Grupo de Economia da Energia

A jabuticaba elétrica

In energia elétrica on 25/07/2016 at 00:15

Por Ronaldo Bicalho

bicalho072016Se só existe no Brasil e não é jabuticaba, não é coisa boa. Essa frase é bastante conhecida e sempre utilizada quando se deseja desqualificar algo que só existe no Brasil. Apresentada de diferentes maneiras e em distintas ocasiões, a teoria da jabuticaba sintetiza as dificuldade de alguns analistas na hora de tratar especificidades que não se encaixam nas explicações de cunho geral disponíveis na praça. Algumas são boas, outras são más, porém, ao fim e ao cabo, jabuticabas são apenas jabuticabas.

O setor elétrico brasileiro pode ser visto como uma grande jabuticaba; pode ser encarado como algo que existe só no Brasil e, em consequência, segundo a teoria da jabuticaba, não é uma coisa boa. No entanto, essa opinião pode ser simplesmente fruto da incapacidade de compreender a real natureza desse setor e, portanto, de identificar as qualidades da fruta.

A análise da transição elétrica brasileira no contexto da transição do setor elétrico no mundo oferece uma boa oportunidade de qualificar as potencialidades da nossa jabuticaba elétrica. Nesse caso, é necessário, inicialmente, identificar qual é, de fato, a singularidade do setor elétrico brasileiro, para então qualificar essa singularidade no quadro da transição mundial.

Considerando a transição elétrica mundial como sendo a substituição dos combustíveis fósseis pelos combustíveis renováveis da matriz elétrica, a transição elétrica brasileira representaria o movimento inverso. Se no caso mundial a mudança se daria a favor dos renováveis, resultando na ampliação significativa da participação desses na matriz, no caso brasileiro, os favorecidos seriam os combustíveis fósseis, que aumentariam a sua participação na matriz brasileira.

Assim, premido pela mudança climática, o setor elétrico no mundo marcharia em direção aos renováveis. Restringido pelo esgotamento do processo de exploração do seu potencial hidráulico, o Brasil caminharia para uma participação maior das térmicas no parque de geração e, portanto, dos combustíveis fósseis na sua matriz de geração (considerando as fortes dificuldades enfrentadas pelo nuclear no país). Assim, enquanto a mudança climática empurraria o setor elétrico no mundo na direção dos renováveis, a exaustão do seu modelo hidráulico empurraria o setor elétrico brasileiro na direção dos fósseis.

Nessa visão, o setor elétrico brasileiro estaria fadado a ir perdendo a sua singularidade, com as centrais hidráulicas perdendo o seu protagonismo em prol das centrais térmicas. Assim, o modelo brasileiro estaria deixando de ser específico para adquirir um caráter mais universal. Nesse caso, nossas especificidades estariam perdendo força na definição do modelo técnico-econômico-institucional que estrutura a operação e a expansão do setor.

A descaracterização estrutural do setor, fruto da mudança radical na matriz de recursos naturais, abriria espaço para um maior protagonismo das térmicas, e com isso para a estruturação de um modelo institucional mais próximo do padrão internacional, com prevalência dos mecanismos de mercado na coordenação do setor.

Nesse contexto, o processo em curso poderia ser definido como uma descaracterização irreversível do setor elétrico brasileiro no qual iriam desaparecendo as nossas jabuticabas elétricas.

No entanto, é necessário definir melhor a singularidade do setor elétrico brasileiro na contextualização da transição elétrica brasileira face à transição mundial.

A análise apresentada anteriormente carrega uma visão da singularidade do setor elétrico brasileiro como sendo a participação elevada das energias renováveis – leia-se hidráulica – na matriz elétrica. Por conseguinte, na medida em que essa participação vai se reduzindo, a singularidade do setor vai se esmaecendo.

Contudo, o que torna o setor elétrico brasileiro singular é a elevada significância dos reservatórios em relação à carga no sistema elétrico brasileiro. A capacidade máxima de estocagem dos reservatórios das usinas brasileiras ultrapassa 40% da carga demandada por esse sistema.

Se colocarmos essa grande capacidade de estocagem no centro da singularidade brasileira, a contextualização adquire nuances bastante interessantes.

A transição elétrica mundial é um processo indefinido, existindo muitas incertezas técnicas e econômicas sobre o seu desenrolar. Portanto, estamos falando sobre um processo em aberto.

Nesse processo, a evolução da participação das renováveis na matriz elétrica depende do avanço da capacidade do setor elétrico de injetar flexibilidade para fazer frente à intermitência dessas fontes. Para isso, é fundamental desenvolver: capacidade de estocagem, flexibilidade das centrais e cobertura e inteligência de rede.

Nesse sentido, a elevada capacidade de estocagem e a alta flexibilidade das centrais hidrelétricas características do sistema elétrico brasileiro constituem recursos extremamente favoráveis à expansão das renováveis.

Vista por esse ângulo, a singularidade brasileira residiria na sua capacidade de encaixar uma expansão significativa de energias renováveis variáveis. De tal forma que não estaríamos na contramão da transição elétrica mundial, mas consoantes com ela.

Face a isto, não há uma redução do papel das hidrelétricas (com seus reservatórios), mas uma mudança desse papel. Esse conjunto – hidrelétrica + reservatório – era protagonista no paradigma brasileiro anterior e tem condições de continuar sendo protagonista do novo paradigma; só que desta vez muito mais alinhado com o global do que antes.

Em suma, a transição elétrica brasileira não se contrapõe, necessariamente, à transição elétrica mundial; pelo contrário, ela tem condições de não só convergir com essa transição, mas de ir mais longe nessa transição, graças aos recursos que dispõe o país.

A questão-chave em relação a isto é como se monta um modelo que permita explorar esse potencial de avanço na transição elétrica, transformando esses recursos em vantagens competitivas para o país.

Nesse sentido, a jabuticaba elétrica brasileira é uma coisa boa e o grande desafio é como tirar partido dessa vantagem em benefício do desenvolvimento do País. Portanto, besteira e idiotice é a teoria, não a fruta.

Nota: Esse texto em muito se beneficia do debate interno sobre o setor elétrico em curso no Grupo de Economia da Energia. A responsabilidade do conteúdo é do autor, porém a inspiração é fruto desse trabalho coletivo. Portanto meus agradecimentos aos colegas: Edmar de Almeida, Helder Queiroz, Luciano Losekann, Miguel Vazquez, Roberto d’Araújo, Renato Queiroz, Clarice Ferraz e Diogo Lisbona.

Leia outros textos de Ronaldo Bicalho no Blog Infopetro

 

  1. Concordo Ronaldo que a singularidade brasileira no nosso setor deva continuar realizando o Backup da fontes renováveis, porem para isto é necessário que façamos mudanças na operação do nosso sistema, que terá impacto na expansão, caso contrário iremos criar novamente uma “Nova Jabuticaba” no Setor Elétrico brasileiro.

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