundial viriam de quem controlava as reservas. Tal estudo estratégico teve um resultado fantástico para a Shell.  Nos anos 70 quando houve a conhecida alta dos preços de petróleo, a Shell, que não estava nos primeiros lugares dentre as sete grandes Petroleiras da época, teve lucros extraordinários, passando a ser referência em previsões para a indústria de petróleo.

Mas volta a questão: por que a ferramenta de cenários não atuou satisfatoriamente nas previsões para evitar tal magnitude dos prejuízos?

Há um fato a ressaltar: entre janeiro de 2002 e julho de 2008, o preço do Brent cresceu 584% em valores nominais, passando de US$ 19,42/barril para US$ 132,72/barril. Nesse período, o barril de Brent alcançou, em 11 de julho de 2008, um pico de cotação diária de US$ 143,9/barril. Apesar desse elevado patamar de preços, várias instituições continuavam apontando para a manutenção de um forte viés de alta das cotações. No entanto, em agosto, a média mensal dos preços do petróleo caiu 26,7%, atingindo US$ 113,24/barril (EPE 2008).  Tal fato nos leva a crer que os analistas avaliaram que esse movimento era um ajuste no nível dos preços de petróleo e não mexeram nas suas lentes, para perceberem que poderia ser uma reversão de tendência de alta do preço da commodity. Isso representaria um fato portador de futuro. Assim, alguns cenários de queda de petróleo já poderiam ter sido ensaiados, monitorados, reavaliados mais de perto.  Mas a recuperação dos preços nos anos posteriores tirou do radar, com certeza, esse movimento de queda. Ver a figura 1 abaixo.

Figura 1. Variação do Preço do Petróleo

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Fonte: Agência Reuters

Para o economista Paul Krugman, “havia uma crença entre economistas de que, quando a cotação do barril de petróleo caía, abria-se um contexto favorável à economia mundial, uma vez que as pressões inflacionárias sobre os países importadores seriam menores, os consumidores teriam mais dinheiro no bolso e as empresas ganhariam mais disposição para investir. Isso ocorria quando o preço do barril caía entre 10% e 20%, mas não em um cenário em que a redução é de 70%” (E-internacionalista 2016).

Outra explicação sobre a falta de percepção dos analistas para a curva descendente dos lucros das grandes petroleiras foi a de que, antes mesmo da forte queda do preço do petróleo, o foco era o sucesso das empresas americanas de fracking.  A revolução do não convencional americano levou os EUA  a reduzirem suas importações, passando a China a ser o maior importador.  A produção americana quase dobrou ao longo dos últimos anos, e empurrou para fora do país as importações de petróleo.  Esse fato levou a diversas análises sobre a mudança de expectativas da economia americana e os efeitos desse papel dos Estados Unidos na geopolítica do petróleo.  Mas nada se viu sobre a tendência de queda dos lucros das empresas Petroleiras que vinha ocorrendo.

Hoje muitas empresas que exploram o óleo e o gás não convencional nos Estados Unidos estão com suas portas fechadas, abaladas pela crise.  A estratégia da Arábia Saudita teve seus objetivos alcançados.

As empresas americanas que atuam nos serviços de fraturamento hidráulico buscam, sob um grande esforço, negociar com os fornecedores a baixa dos preços dos insumos, para continuarem no mercado.   A companhia americana especializada em análise de riscos corporativos CreditSights prevê que, entre 2015 e 2017, quase a metade das empresas americanas do setor de óleo e gás poderá falir (E-internacionalista, 2016).

Projetos de Alta Tecnologia Postergados

As companhias de Petróleo têm uma tradição de investimentos em pesquisas em inovações tecnológicas que resultam em complexos projetos. No entanto, a atual crise vai postergar a conclusão de projetos tecnológicos inovadores.  O que se lê dos executivos da área de petróleo é que suas empresas vão focar, cada vez mais, em tecnologias que reduzam custos e melhorem a eficiência das maiores empresas de petróleo.

Mas os projetos de grande complexidade tecnológica que são locomotivas do desenvolvimento futuro dessa indústria e exigem vultosos investimentos devem ter seus cronogramas postergados. Nesse contexto, destacam-se a tecnologia CCS – Carbon Capture and Storage -, ou seja, a captura e armazenamento de CO2.  Também entre esses projetos as plantas flutuantes de liquefação de gás natural -Floating Liquefied Natural Gas –FLNG.

A CCS é uma tecnologia tida como fundamental pelos órgãos ambientais para combater as alterações climáticas, juntamente com o uso de fontes de Energia Renovável e da Eficiência Energética. A crise das majors faz com que recursos governamentais sejam necessários para o desenvolvimento de novos projetos. Mas as dificuldades financeiras de muitos governos corroboram para as postergações dos projetos. Um exemplo é o Peterhead CCS projeto da Shell na Escócia. O projeto tinha um planejamento definido através de uma parceria entre a indústria e o governo inglês. Mas o projeto teve um revés quando o governo cortou o financiamento. O interessante desse projeto que, no médio prazo funcionaria como âncora para desenvolver um hub CCS na região, será adiado sem definição de prazo. A Shell continua ainda envolvida em projetos de captura e armazenamento de carbono em outros países como Canadá, Austrália e Oriente Médio.

No caso das FLNG a ideia é aproveitar os campos de gás em alto-mar, solucionando a inviabilidade de instalação de infraestrutura de transporte via duto na maioria dos casos. Ou seja, o navio ou barcaça flutuante, como é chamada, explora os campos de gás natural a vários quilômetros da costa e faz a conversão para a forma líquida, ainda em alto mar, dispensando o uso de gasodutos para a conversão em unidades terrestres e depois o transporte. Têm-se noticias que a Shell, a Chevron e a australiana Woodside Petroleum estão adiando projetos dessas embarcações flutuantes de GNL.

A empresa de consultoria norueguesa Rystad Energy fez uma estimativa ao Wall Street Journal, reproduzida pelo Jornal do Brasil on line (JB 2016), que desde que os preços do petróleo começaram a cair, há quase dois anos, a indústria petrolífera já adiou ou cancelou US$ 270 bilhões em projetos.  (JB 2016) 

Conclusão

Vale listar alguns pontos a serem refletidos sobre essa crise, quando muitas empresas tentam sobreviver ao pior colapso do petróleo em 30 anos:

i) A crise em uma indústria desse porte afeta os riscos de crédito na maioria das empresas;

ii) As perdas e danos, se o preço do petróleo continuar volátil com tendência de queda, podem ser bem maiores na cadeia de fornecedores e prestadores de serviços com a continuidade de redução de investimentos das operadoras;

iii) As prioridades de muitas empresas serão administrar o caixa e como tal novos projetos de exploração e perfuração, além do adiamento de grandes projetos de tecnologias avançadas;

Iv) Estratégias clássicas financeiras do mercado futuro podem ter deixado resultados negativos em muitos negócios. Assim, os hedges em situações de quedas acentuadas e incontroláveis dos preços da principal commodity energética podem gerar precificações não atrativas e deixarem as empresas de exploração expostas. Certamente o especialista em negócios tem estratégias de estabelecer um piso mínimo garantido, ou seja, a empresa recebe o piso mesmo que o petróleo caia abaixo desse valor. E ainda há outras “jogadas” do mundo financeiro aplicadas. O nível atual do preço do petróleo, no entanto, de cerca de US46/ barril traz insegurança aos analistas financeiros das empresas. Afinal o mercado global de petróleo permanece substancialmente com excesso de oferta e será que o atual preço é sustentável nesse patamar? Mas é certo que a área de gerenciamento de riscos torna-se um elemento importantíssimo nesse contexto;

vi) Vendas de ativos que tragam significativos recursos diante de grandes endividamentos, fusões de empresas, reestruturação na governança das operadoras, busca de eficácia nos processos operacionais, ajustes nos marcos regulatórios são soluções comuns que se apreendem nos debates e reuniões com especialistas sobre o reposicionamento das grandes empresas de exploração no âmbito global. Mas será que esses ajustes são corretos e suficientes para trazer a desejada saúde financeira às empresas?

Referências:

  1. Almeida, Edmar (2016); PennWell do Brasil; http://www.pennwell.com.br/pt_BR/articles/2016/04/entrevista-exclusiva-edmar-almeida-ind-stria-do-petr-leo-uma-d-cada-perdida.html. Acessado em 16 de maio 2016.
  2. E-internacionalista (2016). A crise do Petróleo em 12 atos; http://e-internacionalista.com.br/2016/02/02/3770/#A2. Acessado em 17 de maio de 2016.
  3. EPE (2008)- Contexto Mundial e Preço do Petróleo: Uma visão de Longo Prazo – NT-EPE-DPG-SPT-001/2008-r0.
  4. Jornal do Brasil on line (2016); ‘WSJ’: Grandes petrolíferas desistem de projetos caros e complexos; http://www.jb.com.br/economia/noticias/2016/05/06/wsj-grandes-petroliferas-desistem-de-projetos-caros-e-complexos/. Acessado em 20 de maio de 2016.
  5. Junior, Antonio; Oliveira, Luiz Claudio. Kilimnik, Zelia (2010). O planejamento de cenários como aprendizado. Future Studies Research Journal ; ISSN 2175-5825 S. Paulo, v.2n.103-32, jan/jun 2010.
  6. Global CCS Institute: Large Scale CCS Projects; https://www.globalccsinstitute.com/projects/large-scale-ccs-projects Acessado em 19 de maio de 2016.

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